Este Ano Foi Assim, para o Ano Logo se Vê

A minha mãe costumava dizer Este ano foi assim, para o ano logo se vê.
Eu fui à Nazaré ao final do dia. Beber uma cerveja no Sítio e ver o pôr-do-sol. Estava um final de dia maravilhoso. O sol laranja incandescente ao fundo, sobre o mar. Fiquei à espera do Raio Verde, mas o sol pôs-se atrás das Berlengas. Malditas ilhas que me mataram o olhar. O sol foi-se mas o céu permaneceu, ainda durante bastante tempo, em tons púrpura. A verdade é que não parecia Dezembro. Inverno. Natal. Estava sol. Estava calor. O céu em fogo. O mar de prata. O tempo é uma coisa esquisita só ao alcance de alquimistas. Cada vez mais entendo menos o que se passa.
Quando regressava, já quase de noite, a cor púrpura a dar lugar a um azul bastante escuro, quase preto, descobri a Lua. Uma Lua enorme. Talvez a maior Lua que já vi na vida. Parei o carro. Saí. Acendi um cigarro e fiquei ali, parado na berma da estrada, a olhar aquela Lua enorme que me fazia lembrar o Elliott a voar na bicicleta com o E.T. no cesto. Ao mesmo tempo provocava-me uma angústia. Esta Lua, belíssima, transtornava-me a cabeça. Fazia-me doer. Fazia-me sentir irritado. Não sei com quê nem com quem. Só irritado. Maldita Lua cheia que ainda me ia pôr a uivar!
Regressei a casa.
Estava com fome.
Pus-me a fazer um bocado de arroz. Abri uma lata de atum e desfiz o atum em farripas. Abri uma garrafa de vinho. Uma garrafa das Cortes. Tinto. Sem rótulo. Acabei a misturar ao arroz com atum umas azeitonas que descobri no frigorífico. Despachei a garrafa de vinho. Afinal tinha era sede.
Depois, no fim de comer, levantei-me e fui fumar um cigarro à janela. Mal abri a janela chegou-me, vindo da casa de alguma vizinha, a Tempestade da Márcia. A voz desta rapariga dá-me volta à cabeça e ao coração. Prende-me a respiração. Dá-me tonturas.
Acabei o cigarro. Acendi outro. Sentia-me ansioso. Não sei se era da Lua. Da Márcia. Do Natal. Da solidão. Olhava a rua, os prédio em frente, as janelas com luz e sentia um vazio dentro de mim. Trouxe o olhar para dentro de casa. Olhei a parede branca em frente. A fruteira sobre a bancada de mármore. As cadeiras vazias à volta da mesa de madeira. O silêncio no interior de casa. A Tempestade que vinha do exterior. Eu ali no meio. A cabeça num turbilhão de conversas. Como se eu fosse muitos e estivéssemos todos a falar ao mesmo tempo.
E dou comigo a pensar Quando ouço alguém dizer, e hoje ouvi dizê-lo, no meio de uma confusão de conversas soltas, que a vida é uma dádiva, pergunto para quem? Para quem é que a vida é uma dádiva? Porque é que é uma dádiva?
Que raio!
Gostei de ter visto aquele pôr-do-sol maravilhoso. Aquela Lua enorme. Mas não me chega. Se é a vida é só isto, não é uma dádiva é um logro. Enganado pelas lantejoulas e purpurinas.
Este ano foi assim, para o ano logo se vê. Mas não espero grande coisa. Grande coisa da vida, claro. Nunca foi. Nunca é.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/22]

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