Os Gomos da Laranja

Ele abria a boca. E fechava. Abria de novo. E tornava a fechar.
Repetia o movimento de uma forma rápida e urgente. Como se estivesse com falta de ar. Como se estivesse a sofrer. O corpo dava pulos. Levantava a cabeça e o rabo. Ao mesmo tempo. Com força. Com tanta força que acabava por levantar, também, o resto do corpo. Saltitava assim, de um lado para o outro. Aos pulos. A boca repetia os mesmos movimentos. Abria. Fechava. Depois já estava mais devagar. Os movimentos repetiam-se, mas mais espaçados. Como se estivesse cansado. Cansado de viver. Ou de me ver a olhar para ele. Ele olhava-me com aqueles olhos húmidos e vivaços. Parecia assustado. Ou não. Podia ser eu que o via assim, não sei. Depois… Depois parou. Parou de saltar. Parou de abrir e fechar a boca. Parou. Ficou quieto. Eu peguei-lhe e levei-o até ao rio. Levei-o até à água. Entrei dentro do rio. Entrei no rio com as sapatilhas e os calções. A água até aos joelhos. Baixei-me e coloquei-o dentro de água. Nada. Nada de nada. Nem pulos. Nem abrir e fechar a boca. Nada. Levantei-o e olhei para ele. Os olhos estavam secos. Abandonados. Larguei o peixe na água do rio. Ainda esperei que, num momento, ele acordasse e começasse a nadar. Mas limitou-se a estar ali. Virado de lado. Quieto. A ser arrastado pela suave corrente.
Saí do rio. Voltei para a margem. Agarrei no frasco de vidro. Enfiei a mão lá dentro e agarrei no sapo. Coloquei-lhe um cigarro, que tinha roubado ao meu pai, na boca e apertei-a à volta do cigarro com a minha mão. Acendi um isqueiro e aproximei-o do cigarro. O cigarro acendeu. Começou a queimar. A criar cinza. Uma grande ponta em cinza. O sapo estava a fumar o cigarro e não conseguia deitar o fumo fora. Engolia o fumo todo. Começou a crescer. A inchar. Como um balão em festa de aniversário. Grande demais para as minhas mãos. Até que rebentou. Explodiu. Estilhaçou-se em mil-e-um pedaços. Mil-e-um pedaços de merda. Metade dele espalhou-se por cima de mim. Fiquei cheio de merda de sapo. Uns pedaços viscosos. Um cheiro imundo. Ainda tentei limpar a cara e o cabelo, mas as minhas mãos estavam peganhentas. Cheias de merda esverdeada. Cuspi. Cuspi pedaços que senti entrarem-me na boca. Que senti na língua. Mandei para o rio os pedaços me ficaram agarrados às mãos.
Senti-me triste. Triste, não. Zangado. Muito zangado. Furioso. A minha boca começou a tremer. Estava quase a chorar. Mas fiz força. Fiz muita força e não chorei. A minha cara fez carantonhas. Eu senti-as. Fez carantonhas enquanto eu me esforçava por não chorar com aquele susto enorme. Aquela explosão. Os restos do sapo em cima de mim.
Dei um pontapé ao frasco de vidro e mandei-o para o rio. Ainda o vi lá cair. Fez plof. E depois foi afundando. Devagarinho. Afastei-me do rio. Subi a margem. Vinha zangado. Vi um pequeno montinho de uma colónia de formigas e dei-lhe um pontapé. Arrasei com a colónia. Cheguei ao caminho. Decidi ir para casa.
À minha frente, a cruzar o caminho para o rio, um pato e cinco patinhos a seguirem-no. Corri para o pato e dei-lhe um pontapé. Errei. Mas o pato, assustado, deu um pulo-voo à minha frente, enquanto grasnava horrores, e os patinhos fugiam, cada um para seu lado, assustados. Eu desequilibrei-me e caí. Magoei-me. Torci o pé. Chorei de dores.
Acabei por me levantar, a chorar e a coxear, e fui para casa. Precisava de fazer queixinhas à minha mãe. Precisava do mimo da minha mãe.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/28]

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