Abalroado por uma Iluminação de Natal

Eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, aquela rua que queria ser avenida mas não é, só tem um sentido, o de vir, o de entrar na cidade, nunca sai, tem duas faixas de rodagem mas uma é para estacionar com os quatro piscas ligados que Eu vou só ali, num instantinho!, está sempre com obras, com estaleiros que ocupam os passeios, pequenos, e obrigam os peões a galgar o asfalto, ora de um lado, ora do outro, ou uma das faixas de rodagem, o que afunila a entrada na cidade para quem vem dali, do norte, que tem meia-dúzia de lojas, umas que abrem-e-fecham, outra enorme, num edifício bonito que serve de armazém de chineses, uns comes-e-bebes, uma oficina de motorizadas, uma estação-de-serviço rodeada de casas, algumas de habitação, uma discoteca, mas afinal são duas, quase três, e outras coisas avulso, mas que tem direito a iluminação de Natal que, como toda a gente sabe, é quando um homem quiser e a mulher deixar! – tenho ouvido esta na TSF, diariamente, várias vezes ao dia, tanta vez que se torna obsessiva, chata e enfada que é normalmente o que me acontece com a publicidade antes dos noticiários da TSF, replicados até à exaustão, e que já me dão ressaca, estou tão farto de os ouvir que lhes comecei a ganhar algum ódio a esses produtos anunciados antes da hora-certa em que me preparo para ouvir as novidades do país e do mundo.
Então, eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, devagar, que é a única maneira possível de fazer aquelas faixas de rodagem que afinal é só uma, e há sempre carros a entrar na cidade e a tentar mudar de faixa porque lá à frente já só há uma e ninguém avisa nada, não há indicações, placas, anúncios, telegramas, telex ou o que seja, quando me caiu uma iluminação de Natal em cheio nos cornos. Nos cornos é uma maneira de dizer que eu não os tenho. Caiu em cima do carro, de mim e da minha sanidade. Partiu-me o vidro pára-brisas. Amolgou-me o capot. Fez-me guinar o volante para a esquerda. Galguei o passeio. Atropelei uma jovem mãe com carrinho de bebé (não aconteceu nada ao bebé!) e entrei pelo armazém do chinês dentro e ainda levei com o carro que vinha atrás e que se atrapalhou com o que viu e sentiu e acabou por seguir-me os passos, bater-me por trás e empurrar-me ainda mais para dentro do armazém .
Eu vinha devagar. Ali não se consegue vir depressa àquela hora, mesmo que quisesse. Vinha entre um carro e outro. A ouvir qualquer coisa na rádio. Talvez o Tubo de Ensaio. Talvez o Não Há Dinheiro mas Há Palhaço. Sim, vinha a dar atenção ao que estava a ouvir, mas vinha com atenção à estrada que a minha costela feminina é grande e eu sou multitasking. Vinha a tentar não desesperar com aquele pára-arranca que, numa cidade de pequena dimensão, é ainda mais desesperante, quando uma enorme placa de luz veio lá do céu, suspensa nos cabos de electricidade, e baloiçou à minha frente, como o Tarzan, trazendo atrelado um pedaço do muro do telhado que lhe servia de apoio mas que, afinal, não apoiava nada, estava moribundo, partiu-se e despenhou-se sobre a rua cheia de viaturas tendo acabado por escolher exactamente a minha para me deixar ainda com mais espírito natalício.
Parei o carro. Os outros carros pararam atrás do meu…
Já era Natal quando a polícia finalmente lá chegou. Chegou para fazer o relatório do acidente. Averiguar responsabilidades.
Já tinha passado o Ano Novo quando finalmente todos os carros conseguiram passar pela Rua Mouzinho de Albuquerque.
Foi já pelo Carnaval que finalmente consegui comer o Bolo-Rei que me tinham oferecido.
Felizmente, ninguém se magoou. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]

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