A Vizinha da Frente à Varanda a Fumar um Cigarro

Estava cheio de frio em casa. E saí. Fui até à rua aqui em baixo. Aquecer o corpo. Desentorpecer as pernas. Limpar um pouco os olhos. Fumar um cigarro.
Estava em casa. Frente ao computador. Música no iTunes. A tentar fazer sei-lá-bem-o-quê. A tentar fazer algo que não saía. Olhava a página em branco do Word. O cursor a piscar. A irritar-me. Abri o Photoshop. Nem sei bem para quê. Não tinha fotografias novas para retocar. Acho que tentava encontrar alguma coisa para fazer. Alguma coisa para me enganar. Acabei por desligá-lo.
Levantava o olhar por cima do écran e via a janela aberta, o céu azul com nuvens, o prédio em frente, a vizinha do prédio em frente na varanda a fumar um cigarro… Depois, chuva. Choveu um pouco. Vinha forte. Mas parou logo. A vizinha continuava na varanda a fumar o cigarro.
Fui ler os títulos das notícias online. A Bola. Record. Público. Expresso. Observador. New York Times. The Guardian. The Huffington Post. El Pais. Revista Piauí. Tudo para não fazer nada. Não fazer nada porque não sabia o que fazer. Inteirar-me das novidades. Irritar-me ainda mais. Um chato de merda, aquele poeta de voz grossa e ar arrogante.
Só ler as gordas das notícias despacha-se tudo mais rapidamente. E a irritação acabava também por ter prazo mais curto.
Arrefeci.
Fui até à rua.
Acendi um cigarro. Caminhei ao longo do passeio. Chegou-me o cheiro das castanhas assadas. A pastelaria da rua já tinha Bolo-Rei na montra. Não gosto de Bolo-Rei. Às vezes como Bolo-Rainha. E às vezes também Bolo-Escangalhado. É conforme. Se me dão, eu como. Até o Bolo-Rei. Não gosto mas, quando me é oferecido, marcha tudo. Não sou esquisito nem mal-agradecido. Frutas cristalizadas. Fava. Brinde. Marcha tudo.
Já há algumas luzes coloridas nas montras das lojas.
Já há luzes penduradas pela cidade, mas ainda não estão a funcionar.
E, graças a Deus, ainda não há musiquinhas de Natal a fluir pela cidade. Mas elas hão-de chegar aí, mais-dia-menos-dia.
No jardim descubro uma rulote de farturas. Não são do Penim, mas vão servir para o jantar. Compro duas. Antecipo azia. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan.
Regresso a casa.
Largo as farturas e o Kompensan na mesa da cozinha.
Sento-me frente ao computador. O Word continua em branco. A minha vizinha continua na varanda a fumar.
Eu esqueci-me de comprar cigarros e já não tenho nenhum. Se calhar tenho de ir pedir à vizinha. Olha, ela está a olhar para aqui. Será que me vê?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/21]

Um Tango Mortal no La Poesia, em Buenos Aires

Buenos Aires.
Estava no café La Poesia, no Barrio de San Telmo. Tinha Todos os Fogos, o Fogo nas mãos. Na mesa, um copo de vinho tinto. Tinha pensado em beber uma Quilmes, mas as madeiras que me rodeavam pediam vinho. E vinho foi. Alma Negra. Uma empanada de carne. Ainda restava lá na mesa um bocado de queijo. E pão. Que ia depenicando entre as páginas de Julio Cortázar.
A madeira das mesas, das cadeiras, dos armários, do balcão, tudo aquilo me fazia sentir aconchegado. Rodeado de garrafas de vinho. Dezenas de garrafas de vinho. Queijos. Muito queijos. Azeitonas. De todo o género e feitio. E inúmeros cartazes publicitários antigos que me faziam crer estar numa máquina do tempo.
Tinha ido a Buenos Aires dar um seminário no Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Aproveitei para pôr em dia o meu conhecimento de cinema argentino. E encher a barriga de misérias. Já tinha decidido jantar um suculento bife de chorizo cheio de chimichurri. Mas ainda era cedo. Depois das aulas regressei ao La Poesia para descansar e retemperar forças. Já lá tinha estado de manhã a tomar o pequeno-almoço. Café e medialunas com dulche de leche. De comer e chorar por mais. E eu nem gosto de doces.
Despachado das aulas, lá estava de novo no La Poesia.
Estava então com o Cortázar nas mãos quando entra um homem, jovem, elegante, de fato de bom corte e sapatos de lustro puxado, cabelo com brilhantina penteado para trás com um risco bem marcado de lado, barba feita e um pequeno bigode, fininho, sobre o lábio superior. Circulou rápido entre as mesas, parou no meio do café, olhou em volta, virou-se para o empregado dentro do balcão e estalou os dedos no ar. O empregado parou a música ambiente que estava a tocar, em que eu nem tinha reparado, e colocou um tango. Toda a gente no café parou o que estava a fazer e fixou os olhos na personagem. Silenciaram-se as conversas. Pararam as leituras de livros e jornais. O jovem, esquivando-se ao toque nos estreitos caminhos entre as mesas, foi até um casal de meia idade que lia o jornal e bebia vinho a copo. Estendeu a mão à senhora que sorriu, envergonhada, olhou para o homem ao seu lado, que fez má cara, e deu a sua mão ao jovem, que a segurou, enquanto ela se levantava.
O jovem levou a senhora para o centro do café. O apertado centro do café. Eu larguei o Julio Cortázar na mesa. Agarrei no copo de vinho. Trinquei um bocado de queijo e apreciei. O jovem agarrou na senhora e começou a dançar. A dançar o tango mantendo-a colada a ele. A dançar de uma forma muito sensual. Sexual. Erótica. Os olhos que se comiam. As ancas que se tocavam. Os movimentos que pareciam lançar os peitos da senhora para fora da camisa. O nariz dele que contornava o pescoço dela. Que a cheirava.
O homem, sentado à mesa, de jornal aberto à sua frente, olhava com desagrado a dança.
A música termina. O jovem aperta a senhora e beija-a na boca. Um beijo intenso. O homem levanta-se da mesa, larga o jornal no chão e corre para o centro do café. Puxa a mulher violentamente para trás. Ela cai sobre uma cadeira e resvala para o chão. O homem agarra o braço do jovem. Este leva a mão ao bolso das calças. Traz uma navalha-borboleta na mão. Abre-a. Espeta-a na barriga do homem. Este pára. Larga o braço do jovem. Leva a mão à barriga. Olha-se. Vê sangue a sair por entre os dedos das mãos. O jovem endireita-se. Enfia a navalha-borboleta no bolso traseiro das calças. Estica o casaco. Faz uma vénia à senhora que continua caída no chão. Levanta a mão num adeus arrogante para todo o café e vai-se embora.
O homem cai de joelhos sobre si próprio, com sangue a sair-lhe da barriga e a tombar sobre o chão.
O empregado de balcão faz uma chamada no telemóvel.
Os clientes que estavam no café começam a sair.
Eu meto o queijo na boca. Bebo o resto do vinho. Agarro no Cortázar e também saio do café.
Ainda vi a senhora a arrastar-se de joelhos para o homem que jazia deitado no chão. Ainda vi o empregado a olhar para mim enquanto me ia embora sem pagar. Ainda vi o sangue no chão. Ainda ouvi a sirene da polícia.
Acelerei o passo.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/20]

Ela Foi como Veio, sem Abrir a Boca

Caía uma chuva fraquinha.
Eu estava a apanhar azeitonas. Tinha estendido a rede por baixo da primeira árvore quando ela apareceu. Apareceu vinda do nada. Estava a agarrar no varapau para bater na oliveira quando a vi subir a pequena ladeira que ligava a estrada lá em baixo ao campo das oliveiras cá em cima.
Não tenho grande terreno mas, mesmo assim, o suficiente para me fazer trabalhar o campo de vez em quando e manter um cabaz sempre cheio. Praticamente para consumo próprio. Uma vez ou outra serve-me de troca com vizinhos. Raramente para vender. E faço o trabalho sozinho. Não tenho como pagar. E o trabalho não é assim tanto que precise de ajuda. Vou fazendo. Como posso. Quando é preciso. É a minha horta.
Estava pronto a verdascar a oliveira quando a vi surgir na ladeira. Ela viu-me a olhar para ela. Parou. Olhou para mim. Mediu-me. Olhou à minha volta. Olhou as oliveiras. Depois entrou pelo campo dentro, pegou num outro varapau que estava por lá caído e começou a bater na oliveira.
Não disse nada. Não dissemos nada. E andámos a manhã toda naquilo. De oliveira para oliveira. A apanhar a azeitona. Ofereci-lhe água. Aceitou.
A meio do dia parei. Parámos. E aquela chuva de tolos também. Também parou.
Sentei-me debaixo de uma oliveira. Abri a sacola. Cortei uma fatia de pão e estendi-lha. Ela olhou para mim. Depois aproximou-se, agarrou na fatia de pão e sentou-se ao meu lado, debaixo da oliveira. Cortei um bocado de queijo seco e dei-lho. Agarrou. Comeu. O pão e o queijo. Abri uma garrafa de vinho tinto e também lhe ofereci. E também aceitou. E também bebeu.
Depois fumei um cigarro. Não quis.
Voltámos ao trabalho.
No final do dia, com o sol já a esconder-se atrás dos montes, dei por finalizado o trabalho. Olhei para ela. Ela olhou-me. Não dissemos nada. Voltei para casa. Ela veio comigo. Atrás de mim.
Entrei em casa. Entrámos.
Entrei na cozinha. Cozi umas batatas. Juntei uns bocados de toucinho. Dois ovos. Ela foi pela casa fora. O esquentador acendeu-se.
Eu pus a mesa. Servi vinho. Cortei umas fatias de pão. Um frasco com azeite.
Ela regressou. Lavada. O cabelo molhado, penteado para trás. A mesma roupa no corpo. Sentou-se à mesa. Servi-a. Servi-me.
No fim, levantei-me e fui para a janela fumar um cigarro. Ela levantou a mesa e lavou a louça.
No fim do cigarro fui buscar umas roupas lavadas para ela. Um cobertor. Lençóis. Deixei-lhe tudo em cima do sofá.
Era já de madrugada quando a senti entrar na cama. Na minha cama. Agarrar-se a mim. Estava nua. Eu estava nu. Adormecemos. Eu adormeci com ela agarrada a mim.
No dia seguinte, quando acordei já ela estava levantada. Cheirava a café acabado de fazer. E a torradas.
E foi assim.
Vivemos anos lado a lado. Um com o outro. Partilhámos tudo. Ou quase. Não falávamos. Quer dizer, falávamos. Mas nunca um com o outro. Ela falava porque a ouvi gritar alguns palavrões quando se magoava. Quando queimou uma camisa que estava a passar a ferro. Quando cortou mal o cabelo que estava a tentar aparar.
Depois, um dia, foi-se embora. Assim. Foi-se embora como veio. Sem dizer nada. Sem levar nada. Deixou ficar as memórias. E o cheiro. O cheiro que acabou por se diluir até deixar de o sentir.
Já quase não me lembro da cara dela. Da cor dos seus cabelos. Dos olhos, desses não me lembro mesmo da cor. Mas recordo estarmos sentados no alpendre. Eu a fumar. Ela sentada ao meu lado. Ambos em silêncio. A olhar a estrada lá em baixo em companhia um do outro. Até a noite cair. E depois cairmos na cama e eu adormecer com ela abraçada em mim.
Recordei isto hoje porque comecei de novo na apanha da azeitona.
Está a cair uma chuva miudinha.
Ainda olhei lá para baixo para a estrada. Mas não havia ninguém a subir a ladeira.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/19]

Gosto de Chuva

Estava a chover.
Abri a porta e saí para a rua. Larguei o cigarro no alpendre. Desci as escadas e deixei que a chuva me encontrasse. Senti-a. Senti-a sobre mim. A salpicar-me.
Estendi os braços. Estiquei as mãos. Os pingos de chuva batiam-me nas palmas e desfaziam-se em milhões de micro-gotículas cheias de memórias que eram de alguém.
Mergulhei nas águas imundas do Ganges. Corri sobre as ondas inertes e salgadas do Mar Morto. Tomei banho debaixo da queda de água de Victória. Caminhei no Índico com água pelos tornozelos frente a Maputo. Transpirei no banho turco em Yellowstone. Voei em cima de uma prancha na Praia do Norte. Furei as ondas em São Pedro de Moel. E acabei em cima de uma ponte no rio Liz.
Na minha cabeça, a chuva. Na minha cabeça, uma música pirosa.
Chuva chuva chuvinha // Vem do céu até à terra // Chuva chuva chuvinha // Vem cair na nossa serra e aquela voz arranhada da Linda de Suza.
Na minha cabeça, a chuva. Na minha cabeça, mais música pirosa.
It’s raining again // Oh no, my love’s at an end // Oh no, it’s raining again // Too bad I’m losing a friend num xarope de barba rebelde dos Supertramp, a banda a quem o MEC classificou com um Balde de Merda nas suas saudosas crítica musicais n’O Jornal e no Se7e e que li compiladas no Escrítica Pop, raio de livro fabuloso e desaparecido que toda a gente deveria ler, a começar pelo próprio MEC, de novo, para se lembrar como as coisas eram, como ele era, como sabia, como sabia chegar a mim, a nós.
Parem a porra da música pirosa.
A chuva continuava a cair. Sobre a Terra. Sobre mim. Trazia-me memórias. Trazia-me emoções. Levava-me em pedaços pelos pequenos riachos, pelos grandes rios, pelo imenso mar, fazia-se subir ao céus e espremia-me, nuvem carregada e cinzenta a fazer-me tombar de novo sobre mim.
Gosto de sentir a chuva fria sobre o corpo. A roupa ensopada. Colada. O cabelo liso. Escorrido. O pés gelados. Os dedos enrugados. E o espirro.
Constipei-me.
Já não ouvia música.
A chuva continuava a cair em mim. Sentia-a no corpo. Sentia-a vibrar na palma das mãos.
No fim sabia que ia beber um copo de aguardente. E fumar um cigarro.
Gostava da chuva. E do MEC.
Gosto da chuva. Da chuva a cair sobre mim. Do que traz. Do que leva. E do que antecipa.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/18]

The White Album dos Beatles

Este ano, 2018, faz 50 anos que os Beatles lançaram o álbum The Beatles, imortalizado com o seu título alternativo The White Album.
Não, eu não sabia isso. Não sabia isso de cor. Não fazia parte do meu conhecimento inútil. Eu nem sou grande apreciador de Beatles.
Simplesmente ia a passar por uma das ruas do Shopping Center, aproveitando que toda a gente tinha rumado à Nazaré para ver os surfistas no canhão da Praia do Norte quando vi, na montra de uma loja, um grande cartaz branco com as fotografias dos quatro músicos e o 50th Anniversary Super Deluxe Edition escrito por baixo.
Depois de ter dado umas voltas pelo Shopping e ter concluído que não havia nada de importante nem interessante que me pudesse motivar, dei de caras com o disco. Nem pensei. Entrei na loja e comprei a Super Deluxe Edition. Seis discos. Nem sei o que fazer com tantos discos. São todos sobres as mesmas músicas? Takes várias? Versões alternativas? Outtakes? Ainda não sabia. Mas ia saber. Provavelmente.
Com a caixinha na mão voltei para casa e regressei ao meu buraco no sofá. Liguei a televisão, sem som, para o boneco. Gosto da companhia. Mata-me o medo da solidão. Afasta os fantasmas que nascem nas sombras que pintam o interior da casa.
Coloquei o primeiro CD na aparelhagem. Gosto da música em objectos físicos. Gostos de lhes mexer. Nos CDs ou nos vinis. Gosto de ter a música nas mãos enquanto a ouço. Leio os encartes. Bebo toda a informação que comportam. Todas aquelas inutilidades. Não é informação relevante, mas equilibra-me. Acalma-me a fome de saber, estas merdas que não interessam a ninguém, só mesmo a mim.
Acho que nunca tinha ouvido este disco todo com muita atenção.
É um disco do caralho.
Abri uma garrafa de vinho tinto. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. E deixei-me ir atrás do disco. Deixei-me ser puxado. E fui.
Dezassete músicas. As primeiras dezassete músicas. Os lados um e dois do primeiro disco na edição de vinil. Quando chegou ao fim, reiniciei-o.
Back in the U.S.S.R. O Dear Prudence de que só me lembrava na versão de Siouxsie and The Banshees. A parolice do Ob-La-Di, Ob-La-Da. A beleza extrema de While My Guitar Gently Weeps, a música do George Harrison. Do George Harrison! Não do Paul McCartney nem do John Lennon. Do George Harrison!
Entusiasmado, abri uma segunda garrafa de vinho tinto. Uma qualquer que tinha lá na despensa. Um alentejano. Ainda lá tinha outra garrafa. Não ficou lá sozinha por muito tempo. Também marchou ao som dos Beatles.
I’m so Tired. Blackbird. Foda-se! Blackbird.
Acabei com o maço de cigarros. Lembrei-me que tinha tabaco de enrolar. E mortalhas. E filtros. E fui buscar.
Blackbird.
Pus o Blackbird em repeat.
Não percebi como nunca tinha ouvido aquele disco com atenção. Aquele disco é grande. Enorme. E aquela capa a branco? Não fazia parte da minha vida e, de repente, abalroou-me. E o Blackbird. Again & again & again.
Quando acabei a terceira garrafa de vinho já não sabia muito bem quem era nem onde estava nem o que estava a fazer. Os cigarros passaram a ser mais difíceis de enrolar. Tive pena de não ter por ali droga. Teria fumado um charro à memória dos Beatles.
E o Blackbird sempre a tocar. Sei disso porque, de manhã, no dia seguinte, quando despertei, ainda estava a tocar. As minha memórias da noite anterior eram difusas. Mas o Blackbird ainda estava a tocar.
Acho que chorei. Antes de adormecer, chorei. E vomitei. Mas acho que foi por causa do vinho.
Não cheguei a ouvir os outros cinco discos da caixinha. Mas um dia destes vou lá voltar. Tenho de arranjar erva para me acompanhar nesse dia. Haverá lá melhor companhia para ouvir os Beatles do The White Album?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/17]

Não Queria Estar como Estava

O tipo saiu e fechou a porta do barracão. Acendeu um cigarro e pôs-se a olhar para mim. E eu vejo-o, ali assim, uma mão no bolso das calças, a outra a segurar o cigarro, a mandar uma cuspidela para o chão e a dizer-me Tens de ter paciência. Tens de perceber.
Eu tenho de perceber é o caralho, apetecia-me dizer. Mas não disse. Fiquei ali parado, a olhar para ele, com vontade de me ir embora mas sem o fazer.
Estava à espera de quê? Que as coisas se remediassem? Que tudo voltasse atrás?
Não, não. Eu não queria voltar atrás. As coisas nunca poderiam voltar atrás. As coisas nunca mais seriam as mesmas. Eu estava ali porque não sabia para onde ir.
E o tipo continuou Vais arranjar alguma coisa, vais ver.
E eu sem ver. Sem ver nada. Só o via a ele. Mão no bolso. Mão no cigarro. Mão a sair do bolso para pentear a meia-dúzia de cabelos que tinha na cabeça. Nova cuspidela. Desta vez puxada lá de baixo, a limpar a traqueia. Saiu uma coisa verde. Verde e grande e viscosa que cuspiu para o chão entre nós. Entre os nossos pés. E ficou ali a borbulhar. Com as luzes de presença do barracão a reflectirem naquela bola esponjosa.
E eu disse-lhe Estás com catarro. E ele começou a ficar nervoso. Vi cair uns pingos de suor pela testa abaixo. Era hipocondríaco. E perguntou-me Achas?, enquanto mandava fora o resto do cigarro e eu acenava a cabeça.
Pegou no telemóvel e ouvi-o marcar uma consulta para o dia seguinte.
Comecei a afastar-me dele e a pensar que estava a viver uma enorme mudança na minha vida. Ia ficar pior, parecia-me. Mas ao mesmo tempo, ainda bem. Não queria estar como estava. Aquilo andava a fazer-me mal.
Enquanto ia a pé a sair do pátio frente ao barracão, ainda o ouvi gritar-me Desculpa ter sido no Natal.
Sim. No Natal ou noutra altura qualquer, o problema seria sempre o mesmo. Ele é que estava mais preocupado por ser Natal. Sentia perder alguns pontos na sua caderneta de católico, não muito praticante, é certo, mas mesmo assim, crente. Temente a Deus. Um Deus que ele achava ser vingativo. E achava que o facto de termos sido amigos, achava ele, deixava-o mal e à mercê dos terríveis humores de Deus. Mas nós não éramos amigos.
Eu já não acreditava em nada. Já não tinha nada em que acreditar. Era Natal? Que fosse muito feliz.
Entrei na rua e fui caminhando pelo passeio até à paragem do autocarro. Haveria de haver algum que me levasse para qualquer lado. Enquanto esperava acendi um cigarro. Eu não tinha catarro.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/16]

O Pão-de-Alho do Lidl Tem de Ser Aquecido no Forno

Estou a olhar para o forno e estou furioso. Estou a olhar para aquele buraco negro debaixo do fogão que não funciona. Gasto dinheiro a adquirir coisas que depois avariam-se e requerem reparações onerosas. Gasto para as ter e para as manter. A vida é uma bola imparável de gastos. Quantos deles desnecessários?
Estou furioso.
Tinha regressado ao Lidl. Há muito que não ia ao Lidl. Não gosto daquela apresentação em caixotes, tudo aparentemente fora de ordem, coisas misturadas, separadas, sem lógica, sem razão, sem nenhum sentido. Os produtos não estão alinhados. Não sei como é que as pessoas se orientam. Eu não consigo. Aquilo mexe-me com os nervos.
Regressei lá numa tentativa de reviver um certo passado. Fui procurar o pão-de-alho congelado que fizeram as minhas noites de aconchego e felicidade quando chegava tarde e esfomeado a casa depois das loucuras dos fins-de-semana. Também ia à procura de vinho tinto chileno a um euro e meio. O pão encontrei. Ainda existia. O vinho não. E o que havia a um euro e meio tinha um ar tão triste e melancólico, enfiado em rótulos multicoloridos e festivos medonhos que acabaram por me empurrar para a cerveja. E foi o que fiz. Uma embalagem de quinze minis Sagres em promoção – há sempre cerveja em promoção. Não percebo porque é que não é logo objectivamente mais barata.
Cheguei a casa. Um jantar simples. Uma ideia simples. Arrefecer as minis no congelador. Aquecer o pão no forno. E degustar o pão-de-alho frente à televisão a ver as últimas notícias sobre as medidas de coação aplicadas ao antigo presidente do Sporting e ao líder da principal claque do clube.
Coloquei cinco minis no congelador e as outras no frigorífico.
Liguei o forno. Mas o forno não ligou. Liguei e desliguei várias vezes. Nada. Insisti. Continuou tudo morto. Experimentei tirar o manípulo. Abri o forno. Liguei a luz do telemóvel e olhei lá para dentro. Não percebo nada daquilo. Não estava a funcionar.
Fiquei furioso.
Estou furioso.
Acabei por aquecer o pão-de-alho no micro-ondas. Abri uma mini. Bebi-a. Bebi uma segunda. Trinquei o pão-de-alho. Era borracha. Plástico. Rijo. Mole, mas rijo. Sem sabor. Falso. Uma espécie de sucedâneo. Aquele pão não foi feito para o micro-ondas. Foi feito para o forno. Mas tenho o forno avariado
Que porra! Estou furioso.
Bebo mais uma mini. E vai ser este o meu jantar. Minis. O pão-de-alho foi para o caixote de lixo. Tenho saudades do vinho tinto chileno a um euro e meio. Também comia um queijinho.
Esqueci as notícias. Estou a olhar para o forno morto.
Foda-se! Que vida triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/15]

A Promessa

A minha mãe agarrou em mim ao colo e pôs-se a caminho. E se eu era pesado! Sei que nasci com uns quilos acima do que era normal. Mas não sei quanto pesava.
Ela agarrou em mim e pôs-se a caminho. A pé. Foi comigo a pé até Fátima. Ia cumprir a promessa. Ir a pé até Fátima comigo ao colo. Chegada lá, duas voltas à Capelinha das Aparições de joelhos. Sempre comigo nos braços.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
Eu fui o terceiro filho. Mas o primeiro. Os outro morreram. Morreram antes de nascer. Eu fui a oferta. A promessa. Nasci e fui cumpri-la. Uma promessa que não era minha. Mas também não fui eu que fui a pé até Fátima. Foi a minha mãe.
Mais de trinta quilómetros.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
A minha mãe não ia sozinha. Havia outras mulheres a pé. A cumprir promessas. Mas ela era a única com um filho nos braços. Um filho pesado nos braços. Havia um carro que as acompanhava. Lhes dava água. Mas não podiam beber muita. A água pesava-lhes no estômago. Mas estava sol. Calor. Transpiravam muito. Desidratavam. Eu também. Disseram-me. E chorei. Chorei muito. Também me disseram. Era do calor. Do sol. Da viagem.
Era Verão.
Não me lembro de nada.
Eu sou, então, o resultado de uma promessa. Uma promessa paga. Não sei quais os contornos do negócio.
Só sei que era Verão.
Mas não me lembro de nada.
Não sei se era acordo dessa promessa eu fazer algo de relevante com a minha vida. Nunca ninguém me mostrou o contrato. Nunca ninguém me explicou os contornos dessa promessa. Nem qual o objectivo. Nem qual o meu destino.
Só sei que era Verão.
Só sei que não me lembro de nada.
E agora que estou no fim da vida, depois de não ter feito nada de relevante com ela, pergunto-me para que é que servi?
Agora que já é quase Inverno.
E que não tenho nada para recordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/14]

As Minhas Dores de Cabeça

Voltaram as dores de cabeça. Umas dores de cabeça violentas. Parece que tenho um berbequim a perfurar-me o crânio. A perfurar-me o cérebro. Dói-me a cabeça toda. Como se tivesse um capacete de dor a transmiti-lo homogeneamente por todo o lado. E que se propaga ao resto do corpo. Os olhos fecham-se. Tenho vómitos. Dores de barriga. Um mal-estar geral.
Tento viver com estas dores. Tento viver a minha vida normal com estas dores. Não me queixo. Não digo nada a ninguém. Não quero ouvir aquela resposta tipo Tens de ir ao médico!
Vou aguentando. Continuo a viver a minha vida como se nada se passasse.
Estava em casa dela. Sentado à mesa da cozinha enquanto a via cirandar de um lado para o outro a preparar o jantar para nós dois. E falava. Falava, falava, falava. E eu ouvia. E via.
Andava de um lado para o outro. O esparguete a cozer na panela. Os restos de bifes de perú do almoço, cortados em pedaços fininhos. E falava de coisas, nem sei quais. Cortava pimentos. Cogumelos Portobello (era o que tinha!). Quadrados de bacon. Tomate seco. Alho. E continuava a doer-me a cabeça. E o estômago. Despejou tudo para um wok. Mexeu. Misturou. Depois juntou lá o esparguete já cozido. E voltou a mexer. E não parava de falar não-sei-de-quê. Pimenta. E mexeu de novo. Depois colocou na mesa onde eu estava. Eu contorcia-me de dores de cabeça. Mas tentava ignorar. Voltou a colocar vinho no copo dela. O meu ainda estava intacto. Não estava com muita vontade de beber vinho. Sim, eu sei. Nunca se diz não ao vinho. Mas devo estar doente.
Ela sentou-se, sorridente e satisfeita, e disse Vamos jantar? Eu sorri, um sorriso tímido e acenei a cabeça.
Ela serviu-me. Serviu-se. Levantou o copo. Eu levantei o meu. Batemos os copos. Dissemos Tchim! Tchim! e bebemos um golo. Eu senti o vinho na boca, a descer pelo esófago e a desaparecer lá em baixo, no estômago.
Ela estava contente e continuava a falar. Eu via-lhe a boca a mexer. Uma boca sorridente. Via o garfo a levar esparguete e enfiá-lo na boca. A boca a mexer. A mastigar e a falar.
A cabeça continuava a doer-me.
Agarrei no garfo. Enrolei um bocado de esparguete e um conjunto de várias coisas que não confirmei o que era e coloquei na boca. Mastiguei. Mastiguei. Devagar. Sem vontade. Engoli. Senti aquela bola a passar da boca para o interior do corpo. Mas não desapareceu. Andou por ali. Sem fugir. Para cima e para baixo. Pelo estômago. E comecei a ficar enjoado.
Esqueci-me dela. Deixei de a ouvir. Senti que a bola de esparguete voltava a subir pelo esófago. Parou na garganta. Sentia a comida presa na garganta. E, depois, depois veio para a boca e projectou-se para fora. A boca abriu-se e saiu tudo de uma vez para cima da mesa. Para cima do meu prato. Do prato dela. Dos copos. Do peito dela. Uma massa multiforme, grenat, nojenta.
Senti-me corar de vergonha. Mas os vómitos não paravam. Queria levantar-me para ir à casa-de-banho, mas não conseguia. A cabeça continuava a doer-me. Os olhos encharcados. A boca azeda. Ela saiu da minha frente e não sei para onde foi. Eu não sabia o que fazer. A não ser voltar a vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/13]

Ninguém

Ela puxou a porta do carro e entalou-me os dedos. Doeu-me. Não me doeu muito porque a porta tem borrachas. Mas a violência do gesto ao fechar a porta fez-me gritar, mais do susto do que realmente de dor.
Tirei a mão. Ela olhou-me com os olhos semi-serrados. Senti-me fuzilado. Estaria a maldizer-me, claro. Eu coloquei a mão magoada debaixo do sovaco. Não sei porquê. Talvez porque sentia que ali estava protegida e faria diminuir a dor que, afinal, não tinha.
Vai à merda!, disse ela baixinho para mim, enquanto ligava o carro e arrancava estrada fora. E eu a vê-la partir. Podia ter-me partido a mão, pensei. Podia ter-me partido os dedos, continuei. Estava a precisar de mimo. Alguém que me dissesse Pronto, já passa.
Ninguém.
Olhei à volta. A estrada com carros. O passeio com pessoas. As lojas a funcionar, iluminadas, fantasiadas de alegria e boa disposição, antecipavam o Natal.
Ninguém.
Acendi um cigarro. Olhei novamente à volta. Vi um café do outro lado da rua. Fumei o cigarro ali, enquanto continuava a olhar à volta à procura de alguém.
Ninguém.
Porque raio é que ela faz estas merdas?, perguntava-me. Mais para ter assunto. Já sabia o que a casa gastava. Ela era assim. Eu era assim. Éramos os dois assim. Terminou assim. Podia ter terminado pior.
Acabei o cigarro. Cruzei a estrada. Entrei no café. Fui à casa-de-banho. Olhei-me ao espelho. Abri a torneira e lavei a cara com as mãos. Olhei a mão magoada. Voltei a olhar-me ao espelho. Tinha os olhos encovados. Não era bem olheiras. Era o contrário de olheiras. Os papos estavam para dentro. Molhei outra vez a cara. Abri a boca. Tinha as gengivas sensíveis. Um pouco inchadas. Pus água na boca e bochechei. Cuspi. Cuspi sangue. Olhei-me de novo ao espelho. As gengivas pareciam feridas. Estavam um bocado escuras. Toquei nos dentes. Abanavam. Mas não me doíam. Ando a comer muito pão, lembro-me de ter pensado. Ultimamente tenho comido pão com manteiga ao almoço e ao jantar. Molhei de novo a cara. Limpei-a a uma folha de papel. Era rijo, o papel. Não limpou muito, não absorveu nada e magoou-me. Ando muito sensível.
Eu e mais ninguém.
Fui ao balcão. Encostei-me. Uma rapariga, do lado de dentro, chegou-se ao pé de mim e pôs-se a olhar. À espera. À espera que eu pedisse o que queria pedir.
Eu não sabia bem o que queria. Que raio queria? Um café? Uma cerveja? Um Martinito? Um Favaios? E depois pensei que podia estar com escorbuto e disse Um sumo de laranja natural, se faz favor.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/12]