O Ribeiro sem Fundo

Estou numa aldeia. Numa aldeia qualquer. Não reconheço esta aldeia de lado nenhum. Não sei como é que aqui vim dar.
Estou frente à igreja. A igreja é branca. Restaurada. Tem azulejos alusivos a quadros bíblicos. Um tubo de plástico contorna-lhe a fachada. Penso que sejam luzes de Natal. Mas não tenho a certeza. É dia e não estão a funcionar.
Olho em frente. Uma casa de aspecto senhorial. Não está decadente, mas já teve dias mais gloriosos. É bonita. Um pequeno quintal em volta da casa comporta um jardim. Bem tratado, por sinal.
Eu não sei o que fazer. Não sei o que estou aqui a fazer. Começo a andar para a esquerda e a estrada sobe. A rua tem casas. Casas de pessoas. Pequenas casas de aldeia. Caiadas. Com rebordo azul. Algumas. Não todas. Portas de alumínio. As janelas também. A maior parte delas, pelo menos. Algumas têm as portadas fechadas. Há um cão no meio da rua. Um cão preto. Grande. Está parado a olhar para mim. Eu páro. Acendo um cigarro. Olho para o cão. Ele rosna. Eu volto para trás.
Desço a rua. Volto a passar em frente à igreja e continuo para baixo. Há um café. Café da Aldeia. Está escrito no vidro da janela, a letras desenhadas e já quase comidas pelo tempo, e no toldo sobre uma pequena esplanada de duas mesas e oito cadeiras e cinzeiros cheios de cinza e beatas.
Entro no café. Não está ninguém. Um porco-espinho cruza a sala, assustado por mim certamente. Há uma garrafa de aguardente no balcão. Olho à volta. Não há ninguém. Só uma televisão a debitar um programa da tarde. Por baixo da televisão uma árvore de Natal. Uma árvore a sério. Um pequeno pinheiro. Com luzes a piscar. E bolas coloridas. E fitas de muitas cores. Debruço-me sobre o balcão e apanho um copo. Um copo de galão. Despejo-lhe um bocado de aguardente e bebo-o de um trago. Saio do café.
Continuo a descer a rua. Há um pequeno mini-mercado. Está fechado. Continuo. As casas vão rareando.
Há uma galinha, parada na berma da estrada, a olhar para mim. As casa vão rareando cada vez mais. Até deixarem de existir. Mas a rua, a estrada, continua. Olho para trás e ainda vejo, lá ao fundo, a galinha a olhar para mim. É uma galinha preta. Só agora dou conta disso. É uma galinha preta.
Eu continuo pelo estrada. Já deixei as casas para trás. Já deixei a aldeia para trás. Já deixei a galinha preta para trás. Estou num campo. O asfalto deu lugar à terra batida. A estrada é agora um caminho. À minha direita pereiras. À esquerda laranjeiras. As árvores estão cheias. É época da pêra?
À minha frente há um ribeiro. Uma ponte de madeira cruza-o. Aproximo-me. O ribeiro fica lá no fundo. Num buraco. Não consigo ver a água a correr lá em baixo. É fundo, o buraco. Aproximo-me mais da margem, mas sinto algum receio de cair. Deve ter uma grande profundidade. Ouço a água a correr, mas não a vejo. Mando um pedregulho. Escuto. Mas não escuto. Chegou ao fim? Há fim? Ou fui eu que não ouvi?
Começo a atravessar a ponte de madeira. A ponte range. Sinto a madeira a ceder debaixo dos meus pés. Mas não consigo voltar para trás. Tenho medo. Estou a transpirar. Dói-me a cabeça. Começo a correr. Tropeço. Caio. Caio entre as grades laterais. Caio da ponte. Caio para o ribeiro. Caio naquele buraco enorme. Sem fundo. Sinto-me cair. Sinto-me a cair mas não chego ao fim. Não vejo nada. Está tudo escuro. Lanço os braços para a frente e para os lados. Procuro alguma coisa. Não encontro nada.
E depois…
E depois estou a pular na minha cama. A pular no colchão como se tivesse caído do tecto. Aos solavancos. Estou a transpirar. Estou assustado. Com medo. Acendo a luz da mesa-de-cabeceira. Sento-me na cama. Olho à volta. É o meu quarto. Reconheço a cama. O livro de Cormac McCarthy na mesa-de-cabeceira. As calças e as cuecas largadas no chão. O cheiro a chulé das sapatilhas. Acalmo. Ponho a mão no coração para me ajudar a acalmar. Estou em casa. Estou no quarto. Estou na cama. Estou acordado. Estou vivo. Estou calmo.
Tomo um zolpidem. Apago a luz. E tento voltar a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/20]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s