Tempos Estranhos, estes!

Tempos estranhos, estes.
São tempos de moeda. Finança. Quem não tem jeito para vender está posto de lado. Deixado para trás. Crê-se num crescimento desmedido e infinito. Como se o futuro não chegasse nunca. Mas ele é já hoje! Agora! Não crescer é morrer. Estamos já todos mortos à espera de vez.
O deus do homem é o cartão de crédito.
Festeja-se o nascimento de um refugiado e fecham-se as portas e erguem-se muros contra esses mesmos refugiados. Porque não se pode albergar toda a gente. Sim, é verdade. Então é preciso criar condições de vida para além dos nossos muros. Deixar de roubar o que não é nosso. Em nome do progresso. Em nome do consumo. Não se festeja o refugiado. Festeja-se o bacalhau. O polvo. As filhoses e as rabanadas. O vinho e o espumante. E os presentes. As milhares de caixinhas de Ferrero-Rocher que andam de casa em casa. Passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo.
Finanças. Progresso. Moral.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Era assim que eu ouvia contar quando era criança. Onde isto já vai!
In God We Trust!, they say.
São tempos estranhos, estes. Têm-se mais medo de uma mulher nua que de um homem morto. Há um politicamente correcto que cortou tudo a direito e massacra-nos a cabeça com a moral. Os bons-costumes. A pureza. Temos de ser assépticos. Esconder os mamilos.
Houve tempos em que mulheres nuas vendiam perfumes, carros, jóias. Hoje não se pode mostrar um mamilo. Um rabo. Uma vagina. A não ser que seja A Origem do Mundo.
No meu mundo, no meu mundo de portas fechadas à razão, não visto a moral. No meu mundo os homens têm pilas. As mulheres têm mamas e vaginas. Todos, mas todos, homens e mulheres e outros géneros têm sexo. Porque querem. Se não quiserem não têm. O que eles não têm, mesmo, é a porra de uma pistola na mão. O que eles não têm é um dedo no gatilho. O que eles não têm é um estômago de ferro para os impedir de vomitar ao ver a fome que grassa para além dos muros. E mesmo aquém.
São tempos estranhos, estes. É Inverno. Estamos em Dezembro. Às portas do Natal. Eu estou de t-shirt sentado no alpendre. Olho a montanha verde lá ao fundo. O céu está azul. Ouço os pássaros a chilrear. Fumo um cigarro.
Ela chega do interior de casa. Está nua. Descalça. Aproxima-se do varandim. Traz uma caneca de café a fumegar nas mãos. Beberica. Mas o que me chama a atenção são as mamas dela. Estão um pouco descaídas. Mas são redondinhas. Belas. Como duas lágrimas enormes prontas a tombar mas que, afinal, ficam por lá, a olhar para mim. Os mamilos eriçados, talvez por causa de algum vento frio que não descortino. Ela vira-se. Sem pudor algum. Encosta-se ao varandim. Dá as costas à montanha. Descobre-se para mim. Uma pequena penugem sobre o sexo a garantir que já não é uma criança. Eu largo o cigarro no chão e levanto-me. Aproximo-me dela. Tiro-lhe a caneca de café das mãos. Encosto-me.
In God We Trust!
Nem moeda, nem finança, nem venda, nem deus, nem nada…
Há lá coisa melhor que uma mulher?
São tempos estranhos, estes, em que há gente que o esquece.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/23]

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