A Culpa Não Morre Solteira

Estávamos os dois ali assim, parados, um frente ao outro. Eu olhava-o, mas não o via. Estava a tentar perceber. Estava ainda a tentar perceber o que tinha acontecido. Ele olhava-me de baixo para cima. O focinho virado para baixo, para chão, e os olhos revirados para cima, a tentar ver-me, com medo mas a tentar ver-me, a tentar perceber o que é que eu iria fazer. Ele sabia que tinha feito asneira.
Eu agarrava a mão com a outra mão. Tinha sangue na camisola, nas calças, nas botas. Havia sangue espalhado à minha volta. A mão estava aberta. Ainda não me tinha começado a doer muito. A doer a sério. Estava ainda um bocado sem perceber muito bem o que tinha acontecido. Só sabia que a culpa era minha. Não era dele. Era minha. O tempo tinha parado. Parado naquele momento de loucura momentânea. Para ele e para mim. Aquele momento pareceu uma eternidade. A olharmo-nos. Um ao outro. A zanga. A fúria. O medo.
E então, começou a doer-me. A doer-me bastante. Acordei. Vi-o. Ele estava à minha frente. A olhar para mim. Eu estava do outro lado do olhar dele. Uma mão agarrava a outra. Rasgada. Quase cortada à dentada. O sangue a jorrar. A dor. Então, sim. Finalmente. A dor. A dor a sério.
Ele estava com fome. Há três dias que estava preso pela corrente à casota. Há três dias que não tinha comida. Há três dias que ia juntando merda ali à volta da casota, até onde a corrente o deixava ir. Há não-sei-quanto-tempo sem água. Há três dias que uma miúda – miúda! uma gaja!… – me levou não-sei-para-onde, e me deu não-sei-o-quê, e estivemos por lá, onde quer que tenha sido esse lá, sem sair de onde estávamos, a fazer tudo o que duas pessoas podem e conseguem fazer quando estão sozinhas não-sei-onde, até que me lembrei do cão. O cão! Tenho de ir dar comida ao cão! E foi então que regressei.
E então, percebi.
Acho que ele estava zangado comigo. E com razão. Acho que estava com fome. E sede. E quando me viu chegar, quando me percebeu ali, de regresso, ali ao pé dele, ali, na zona de exclusão da sua corrente, saltou para cima de mim e ferrou-me os dentes. Ferrou-me os dentes onde me apanhou primeiro. Na mão. Na mão porque foi o que encontrou. Foi a primeira coisa a que conseguiu deitar os dentes. Ferrou os dentes na minha mão e puxou. E eu puxei numa tentativa vã de a fazer soltar. E este conflito de puxar para um lado e para outro quase que me fazia ficar sem mão. E então ele percebeu. Percebeu quem eu era. Percebeu o que estava a fazer. Percebeu que não devia ter feito o que fez. E abriu a boca. Retirou os dentes. Permitiu que eu retirasse a mão. Mesmo com ela rasgada e a deitar sangue para cima de mim, para cima dele, para o chão. E agarrei-a com a outra mão.
A culpa não era dele. A culpa era minha. Eu é que tinha faltado. Eu é que tinha cometido o erro.
Virei costas e voltei a casa. A deixar um rasto de sangue pelo caminho.
O cão ficou lá junto à casota. Encolhido ao lado da casota. O rabo entre as pernas. As orelhas para baixo.
Entrei em casa e procurei um pano. Procurei na gaveta dos panos de cozinha. Agarrei num e atei-o à volta da mão, numa tentativa de estancar o sangue. Precisava de pontos.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Meti a mão boa no fundo do armário e agarrei na caçadeira. Abri a gaveta e apanhei dois cartuchos. Coloquei-os na arma. Fechei o cano. Saí do quarto. Saí de casa. Voltei à casota.
A culpa era minha. Não era dele.
Pensei que teria de apanhar os cagalhões do cão e de lavar tudo à mangueirada. Estava tudo cheio de mijo. Cheirava mal. Tudo cheirava mal. Ele cheirava mal. Até eu parecia cheirar mal.
Aproximei-me do cão. Apontei a caçadeira.
A culpa era minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/25]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s