Um Miserável com Vida Longa

Foi no final da década. Saí da cidadezinha e fui até à cidade grande. Fui estudar. Para um curso que não acabei. Mudei. Acabei a fazer um curso que não me mata a fome. Deslumbramentos dos anos dourados da juventude. Hei!
Quando mudei de cidade andei uns tempos à procura de qualquer coisa que não sabia bem o que era. Dava-me com os conhecidos da cidadezinha. Com os colegas de curso. Com os amigos da ganza. Ainda não conhecia os sítios. Só as pessoas. As coisas mudaram quando troquei as pessoas pelos sítios. Os sítios são muito mais interessantes que as pessoas. Encontrei uns bons sítios. Os melhores sítios. Os sítios que me mudaram a vida. Não mudaram para bem nem para mal. Simplesmente mudaram. Têm sido uns sítios maravilhosos.
Antes de encontrar os sítios fui dando-me com essas pessoas que, de uma forma ou outra, circulavam à minha volta. E foi assim que a conheci. Era amiga de uns conhecidos da cidadezinha. Não, ela não era da cidadezinha. Era de uma outra terrinha, parecida com a cidadezinha, mas sem o ser. Ela também era uma inha. Era uma daquelas raparigas que, mesmo quando fosse velhota, seria qualquer-coisa-inha. São um estrato social, as inhas. Nunca foi feito nenhum estudo sociológico sobre estas pessoas, mas devia ser feito. Normalmente são herdeiras de impérios. Normalmente fodem tudo e fodem mal. Não de propósito. Não por maldade. Nem sequer por leviandade. Só porque sim. Porque são inhas.
Bom. Eu conheci essa inha na sua fase New Age. Foi com ela que percebi o que era a Era do Aquário. O Jesus Christ Superstar passou a fazer muito mais sentido. E, mais tarde, senti-me muito mais preparado para entrar no mundo bizarro do Alejandro Jodorowsky. Ela era toda signos – quis saber o meu antes mesmo de saber o meu nome. Ela não via caras, nem corações. Via signos. E dava primazia aos chineses. Foi, aliás, o que nos aproximou, ou a ela de mim: eu era de um daqueles signos chineses fantásticos de que toda a gente gostaria de ser mas só uns poucos eleitos tinham tido essa sorte. No início ela era só uma vozinha irritante (tinha uma voz muito aguda, de desenho-animado) mas acabei por achar piada a todo aquele misticismo astrológico, uma espécie de Oráculo de Bellini que ajudava a passar as longas noites de Inverno quando as aulas eram chatas e falhávamos dias inteiros só porque podíamos.
Uma noite, numa daquelas noites gastronómicas onde se inventavam comidas, um gourmet antes de tempo, experiências loucas de cozinha, tudo a servir de veículo para despachar garrafas de vinho do produtor, sem rótulo, levadas das diferentes terrinhas para os amigos experimentarem, resolveu utilizar toda a sua parafernália esotérica. Leu-me a mão, deitou-me as cartas de Tarot e consultou-me com o I-Ching. E, de toda a lenga-lenga que me foi apresentada, abrindo as auto-estradas da minha vida futura, como consequência das minhas vidas passadas, esta e as outras, só guardei o que me disse no final Nunca vais ter uma grande vida. Vais falhar todas as tuas metas… Nunca serás ninguém importante… Nunca terás muito dinheiro… Não serás um indigente, mas não andarás longe… No fundo, serás um incompreendido… Mas haverá sempre alguém que te dará um prato de sopa… Foda-se! pensei. Foda-se! Fiquei ali sentado, do outro lado da mesa, de mão estendida, apático, o dedo dela a percorrer-me uma linha-da-mão e a dizer mais coisas que já não ouvi, sem saber o que pensar ou dizer. Estive ali uma eternidade. A eternidade e angústia. Depois levantei-me e fui embora. Nunca mais a vi.
Tenho-me lembrado dela ultimamente, pelo rumo que a minha vida tomou. Nunca esqueci aquelas palavras. Podem não ser exactamente as que disse. O tempo pode tê-las distorcido. Mas o espírito era mesmo aquele. E tenho-me perguntado se a minha vida é como é porque era esse o meu destino e ela limitou-se a lê-lo, ou a minha vida é como é porque me senti condicionado pelo que me foi contado?
Ao mesmo tempo que mergulho nesta angústia, penso no Corto Maltese. Sim, não tem nada a ver. Mas tem. Penso na Linha-da-Vida que ele marcou a golpe de navalha. Rasgou a palma da mão para sobreviver ao mundo perigoso onde respirava. E penso fazer o mesmo. Rasgar uma enorme Linha-da-Vida na minha mão. Posso ser um miserável, mas quero ser um miserável que sobrevive a todos os génios, inhas e filhos-da-puta, sejam da cidadezinha, sejam da cidade grande, que enchem a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/07]

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