Brincadeiras Perigosas

Desatámos todos a fugir. Cada um para o seu sítio. Quase todos nos estaleiros dos prédios em construção. Fazíamos muito barulho. Pisávamos restos das obras. Tubos em pvc. Telhas. Tijolos. Pedaços secos de cimento. Algumas tábuas. Era preciso cuidado com as tábuas que podiam conter pregos. Depois entrávamos nas casas abertas, ainda sem paredes. Sem portas nem janelas. Eu encostava-me a um pilar. Deixava-me escorregar para o chão. Parava de respirar. Sentia o coração a bater muito. Muito e depressa. E punha-me à escuta. A tentar ouvir algum barulho na calada da noite. Ainda ouvia uns passos que logo se extinguiam. Escondiam-se, os passos. O motor do carro estava a funcionar. E aquela voz, invariavelmente zangada, Venham cá! Venham cá, meus caralhos! Eu sei que estão aí! E estávamos. Mas não íamos. Ficávamos ali escondidos. Entre as obras. À espera que o carro arrancasse. Que o carro arrancasse e levasse o homem com ele lá dentro. E que voltasse o silêncio. E então, sim. Eu saía de onde estava. Os outros também. E preparávamos a próxima vítima.
A estrada. A estrada escura entre dois prédios em construção. Uma placa de zinco tombada no chão da estrada. Uma estrada de pouco asfalto. De muita brita. E terra. E areia. E cimento. E tijolos partidos. E buracos. Pronto, buraquinhos. Umas pequenas ausências de asfalto na estrada, restos inacabados que ficavam do abre-e-fecha da estrada para colocar um cano de esgoto, o tubo da electricidade, a conduta da água, o cabo do telefone. Depois, uns de um lado da estrada e outros do outro. Um rolo de papel higiénico estendido de um lado ao outro da estrada. Cada grupo agarrava numa ponta. À altura dos olhos. E esperávamos. Havia sempre um. Havia sempre um carro que se atrevia a passar por ali. Estrada escura, ainda sem iluminação pública. Boa para namorar. Boa para namorar dentro do carro. E então, nós esperávamos por eles. Os carros.
E eles vinham. Com a escuridão da noite. Faróis ligados a seguir a estrada do bairro em construção até um tapume, uma barraca. E, de repente, aquele raio de luz. Os faróis incidiam na folha branca esticada do papel higiénico que reflectia aquela claridade de volta ao carro, ao condutor e ao susto. O condutor, num primeiro momento, assustava-se. Assustava-se com o flash de luz a cruzar a estrada de um lado a outro. E depois, a chapa de zinco a ser pisada. O barulho ensurdecedor na noite. A aldrabar os travões. O carro a pisar barulho e a deslizar em surf citadino. Uma desgraça. Um susto. O medo.
Geralmente os carros davam meia volta e regressavam pelo mesmo caminho. Com fogo no rabo. Alguns, mais afoitos, percebiam a marosca. Brincadeira de putos. Glória de adolescentes. Saíam dos carros e prometiam porrada. Venham cá! Venham cá, meus caralhos! Eu sei que estão ai!.
Uma noite as coisas podiam ter corrido mal. O carro chegou. Cegou com o flash de luz. Assustou-se com o barulho na placa de zinco. Fez um pião ao travar. E enfaixou-se numa betoneira.
Silêncio.
Esperávamos a reacção. Para saber o que fazer a seguir. Mas estava silêncio. Estariam feridos? Mortos? De repente uma porta do carro a abrir. E um tiro. Dois tiros. Três tiros. Desatámos todos a fugir. Desta vez a fugir mesmo de lá. A fugir a sério. Agora já não era brincadeira. Agora, alguém podia magoar-se. Fugíamos para a rua. Para casa. A casa de cada um. O refúgio seguro. O refúgio com os pais. E foi nessa altura que C. escorregou na brita, ao descer uma rampa, caiu, e foi por ali abaixo, a rolar pela brita. Parámos todos a olhar para trás. P. foi ajudar C. a levantar-se. E fui espreitar o carro. E vi um homem parado, ao lado da porta aberta do carro, com o braço direito esticado e uma pistola na mão. À escuta. Mas só se ouvia o silêncio.
P. trouxe C. amparada. C. chorava de dores. Mas chorava baixinho. Muito baixinho. Sabia que não podia fazer barulho. Estava de t-shirt. Os braços raspados na brita, com manchas de sangue. As unhas partidas e pretas. As mãos tentaram apoiar a queda e deslocou um dos pulsos. Estava inchado. As calças de ganga rasgaram nos joelhos e viam-se manchas de sangue a surgir a toda a volta dos buracos rasgados nas calças. C. vinha cheia de dores. A coxear agarrada a P.
Demos a volta por trás, pelos limites do bairro, e voltamos à rua. A rua da segurança. A nossa rua. E nessa noite regressámos cedo a casa. Estávamos assustados. Com medo. E com pena de C.
Na noite seguinte regressámos aos estaleiros. Mas tínhamos de preparar algo de diferente. E mais terrível. E preparámos.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/12]

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