Três Furos em Quinze Dias

Três furos. Três furos em quinze dias. Três furos em três pneus diferentes. Um é azar. Dois é coincidência. Três? Três é…
Coloquei um jogo de pneus há dois meses. Pneus novos, depois de anos a sobreviver a pneus carecas que nunca me deixaram ficar mal. Nunca furaram. Nunca derraparam. Sempre travaram. Sempre agarraram o asfalto.
Há dois meses troquei de pneus. Quatro pneus novos. O carro até sofreu um upgrade. Os pneus valiam quase mais que o carro. Mas não eram um luxo. Eram uma necessidade.
Há quinze dias o primeiro furo. A caminho de uma noite de Sábado. Um Sábado de chuva. Um furo a meio do caminho. Trocar de pneu à chuva. Às escuras. Regressei a casa. Já não houve noite de Sábado. Depois descobri um prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu.
Há dois dias o outro pneu da frente. Tinha ido ao supermercado. No regresso das caixas, com os sacos das compras, descobri o pneu em baixo. Mudar de pneu no estacionamento do supermercado. Entre carros e compras. Entre famílias e criancinhas. Toda a gente a olhar. E eu a mudar o pneu. Ali de cu para o ar. Outro prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu. Há coincidências.
Ontem ao sair de casa descobri o carro em baixo. Outro pneu. Desta vez um traseiro. O furo anda a dar a volta ao carro. E à minha paciência. Lá fui mudar o pneu. Acabadinho de tomar banho. Ainda com cheiro do sabonete Musgo no corpo e o Basic Homme da Vichi nos sovacos. Outro prego. Um prego enorme. Novo. Direitinho. Espetado no pneu. Não é uma coincidência.
O que é que se faz? O que é que se faz nestes casos?
Eu sei que os pregos foram lá colocados. Não vi quem foi. Não estava lá. Mas desconfio. Tenho quase a certeza. Mas é que é mesmo uma certeza.
Não ando com o carro em estaleiros. Nem faço rallies, nem provas de perícia. Não ando em caminhos de cabras. Sou cauteloso.
Claro que foi propositado. Claro que foi uma declaração de guerra. E eu sei de quem. Desconfio. Mas desconfio com muita certeza. De uma forma muito clara.
E sei onde é que ele vai todos os dias de manhã beber café.
E hoje de manhã fui lá. Espreitei pela vitrina do café. Vi-o sentado ao balcão. De costas. O que é que se faz nestes casos? Respirei fundo. Tentei acalmar o coração. Ganhei coragem. Entrei.
Fiz o caminho da porta até ao balcão de olhos fixos na nuca do tipo. Ele bebia um café e uma aguardente. Parei atrás dele. Respirei fundo de novo. Coloquei a mão esquerda no ombro para lhe chamar a atenção. Ele virou-se. Olhou para mim. Vi o gozo espalhado no olhar dele. Um leve sorriso trocista na boca. Eu levantei o braço direito e deixei cair, com força, o podão na cabeça dele. O podão que ia levar para cortar um pinheiro para árvore de Natal (sou contra os de plástico). Já não o iria cortar. Espetei o podão na cabeça do tipo. Ele continuou sentado. Os olhos na minha direcção. Em silêncio. E começou a escorrer um fio de sangue pela cabeça abaixo. Depois o fio já era quase um pequeno riacho. Os olhos ficaram baços. O corpo tombou um pouco, de lado, mas ficou preso ao balcão, o que lhe davam um ar estranho, ali sentado, uma aguardente ao lado, com o podão espetado na cabeça e o sangue a escorrer pela cara abaixo.
Eu estava calmo. Sentei-me ao balcão. Ao lado dele. Pedi um café. E pus-me à espera da guarda.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/13]

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