Quero Algo para as Dores da Alma

Parti um dente. Ou melhor, parti um pedaço de um dente que já estava partido. A minha boca parece um palácio antigo, que já foi glorioso e está decadente, a precisar de obras. Já me faltam alguns dentes, mas são atrás, na boca, e não me dói.
Este começou a doer. Mal o parti, percebi logo. Um primeiro rasgo de dor mal o parti. Ele partiu-se rente à gengiva. Talvez tenha magoado a gengiva. A verdade é que ela inchou.
Estava no café quando o parti. Estava a beber uma bica. E a comer uma fatia de Bolo Rei oferta da casa para festejar o Natal. Não gosto de Bolo Rei. Mas sou educado. Dei uma trinca. Dei duas. Trinquei a fava. Percebi logo. Percebi o barulho. O dente a trincar a fava. O dente a partir. A dor na gengiva. A dor aguda na gengiva. Contraí-me. Abri a boca e o pedaço de dente caiu para cima da mesa. Fiquei ali a babar-me. Um pedaço de cuspo, encarnado, saía da boca até ao pedaço de dente. Ao mesmo tempo havia outros pedaços de cuspo a caírem-me pelo queixo abaixo. Foda-se, ao que cheguei!
Levei a mão à boca. Já não consegui beber o resto da bica. Nem comer o resto da fatia de Bolo Rei. Deixei uma moedas ao balcão. A rapariga viu-me ir embora assim, tão rápido, que me perguntou Está tudo bem?, e eu nem lhe respondi.
Na montra mais próxima olhei-me para um vidro. Via-me mal. Era um vidro, não um espelho. Abri a boca. E percebi a falta do dente. Tinha de ir ao dentista. E fui. Urgência. Era possível? Sim, era! Tinha de esperar um bocado. E esperei. Esperei. Gastei a bateria do telemóvel. Esperei. Esperei. Dormitei. Fui acordado. Fui atendido. E agora? O que fazer?
Arrancar a raiz e colocar um dente? Quanto é? Ah, não. Não arrancar a raiz. Não! Quero algo para as dores. Quero algo para o inchaço. Quero algo para prevenir uma inflamação. Quero ter dinheiro. E outra vida. Quero festejar o Natal. Ser feliz. Sim! Mas basta-me um anti-inflamatório e um paracetamol. Obrigado! Sim, pago lá fora. À saída. À menina da recepção. Um Feliz Natal. Sim, sim! Obrigado.
Saí com uma receita para aviar. Químicos para as dores físicas. As outras têm de aguentar. O Natal não é para todos. O Natal não é quando um homem quiser.
Ao descer no elevador olhei para o espelho. Olhei para mim no espelho. Abri a boca. Vi o buraco. Uma cratera. Um poço sem fundo. Tudo em mim doía. Principalmente o amor-próprio. Sentia-me um pedaço de dente partido e deixado caído no chão. Sentia-me um traste. Um traste despido e com a pila encolhida frente a uma multidão.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/21]

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