Tomei Banho

A serra ali em frente tem sempre um capacete a proteger-lhe o cume. Às vezes nem o vejo. O capacete subtrai-o. Outras vezes o capacete ganha umas abas que descem serra abaixo e, milagre, a serra desaparece.
É normal haver capacete sobre a serra e o resto do céu estar limpo. Azul, azul-água, azul-bebé, cinzento, branco-sujo. Mas sem nuvens. Elas juntam-se sobre a serra numa orgia monumental: por vezes percebo as nuvens movimentarem-se, lentamente, sobre a serra, a acariciá-la, a dar-lhe mimo. Por vezes chove. Por vezes chove só mesmo lá na serra.
É o que está acontecer agora, na serra. Está a chover. Aqui está sol. Um sol amarelo. Envergonhado. Não há nuvens. Não vai chover. Mas chove lá em cima. Na serra. Percebo daqui.
Estou no alpendre a tentar arranjar o aspirador. Desde que ele avariou que nunca mais aspirei a casa. Já lá vão quantos meses? Nem sei. Perdi-lhes a conta. Mas vejo a quantidade de cotão nos cantos da casa. O pó. Percebo-o quando respiro. Respiro mal. Sinto-o entrar-me pelos pulmões. Sinto-lhe o cheiro. Percebo-me a dificuldade em respirar.
Sentei-me no chão do alpendre e já desmontei o aspirador. Descubro que uma peça de lego estava a tapar a passagem do tubo. De onde é que terá vindo a porra da peça?
Retiro a peça. Sopro lá para dentro. Espreito. Não vejo nada. Volto a montar o aspirador. Coloco-lhe um saco de lixo novo. Levanto-me. Não!… Tento levantar-me.
Não estou habituado a estar sentado no chão. Os músculos estão a armar-se em parvos. Não querem ceder. Os ossos também não estão melhor. Foda-se! Rebolo no chão. Tento levantar-me de costas. Empurro o rabo para cima. Ajudo com os braços. Agarro-me à cadeira. E, finalmente, lá estou eu em pé. Estico-me. Agarro-me ao varandim do alpendre e estico-me. Estico os braços. As pernas. Tento elevar o corpo para cima. Ouço-me estalar. É bom sinal, não?
Começo a aspirar a casa. Começo aqui na cozinha e deixo-me ir por aí fora. O barulho embala-me. Corredor. Sala. Corredor. Quarto. Corredor. Quarto. Esqueço a serra, o capacete, a chuva. Esqueço o cotão que vai desaparecendo dentro do aspirador engolido pelo tubo de aspiração.
Mudo o saco do lixo. Duas vezes.
Com a casa aspirada e o aspirador arrumado na despensa, batem à porta. Ouço o toc-toc das nozes dos dedos a bater na madeira.
Abro a porta. É a vizinha. Traz uma cafeteira com café da avó e umas filhoses.
Sento-me no alpendre. Ela senta-se comigo. Bebemos o café. Trincamos uma filhós. Olhamos a chuva a cair na serra mas não vimos nada. Olhamos um para o outro. Tenho a casa limpa. Tenho a cama feita de lavado. Tomei banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/02]

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