Jogar à Bola com a Malta da Rua

Eu saltava o muro do colégio e ia jogar à bola no campo pelado. Eu e o resto da malta da rua. Havia sempre uma bola. Uma bola nova. Uma bola nova à espera de ser esfacelada na areia rugosa do campo pelado do colégio. Subia o muro, saltava as grades e corria ao longo do campo. Bola nos pés. Fintava um. Fintava outro. Cara-a-cara com o guarda-redes mandava a bola para o fundo da baliza. Marcava golo. Levantava o braço direito. Corria pelo campo, sem bola, de braço no ar, saudado pelos companheiros de equipa. Golo. Era golo.
Eu jogava à frente. Era avançado. Não era ponta-de-lança, nem extremo. Era avançado. O gajo que está mais perto da baliza, que corre menos, faz menos metros de campo e está sempre à espera da oportunidade criada pelos outros, por aqueles que, realmente, sabem jogar à bola. Eu? Eu só marcava golos.
Todos os Sábados era assim. Saltava o muro e ia jogar à bola com a malta da rua. Jogávamos Benfica-Sporting entre nós. Às vezes fazíamos pequenos campeonatos internacionais e jogávamos contra o Ajax e o Barcelona. Eu cheguei a jogar pelo Nottingham Forest. Já nem sei porquê. Com tantas equipas fixes, tinha de escolher o Nottingham Forest. Talvez tivesse um equipamento bonito. Não sei. Já não sei. Não me recordo.
Outras vezes jogava contra outras ruas. Outros bairros. Às vezes as coisas saiam do controle e, quando dava por ela, estava ao murro com alguém. Às vezes com amigos. O futebol de rua era, por vezes, violento. Às vezes o jogo da bola transformava-se em luta livre. Às vezes até havia sangue. Raramente o meu.
Naquele dia estava a chover. Eu sabia que não podia jogar à bola à chuva. Os meus pais tinham-me proibido. Fazia-me mal à bronquite. Não andes à chuva!, diziam-me. Olha a bronquite!, avisavam-me.
Mas naquele dia, naquele dia eu estava endiabrado. Já tinha metido dois golos quando começou a chover. Ninguém quis parar o jogo. Uns porque estavam a ganhar. Outros porque estavam a perder. Eu porque já tinha marcado dois golos e marquei logo outro de seguida, o terceiro, quando já caía água com fartura.
Sentia-me um jogador à séria. A chuva a cair. O cabelo encharcado. A água a escorrer-me pela cara, pelas costas. E eu de calções, camisola de manga-curta, chuteiras. De mão na anca. Parado. Parado a meio do campo à espera que a equipa adversária retomasse o jogo. Estavam irritados. O guarda-redes já não queria ser guarda-redes e não havia ninguém que quisesse ir para a baliza. Nós aguardávamos no nosso lado do campo. Eu aguardava. A meio do campo. Junto à bola à espera de ser colocada, de novo, em jogo. De mão na anca. A descansar dos três golos. Com a chuva a cair-me em cima. Quando o vi.
O carro parado na estrada. Os quatro piscas ligados. Foi o que me chamou a atenção, primeiro. Depois vi-o. Vi-o através das grades. O meu pai. A olhar para mim. A olhar para mim ali parado, à chuva, à espera de reatar o jogo da bola. À chuva. Eu, à chuva. A bronquite à minha espera. O meu pai a ver-me à espera para retomar o jogo da bola. À chuva. E eu a pensar Chego a casa e vou levar!
Olhei para o meu pai. Vi-o a olhar para mim. Vi-o à chuva, a olhar para mim, todo encharcado. Comecei a correr. Comecei a correr sem bola. Comecei a correr sem bola para o outro lado. Para o lado contrário.
Fugi.
Até hoje.
E ainda não parei.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/25]

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