O Cão

Acendo a lareira. Não está frio, mas preciso de ver as chamas, preciso de ouvir a madeira a queimar, preciso da companhia.
Acendo a lareira. Abro uma garrafa de vinho. Terra d’Alter. Trincadeira, Aragonez e Syrah. Dois e quarenta e nove no Pingo Doce. Não posso beber Mouchão todos os dias.
Acendo a lareira. Acendo um cigarro. O fumo da madeira esconde o fumo do tabaco. Não preciso de ir para a janela.
Acendo a lareira. Sento-me no chão. O cigarro numa mão. O copo na outra. Olho para cima, para a televisão. Desligada. Rio.
As chamas quentes da lareira acesa levam-me.
Retirei a trela ao cão. Começou aos pulos, contente. Começou aos pulos, a mijar em todo o lado. A marcar território antes que fosse tarde. Antes de voltar a ser preso. Começou aos pulos pela alameda abaixo em direcção à estrada. Era estranho aquele andar do cão. Aos pulos. Livre.
Tenho de o soltar mais.
Chegou à estrada e voltou cá para cima. Aos pulos, sempre aos pulos. Veio ter comigo. Pulou à minha volta, a mandar-me as patas para cima. Cão! Cão!, gritei. Para o chão!
Rio-me enquanto bebo mais um gole de vinho.
O cão começou a descer outra vez a alameda de terra batida até à estrada, mas corria, corria, corria desalmado caminho fora. Chegou à estrada e foi, desembestado.
O cão é rafeiro. Muito simpático. Quer sempre muita atenção. Ladra muito a quem não conhece. Dá-se bem com os gatos que aparecem por ali.
Eu chamei-o, de longe, sem muita convicção. Baixinho. Cão! Cão!
O cão não me ouviu. Foi dar a volta dele. Visitar os amigos que, às vezes, o visitam a ele. Comem da comida dele. Bebem da água dele. Uivam com ele. Especialmente de ouvem foguetes.
Acabo o cigarro e lanço-o para a lareira. Vejo-o queimar-se.
Limpei a casota. Água limpa. Ração.
Desci também eu a alameda. Fui esperá-lo à estrada. De vez em quando assobiava para ele saber que eu estava ali. À espera.
Finalmente vi-o. A descer a estrada. No meio da estrada. Percebi um carro, comercial, vindo de baixo. Virei-me para ele. Fiz sinal com a mão para vir devagar. O carro vinha depressa. Vêm sempre depressa. Numa zona onde há casas. Crianças. E animais. O carro não me viu. Não viu a minha mão a pedir abrandamento. Não viu o cão. Até ser tarde. Viu o cão quando estava já em cima dele. Guinou à esquerda. Galgou o passeio. Caiu pela ribanceira. Espetou-se numa árvore. O cão veio a correr até mim. Ignorou o carro. Deu duas voltas em torno de mim, contente, e correu até à casota. Olhei para o carro parado pela árvore. Os tipo saírem bem lá de dentro. Subi a alameda atrás do cão. Estava a comer a ração. Coloquei-lhe a trela. Vim para casa.
Acabei o copo de vinho. Sirvo-me de outro. Acendo outro cigarro. Olho para a lenha a arder. Começo a ficar com calor. A transpirar. Tiro a camisola. E deixo-me ficar por ali. A televisão desligada. A lareira acesa. Um maço de cigarros. E uma garrafa de vinho tinto a dois euros e quarenta e nova no Pingo Doce para despachar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/27]

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