E Mergulho…

Era de madrugada quando saí de casa.
Havia já uma pequena claridade a querer despontar nas minhas costas quando me pus a caminho.
Levantei-me em silêncio da cama. Ela não acordou. Vesti-me na casa-de-banho. Passei no quarto deles. Beijei-os. Viraram-se para o outro lado, sonolentos.
Passei na cozinha. Bebi um copo de água. O cão olhou para mim. Deu duas voltas sobre si próprio e voltou a dormir. Olhei à volta. Fotografei tudo no olhar.
Deixei o telemóvel no cinzeiro sobre a mesa da cozinha. Deixei as chaves. As de casa e as do carro. Deixei também a carteira com os documentos e o dinheiro. Saí de casa. Era de madrugada.
Fui a caminhar pela cidade madrugada fora. Quando os primeiros raios de luz começaram a iluminar-me as costas, já estava fora da cidade. A periferia é feia às primeiras horas da manhã.
Começaram a surgir os primeiros carros em direcção à cidade. Cheirava mal. Gasolina. Gasóleo. Estrume. Um barulho ensurdecedor. Motores. Buzinas. Música.
Afastei-me da periferia. Os carros começaram a rarear. As casas, também. Agora era uma aqui. Outra ali. Apareceram as motorizadas. As bicicletas. Os tractores. O silêncio fazia-me ouvir os barulhos mais longínquos. Algures, uns foguetes. Ainda há festas na aldeia.
Ao meio-dia o sol estava lá no alto. Mas estava fresco. Havia algumas nuvens. Eu estava a atravessar o pinhal. O que restava dele. Já não havia carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem tractores. Já não havia ninguém no mundo. Só eu e o meu silêncio. E a minha respiração forçada.
Continuei a andar pela berma da estrada.
Era já final do dia quando larguei o pinhal para trás. Vi o mar no horizonte. Ouvi o barulho das ondas. Senti o cheiro da maresia. E uma agitação dentro de mim.
Do penhasco olhei lá para baixo e ainda consegui ver o mar. A noite aproximava-se. O mar estava agressivo. Desci as escarpas. Com cuidado. Estava escorregadio. Havia vento. Caminhei pela areia e aproximei-me da beira do mar.
Estava frio. Eu estava transpirado, mas senti o frio que vinha do mar. Senti as gotas salgadas a atingirem-me a cara. A salgarem-me a boca.
Despi-me. Dobrei a minha roupa e empilhei-a. Coloquei as sapatilhas por cima. E caminhei devagar até à beira do mar.

As ondas rebentam e correm até mim. Molham-me os pés. Tento perceber o que estou aqui a fazer, mas não consigo. Aproximo-me mais. Entro dentro de água. Está fria. Gelada. Mas aguento-me. Sinto uma profunda angústia. Queria um motivo, uma razão, para não estar aqui. Para voltar atrás. Mas não arranjo nenhuma.
A força do mar puxa-me. Puxa-me lá para dentro. E eu deixo-me ir. Respiro fundo. Tento aguentar as lágrimas. Prendo a respiração. E mergulho…

[escrito directamente no facebook em 2018/11/24]

Black Friday

Vejo-me ao espelho. Vejo o sangue a escorrer pela cara abaixo. É a minha cara. É o meu sangue.
Abro a torneira de água fria. Baixo a cabeça. Molho a cara, com suavidade. Não esfrego. Enxaguo. Sabe-me bem, a água fria na cara. Fecho os olhos. Sinto-me bem. Fresco.
Levanto a cabeça. Abro os olhos. Vejo-me ao espelho. A cara molhada. Dois fios de sangue, aguados, saem de uma ferida na testa. Uma ferida com quadradinhos pequeninos gravados na testa. Volto a baixar a cabeça. Molho a testa. Lavo a ferida. E lembro-me.
Estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Bebia uma caneca grande de café. E senti-o atrás de mim. A minha cabeça foi jogada para a frente. A caneca de café caiu no chão. Partiu-se. Espalhou café por todo o lado. A cabeça bateu na mesa. No individual de palhinhas aos quadradinhos em cima da mesa. Vi estrelas. Era de dia, mas vi estrelas. Depois tudo embaciou. Ficou vermelho. Começou tudo a desaparecer numa névoa vermelha.
Corri para a casa-de-banho. Pus a chave. Abri a porta. Entrei. Fechei a porta à chave. Agarrei-me ao lavatório. Respirei fundo. Olhei o espelho. Tudo embaciado. Embaciado e vermelho. Levei as mãos aos olhos e limpei-os. E vi. Vi o sangue a escorrer-me pela cara abaixo.
Limpo a cara à toalha. A toalha tinge de vermelho. O meu sangue. O meu sangue na toalha. Sinto-me um pouco tonto. Dói-me um dente. Olho de novo para o espelho. Abro a boca. Tento ver o dente que me dói. Tento ver a gengiva. Passo com a língua pelos dentes. Tento ver qual o dente que me dói. E então grito. Toco num dente. No dente. Dói-me. Mexo com a língua. Abana. Abana e cai. Cai no lavatório. Ouço-o a cair no esmalte do lavatório. Baixo a cabeça. Aproximo a boca da torneira. Com a mão, ponho água na boca. Bochecho. Cuspo. Volto a por mais água na boca. Volto a bochechar. Volto a cuspir. Levanto a cabeça. Abro a boca e vejo o buraco no espelho. Um buraco vermelho. Mais sangue. Porra para tanto sangue!
No meio de tanto sangue, vejo uma borbulha no nariz. Uma borbulha pequena de ponta branca. Luzidia. Aproximo mais a cara do espelho. Levo os dedos à cara. Ao nariz. À borbulha. Espremo. Disparo uma massa branca que se estatela no espelho em frente. Fico com um pequeno buraco encarnado na ponta do nariz.
Respiro fundo.
Sossego.
Já não tenho borbulha com ponta branca no nariz. Já não me dói o dente. Já não cai sangue da testa. O dente está caído no lavatório.
Respiro fundo.
Abro a porta da casa-de-banho e saio. Volto a fechar a porta à chave nas minhas costas.
Regresso à cozinha. Vou até à janela aberta. Agarro num cigarro. Acendo-o. Cuspo para a rua e vejo que o cuspo ainda é vermelho. Ainda vai demorar algum tempo, penso. Viro-me para trás e digo Não vais vencer, pá! Não vais vencer! Não vejo ninguém. Nunca vejo ninguém. Mas sei que está lá. Está sempre lá. Está sempre lá para me fazer mal. Para me magoar. Mas não vou deixar-me vencer. Não vou. Não vou, estás a ouvir? Sim, está a ouvir. Eu não o vejo, mas ele vê-me. Ouve-me. E toca-me.
Deito o resto do cigarro fora. Fecho a janela. Olho a sala. Está escuro. Chegou a noite. A televisão desligada. O silêncio. Vou até ao quarto. Abro a porta com a chave. Entro. Fecho a porta. Fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta à chave. Sento-me em cima da cama. Com as sapatilhas calçadas em cima do edredão. E fico assim, sentado vestido em cima da cama. À espera que o sono chegue. Estou cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/23]

As Colheres-de-Pau que a Minha Mãe Partiu

A minha mãe partiu muita colher-de-pau a bater-me.
É verdade que eu fui sempre um filho complicado. Não muito. Não mais que os outros filhos da minha geração. Fomos todos feitos no mesmo molde temporal e tendemos a ser iguais uns aos outros e a copiar formas, maneiras de ser e asneiras. Principalmente as asneiras. As asneiras propagam-se à velocidade da luz. De casa para casa. De adolescente para adolescente. Queremos ser iguais. Pertencer. Um terror.
Hoje também será assim. Passa o tempo. Passam as manias. As vontades. Os objectos de desejo. As paixões. Mas os adolescentes serão sempre adolescentes. Tendem a reproduzir-se. A clonar-se.
Não sou a favor das punições corporais. Posso, no entanto, dizer que as sovas que levei foram bem dadas. Não que eu fosse o diabo em pessoa mas, às vezes, parecia não haver outra maneira de eu escutar, de eu ver as coisas, de compreender, de comportar-me, de estudar, de não fazer asneiras senão com um par de estalos, uma sova, uma tareia.
Já na adolescência, a minha mãe chegou à conclusão que, ao bater-me, magoava-se mais ela que a mim. Ou seja, as mãos dela é que ficavam doridas das palmadas que dava no meu corpo-carapaça de adolescente. Então passou às colheres-de-pau. Partiu-me várias no lombo, como ela costumava dizer. Mas antes ainda partiu vários chapéus-de-chuva. Réguas de plástico e de madeira. Réguas da escola. As minhas réguas. Um dia até marchou a régua-T no rabo. Mas achou que ficava caro. Tinha sempre de repor. As réguas e os chapéus-de-chuva. As colheres eram, mesmo assim, mais resistentes.
Lembro um dia em que as coisas tinham corrido bastante mal entre mim e ela. Já nem sei bem porquê. Uma qualquer revolução falhada de minha parte. Uma qualquer posição de força da parte dela. Eu tinha levado uma sova. Tinha gritado a plenos pulmões para que toda a gente no prédio soubesse que eu estava a ser maltratado pela minha mãe. Eu filho-vítima. Chorei baba-e-ranho. Maldisse o meu triste fado. Achei que a minha mãe não tinha razão. Achei que eu é que tinha a razão. Achei que se deveria ter feito como eu queria. Achei que eu era uma entidade com voto na matéria. Então veio-me a fúria. A vingança.
Saí do quarto e, sorrateiro, coloquei-me na esquina do corredor que dava para a cozinha onde era suposto ela estar, e pus-me a fazer-lhe piretes. Sabem o que são? Piretes? O dedo médio esticado e os adjacentes, o anelar e o indicador recolhidos. Como uma arma. Um órgão sexual masculino. Como uma forma de poder. Lembro-me de estar a rir enquanto o fazia, imaginando uma forma de feitiçaria voodoo que levaria a minha vingança sobre a minha mãe. Mas o feitiço, como muitas vezes acontece, virou-se contra o feiticeiro.
A minha mãe veio de trás. Veio de trás de mim. Tinha ido ao quarto dela e eu não percebi. Estava atrás de mim. E viu-me fazer aquilo. Aquilo. Uma obscenidade.
Caiu o Carmo-e-a-Trindade. O céu desceu à Terra. As chamas do Inferno abriram-se para me devorar. Só senti a mão da minha mãe a bater-me na cara. A cara a ficar vermelha. Eu apanhado em flagrante. Eu derrotado. Eu figurinha triste que nem escondido, e à distância, conseguiu a sua pequena vingança na forma daquele estúpido e obsceno pirete.
Levei uma valente tareia. Fui para o quarto chorar. E só desejava que a minha mãe não contasse ao meu pai. Não que ele me fosse bater, que era raro fazê-lo. Mas pela vergonha que sempre me fazia sentir.
No fim de tudo isto, no fim de todos estes anos, no fim de todas estas guerras em que, invariavelmente, fui derrotado porque não tinha razão, nunca deixei de amar a minha mãe como um filho ama.
E só se perderam as que caíram. Naquele tempo ainda não éramos politicamente correctos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/22]

A Vizinha da Frente à Varanda a Fumar um Cigarro

Estava cheio de frio em casa. E saí. Fui até à rua aqui em baixo. Aquecer o corpo. Desentorpecer as pernas. Limpar um pouco os olhos. Fumar um cigarro.
Estava em casa. Frente ao computador. Música no iTunes. A tentar fazer sei-lá-bem-o-quê. A tentar fazer algo que não saía. Olhava a página em branco do Word. O cursor a piscar. A irritar-me. Abri o Photoshop. Nem sei bem para quê. Não tinha fotografias novas para retocar. Acho que tentava encontrar alguma coisa para fazer. Alguma coisa para me enganar. Acabei por desligá-lo.
Levantava o olhar por cima do écran e via a janela aberta, o céu azul com nuvens, o prédio em frente, a vizinha do prédio em frente na varanda a fumar um cigarro… Depois, chuva. Choveu um pouco. Vinha forte. Mas parou logo. A vizinha continuava na varanda a fumar o cigarro.
Fui ler os títulos das notícias online. A Bola. Record. Público. Expresso. Observador. New York Times. The Guardian. The Huffington Post. El Pais. Revista Piauí. Tudo para não fazer nada. Não fazer nada porque não sabia o que fazer. Inteirar-me das novidades. Irritar-me ainda mais. Um chato de merda, aquele poeta de voz grossa e ar arrogante.
Só ler as gordas das notícias despacha-se tudo mais rapidamente. E a irritação acabava também por ter prazo mais curto.
Arrefeci.
Fui até à rua.
Acendi um cigarro. Caminhei ao longo do passeio. Chegou-me o cheiro das castanhas assadas. A pastelaria da rua já tinha Bolo-Rei na montra. Não gosto de Bolo-Rei. Às vezes como Bolo-Rainha. E às vezes também Bolo-Escangalhado. É conforme. Se me dão, eu como. Até o Bolo-Rei. Não gosto mas, quando me é oferecido, marcha tudo. Não sou esquisito nem mal-agradecido. Frutas cristalizadas. Fava. Brinde. Marcha tudo.
Já há algumas luzes coloridas nas montras das lojas.
Já há luzes penduradas pela cidade, mas ainda não estão a funcionar.
E, graças a Deus, ainda não há musiquinhas de Natal a fluir pela cidade. Mas elas hão-de chegar aí, mais-dia-menos-dia.
No jardim descubro uma rulote de farturas. Não são do Penim, mas vão servir para o jantar. Compro duas. Antecipo azia. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan.
Regresso a casa.
Largo as farturas e o Kompensan na mesa da cozinha.
Sento-me frente ao computador. O Word continua em branco. A minha vizinha continua na varanda a fumar.
Eu esqueci-me de comprar cigarros e já não tenho nenhum. Se calhar tenho de ir pedir à vizinha. Olha, ela está a olhar para aqui. Será que me vê?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/21]

Um Tango Mortal no La Poesia, em Buenos Aires

Buenos Aires.
Estava no café La Poesia, no Barrio de San Telmo. Tinha Todos os Fogos, o Fogo nas mãos. Na mesa, um copo de vinho tinto. Tinha pensado em beber uma Quilmes, mas as madeiras que me rodeavam pediam vinho. E vinho foi. Alma Negra. Uma empanada de carne. Ainda restava lá na mesa um bocado de queijo. E pão. Que ia depenicando entre as páginas de Julio Cortázar.
A madeira das mesas, das cadeiras, dos armários, do balcão, tudo aquilo me fazia sentir aconchegado. Rodeado de garrafas de vinho. Dezenas de garrafas de vinho. Queijos. Muito queijos. Azeitonas. De todo o género e feitio. E inúmeros cartazes publicitários antigos que me faziam crer estar numa máquina do tempo.
Tinha ido a Buenos Aires dar um seminário no Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Aproveitei para pôr em dia o meu conhecimento de cinema argentino. E encher a barriga de misérias. Já tinha decidido jantar um suculento bife de chorizo cheio de chimichurri. Mas ainda era cedo. Depois das aulas regressei ao La Poesia para descansar e retemperar forças. Já lá tinha estado de manhã a tomar o pequeno-almoço. Café e medialunas com dulche de leche. De comer e chorar por mais. E eu nem gosto de doces.
Despachado das aulas, lá estava de novo no La Poesia.
Estava então com o Cortázar nas mãos quando entra um homem, jovem, elegante, de fato de bom corte e sapatos de lustro puxado, cabelo com brilhantina penteado para trás com um risco bem marcado de lado, barba feita e um pequeno bigode, fininho, sobre o lábio superior. Circulou rápido entre as mesas, parou no meio do café, olhou em volta, virou-se para o empregado dentro do balcão e estalou os dedos no ar. O empregado parou a música ambiente que estava a tocar, em que eu nem tinha reparado, e colocou um tango. Toda a gente no café parou o que estava a fazer e fixou os olhos na personagem. Silenciaram-se as conversas. Pararam as leituras de livros e jornais. O jovem, esquivando-se ao toque nos estreitos caminhos entre as mesas, foi até um casal de meia idade que lia o jornal e bebia vinho a copo. Estendeu a mão à senhora que sorriu, envergonhada, olhou para o homem ao seu lado, que fez má cara, e deu a sua mão ao jovem, que a segurou, enquanto ela se levantava.
O jovem levou a senhora para o centro do café. O apertado centro do café. Eu larguei o Julio Cortázar na mesa. Agarrei no copo de vinho. Trinquei um bocado de queijo e apreciei. O jovem agarrou na senhora e começou a dançar. A dançar o tango mantendo-a colada a ele. A dançar de uma forma muito sensual. Sexual. Erótica. Os olhos que se comiam. As ancas que se tocavam. Os movimentos que pareciam lançar os peitos da senhora para fora da camisa. O nariz dele que contornava o pescoço dela. Que a cheirava.
O homem, sentado à mesa, de jornal aberto à sua frente, olhava com desagrado a dança.
A música termina. O jovem aperta a senhora e beija-a na boca. Um beijo intenso. O homem levanta-se da mesa, larga o jornal no chão e corre para o centro do café. Puxa a mulher violentamente para trás. Ela cai sobre uma cadeira e resvala para o chão. O homem agarra o braço do jovem. Este leva a mão ao bolso das calças. Traz uma navalha-borboleta na mão. Abre-a. Espeta-a na barriga do homem. Este pára. Larga o braço do jovem. Leva a mão à barriga. Olha-se. Vê sangue a sair por entre os dedos das mãos. O jovem endireita-se. Enfia a navalha-borboleta no bolso traseiro das calças. Estica o casaco. Faz uma vénia à senhora que continua caída no chão. Levanta a mão num adeus arrogante para todo o café e vai-se embora.
O homem cai de joelhos sobre si próprio, com sangue a sair-lhe da barriga e a tombar sobre o chão.
O empregado de balcão faz uma chamada no telemóvel.
Os clientes que estavam no café começam a sair.
Eu meto o queijo na boca. Bebo o resto do vinho. Agarro no Cortázar e também saio do café.
Ainda vi a senhora a arrastar-se de joelhos para o homem que jazia deitado no chão. Ainda vi o empregado a olhar para mim enquanto me ia embora sem pagar. Ainda vi o sangue no chão. Ainda ouvi a sirene da polícia.
Acelerei o passo.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/20]

Ela Foi como Veio, sem Abrir a Boca

Caía uma chuva fraquinha.
Eu estava a apanhar azeitonas. Tinha estendido a rede por baixo da primeira árvore quando ela apareceu. Apareceu vinda do nada. Estava a agarrar no varapau para bater na oliveira quando a vi subir a pequena ladeira que ligava a estrada lá em baixo ao campo das oliveiras cá em cima.
Não tenho grande terreno mas, mesmo assim, o suficiente para me fazer trabalhar o campo de vez em quando e manter um cabaz sempre cheio. Praticamente para consumo próprio. Uma vez ou outra serve-me de troca com vizinhos. Raramente para vender. E faço o trabalho sozinho. Não tenho como pagar. E o trabalho não é assim tanto que precise de ajuda. Vou fazendo. Como posso. Quando é preciso. É a minha horta.
Estava pronto a verdascar a oliveira quando a vi surgir na ladeira. Ela viu-me a olhar para ela. Parou. Olhou para mim. Mediu-me. Olhou à minha volta. Olhou as oliveiras. Depois entrou pelo campo dentro, pegou num outro varapau que estava por lá caído e começou a bater na oliveira.
Não disse nada. Não dissemos nada. E andámos a manhã toda naquilo. De oliveira para oliveira. A apanhar a azeitona. Ofereci-lhe água. Aceitou.
A meio do dia parei. Parámos. E aquela chuva de tolos também. Também parou.
Sentei-me debaixo de uma oliveira. Abri a sacola. Cortei uma fatia de pão e estendi-lha. Ela olhou para mim. Depois aproximou-se, agarrou na fatia de pão e sentou-se ao meu lado, debaixo da oliveira. Cortei um bocado de queijo seco e dei-lho. Agarrou. Comeu. O pão e o queijo. Abri uma garrafa de vinho tinto e também lhe ofereci. E também aceitou. E também bebeu.
Depois fumei um cigarro. Não quis.
Voltámos ao trabalho.
No final do dia, com o sol já a esconder-se atrás dos montes, dei por finalizado o trabalho. Olhei para ela. Ela olhou-me. Não dissemos nada. Voltei para casa. Ela veio comigo. Atrás de mim.
Entrei em casa. Entrámos.
Entrei na cozinha. Cozi umas batatas. Juntei uns bocados de toucinho. Dois ovos. Ela foi pela casa fora. O esquentador acendeu-se.
Eu pus a mesa. Servi vinho. Cortei umas fatias de pão. Um frasco com azeite.
Ela regressou. Lavada. O cabelo molhado, penteado para trás. A mesma roupa no corpo. Sentou-se à mesa. Servi-a. Servi-me.
No fim, levantei-me e fui para a janela fumar um cigarro. Ela levantou a mesa e lavou a louça.
No fim do cigarro fui buscar umas roupas lavadas para ela. Um cobertor. Lençóis. Deixei-lhe tudo em cima do sofá.
Era já de madrugada quando a senti entrar na cama. Na minha cama. Agarrar-se a mim. Estava nua. Eu estava nu. Adormecemos. Eu adormeci com ela agarrada a mim.
No dia seguinte, quando acordei já ela estava levantada. Cheirava a café acabado de fazer. E a torradas.
E foi assim.
Vivemos anos lado a lado. Um com o outro. Partilhámos tudo. Ou quase. Não falávamos. Quer dizer, falávamos. Mas nunca um com o outro. Ela falava porque a ouvi gritar alguns palavrões quando se magoava. Quando queimou uma camisa que estava a passar a ferro. Quando cortou mal o cabelo que estava a tentar aparar.
Depois, um dia, foi-se embora. Assim. Foi-se embora como veio. Sem dizer nada. Sem levar nada. Deixou ficar as memórias. E o cheiro. O cheiro que acabou por se diluir até deixar de o sentir.
Já quase não me lembro da cara dela. Da cor dos seus cabelos. Dos olhos, desses não me lembro mesmo da cor. Mas recordo estarmos sentados no alpendre. Eu a fumar. Ela sentada ao meu lado. Ambos em silêncio. A olhar a estrada lá em baixo em companhia um do outro. Até a noite cair. E depois cairmos na cama e eu adormecer com ela abraçada em mim.
Recordei isto hoje porque comecei de novo na apanha da azeitona.
Está a cair uma chuva miudinha.
Ainda olhei lá para baixo para a estrada. Mas não havia ninguém a subir a ladeira.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/19]

Gosto de Chuva

Estava a chover.
Abri a porta e saí para a rua. Larguei o cigarro no alpendre. Desci as escadas e deixei que a chuva me encontrasse. Senti-a. Senti-a sobre mim. A salpicar-me.
Estendi os braços. Estiquei as mãos. Os pingos de chuva batiam-me nas palmas e desfaziam-se em milhões de micro-gotículas cheias de memórias que eram de alguém.
Mergulhei nas águas imundas do Ganges. Corri sobre as ondas inertes e salgadas do Mar Morto. Tomei banho debaixo da queda de água de Victória. Caminhei no Índico com água pelos tornozelos frente a Maputo. Transpirei no banho turco em Yellowstone. Voei em cima de uma prancha na Praia do Norte. Furei as ondas em São Pedro de Moel. E acabei em cima de uma ponte no rio Liz.
Na minha cabeça, a chuva. Na minha cabeça, uma música pirosa.
Chuva chuva chuvinha // Vem do céu até à terra // Chuva chuva chuvinha // Vem cair na nossa serra e aquela voz arranhada da Linda de Suza.
Na minha cabeça, a chuva. Na minha cabeça, mais música pirosa.
It’s raining again // Oh no, my love’s at an end // Oh no, it’s raining again // Too bad I’m losing a friend num xarope de barba rebelde dos Supertramp, a banda a quem o MEC classificou com um Balde de Merda nas suas saudosas crítica musicais n’O Jornal e no Se7e e que li compiladas no Escrítica Pop, raio de livro fabuloso e desaparecido que toda a gente deveria ler, a começar pelo próprio MEC, de novo, para se lembrar como as coisas eram, como ele era, como sabia, como sabia chegar a mim, a nós.
Parem a porra da música pirosa.
A chuva continuava a cair. Sobre a Terra. Sobre mim. Trazia-me memórias. Trazia-me emoções. Levava-me em pedaços pelos pequenos riachos, pelos grandes rios, pelo imenso mar, fazia-se subir ao céus e espremia-me, nuvem carregada e cinzenta a fazer-me tombar de novo sobre mim.
Gosto de sentir a chuva fria sobre o corpo. A roupa ensopada. Colada. O cabelo liso. Escorrido. O pés gelados. Os dedos enrugados. E o espirro.
Constipei-me.
Já não ouvia música.
A chuva continuava a cair em mim. Sentia-a no corpo. Sentia-a vibrar na palma das mãos.
No fim sabia que ia beber um copo de aguardente. E fumar um cigarro.
Gostava da chuva. E do MEC.
Gosto da chuva. Da chuva a cair sobre mim. Do que traz. Do que leva. E do que antecipa.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/18]