My Life in the Bush of Ghosts

1966.
A minha mãe está de pernas abertas, sobre a cama. A tentar expulsar-me de dentro dela. A parteira está com dificuldades. Não quero sair. Não quero vir para este mundo ganancioso e estúpido. Tenho de ser arrancado a ferros do conforto da minha mãe.
1975.
Estou na sala. De joelhos. A espreitar, pelos buracos da persiana não totalmente fechada, a rua. A ver a quantidade de gente que passa, a manifestar-se, a caminho da porta de armas do RAL4. Gritam O povo unido jamais será vencido. Mal sabem eles!
O meu pai entra em casa. Viro-me para dentro. Vejo-o ir ao quarto. Vejo-o trazer uma pistola na mão. Ouço a minha mãe O que é que vais fazer? O que é que vais fazer? Tem cuidado! Ouço o meu pai Anda tudo doido, lá fora!
1984.
Estou numa canadiana. Algures no Estoril. Talvez não seja bem o Estoril. Mas é na zona. Está a chover. Está a chover que Deus-a-dá! Estou enfiado dentro do saco-cama. Todo enfiado dentro do saco-cama. A cabeça coberta. Tapo os ouvidos para não ouvir a chuva a cair. Sinto a água a passar por baixo de mim. Imagino-me arrastado numa onda gigante e sugado para dentro do Atlântico.
1993.
Estou na cama. O edredão sobre a cabeça. Ouço as pessoas a passar na rua, mesmo junto à cabeceira da cama. Não consigo levantar-me. Não consigo sair da cama. Tocam à campainha. Batem à porta. Chamam-me. Gritam. Não atendo. Não estou. Não sou.
2001.
Estou em Nova Iorque. Estou em Manhattan. Estou à janela, do alto do meu apartamento. Estou de boca aberta. Incrédulo. Na linha do meu olhar, no meu horizonte, vejo um avião a espetar-se nas Twin Towers. Vejo uma das torres a cair. Depois a outra. Vejo uma enorme nuvem de pó a cobrir a ilha de Manhattan. Estou parado à janela. A ver. Não consigo desviar o olhar. Não consigo sair daqui. Não consigo mexer-me.
2018.
Estou em casa. Sentado no sofá. A casa às escuras. A televisão desligada. O telemóvel, em cima da mesa de apoio, na sala, só marca as horas. Só. Lá fora, na rua, a cidade em festa. Há fogo de artifício que me entra, às cores, em casa, pelas janelas de persianas abertas. Ouço música. Gritos de alegria. Cantoria. Passos de danças. Ponho as mãos nos ouvidos. Tento enfiar os dedos nos ouvidos. Quero bloquear os sons da alegria. Quero silêncio.
2019.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/31]

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