Black Friday

Vejo-me ao espelho. Vejo o sangue a escorrer pela cara abaixo. É a minha cara. É o meu sangue.
Abro a torneira de água fria. Baixo a cabeça. Molho a cara, com suavidade. Não esfrego. Enxaguo. Sabe-me bem, a água fria na cara. Fecho os olhos. Sinto-me bem. Fresco.
Levanto a cabeça. Abro os olhos. Vejo-me ao espelho. A cara molhada. Dois fios de sangue, aguados, saem de uma ferida na testa. Uma ferida com quadradinhos pequeninos gravados na testa. Volto a baixar a cabeça. Molho a testa. Lavo a ferida. E lembro-me.
Estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Bebia uma caneca grande de café. E senti-o atrás de mim. A minha cabeça foi jogada para a frente. A caneca de café caiu no chão. Partiu-se. Espalhou café por todo o lado. A cabeça bateu na mesa. No individual de palhinhas aos quadradinhos em cima da mesa. Vi estrelas. Era de dia, mas vi estrelas. Depois tudo embaciou. Ficou vermelho. Começou tudo a desaparecer numa névoa vermelha.
Corri para a casa-de-banho. Pus a chave. Abri a porta. Entrei. Fechei a porta à chave. Agarrei-me ao lavatório. Respirei fundo. Olhei o espelho. Tudo embaciado. Embaciado e vermelho. Levei as mãos aos olhos e limpei-os. E vi. Vi o sangue a escorrer-me pela cara abaixo.
Limpo a cara à toalha. A toalha tinge de vermelho. O meu sangue. O meu sangue na toalha. Sinto-me um pouco tonto. Dói-me um dente. Olho de novo para o espelho. Abro a boca. Tento ver o dente que me dói. Tento ver a gengiva. Passo com a língua pelos dentes. Tento ver qual o dente que me dói. E então grito. Toco num dente. No dente. Dói-me. Mexo com a língua. Abana. Abana e cai. Cai no lavatório. Ouço-o a cair no esmalte do lavatório. Baixo a cabeça. Aproximo a boca da torneira. Com a mão, ponho água na boca. Bochecho. Cuspo. Volto a por mais água na boca. Volto a bochechar. Volto a cuspir. Levanto a cabeça. Abro a boca e vejo o buraco no espelho. Um buraco vermelho. Mais sangue. Porra para tanto sangue!
No meio de tanto sangue, vejo uma borbulha no nariz. Uma borbulha pequena de ponta branca. Luzidia. Aproximo mais a cara do espelho. Levo os dedos à cara. Ao nariz. À borbulha. Espremo. Disparo uma massa branca que se estatela no espelho em frente. Fico com um pequeno buraco encarnado na ponta do nariz.
Respiro fundo.
Sossego.
Já não tenho borbulha com ponta branca no nariz. Já não me dói o dente. Já não cai sangue da testa. O dente está caído no lavatório.
Respiro fundo.
Abro a porta da casa-de-banho e saio. Volto a fechar a porta à chave nas minhas costas.
Regresso à cozinha. Vou até à janela aberta. Agarro num cigarro. Acendo-o. Cuspo para a rua e vejo que o cuspo ainda é vermelho. Ainda vai demorar algum tempo, penso. Viro-me para trás e digo Não vais vencer, pá! Não vais vencer! Não vejo ninguém. Nunca vejo ninguém. Mas sei que está lá. Está sempre lá. Está sempre lá para me fazer mal. Para me magoar. Mas não vou deixar-me vencer. Não vou. Não vou, estás a ouvir? Sim, está a ouvir. Eu não o vejo, mas ele vê-me. Ouve-me. E toca-me.
Deito o resto do cigarro fora. Fecho a janela. Olho a sala. Está escuro. Chegou a noite. A televisão desligada. O silêncio. Vou até ao quarto. Abro a porta com a chave. Entro. Fecho a porta. Fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta à chave. Sento-me em cima da cama. Com as sapatilhas calçadas em cima do edredão. E fico assim, sentado vestido em cima da cama. À espera que o sono chegue. Estou cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/23]

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