O Arco-Íris

Hoje vi um arco-íris. Um arco-íris bem estranho, por sinal. Ia assim a direito para o céu, e desaparecia lá em cima, num rasgo de nuvem, antes de fazer a curva e descer de regresso à terra. Logo ao lado, havia um segundo arco-íris e não era a continuação do primeiro. Este tinha as cores invertidas e estava mais diluído. Notava-se menos. Também desaparecia numa projecção para o céu e muito antes do primeiro. Desfazia-se no ar.
Estes arco-íris apareceram um pouco antes do anoitecer. Ali quase na fronteira com o lusco-fusco. Já se adivinhava a chegada de alguma escuridão nocturna quando as suas cores brilharam no céu cinzento como uma invasão da paleta de cores, e predominância das quentes, em especial púrpura e vermelho que se destacavam, a prenunciar o Verão atrasado. Ou seria já antecipado?
Parece que, no início do arco-íris, ou no fim, nunca sei muito bem, há um pote cheio de ouro. Mas acho que é simples crendice. Não soube nunca de quem o tivesse encontrado. Nem soube de quem ficasse rico assim, da noite para o dia, que não fosse através do trabalho duro e honesto ou do Euromilhões. O meu pote era o próprio arco-íris. E aquele vermelho-Rothko.
Este arco-íris apareceu depois de ter chovido bastante durante a tarde. Depois parou. As árvores brilharam e, para os lados do litoral, o céu descobriu e pincelaram-se tons avermelhados, rasgados como pedaços de algodão espalhado aleatoriamente sobre a cúpula celeste.
Tinha estado a tarde toda dentro de casa. Bebi chá de hibisco. Tentei ler, mas não consegui concentrar-me. Liguei a televisão e encontrei a Júlia Pinheiro. Desliguei-a. Peguei num livro de arte. Um livro com reproduções de alguns quadros interessantes e de que gosto. Abri. Reencontrei os vermelhos de Mark Rothko. Fiquei ali assim, a olhar o quadro. Passaram as horas. Passaram várias estórias. Passaram vários pensamentos. Esqueci o livro que tinha tentado ler, a voz estridente da Júlia Pinheiro na televisão e até a chuva a cair lá fora. Não sei quanto tempo ali fiquei. Horas. Sentado no sofá. O livro aberto sobre as pernas. O quadro de vermelhos à minha frente. Uma vida. Uma paixão. Um amor. Levado de viagem não sei para onde. Milhares de sítios. Muitas emoções. Rasgos. Cogumelos. Visões. E foi quando levantei os olhos para a janela que vi o vermelho do Rothko na rua. A tarde tinha passado. E vi o Rothko na rua. O arco-íris. Os arco-íris. Os arco-íris sem fim. Num céu cinzento descarregado de chuva.
Deixei o chá de hibisco na chávena. Agarrei num copo de vinho tinto. Acendi um cigarro. Saí para a rua. Sentei-me no alpendre. Respirei fundo. Apreciei o meu arco-íris até ao fim.
Quando o arco-íris finalmente se desfez, quando o cinzento recuperou o céu, quando o negro da noite começou a chegar aos montes lá ao fundo, olhei para cima e vi a minha árvore de Natal. Há anos que ela ali estava e nunca tinha reparado que ela fosse a minha árvore de Natal. Mas hoje vi-a. A minha árvore de Natal. Preta. Esguia. Assustadora. Com mil-e-uma ramificações de ramos e raminhos, como uma colecção de espinhas de peixes mirrados pendurados sobre mim. Atrás, em pano de fundo, um vermelho de Rothko que já lá não estava, mas esteve, marcou este início de quase-felicidade natalícia. Há coisas de que gosto. E gosto muito.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/29]

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