As Colheres-de-Pau que a Minha Mãe Partiu

A minha mãe partiu muita colher-de-pau a bater-me.
É verdade que eu fui sempre um filho complicado. Não muito. Não mais que os outros filhos da minha geração. Fomos todos feitos no mesmo molde temporal e tendemos a ser iguais uns aos outros e a copiar formas, maneiras de ser e asneiras. Principalmente as asneiras. As asneiras propagam-se à velocidade da luz. De casa para casa. De adolescente para adolescente. Queremos ser iguais. Pertencer. Um terror.
Hoje também será assim. Passa o tempo. Passam as manias. As vontades. Os objectos de desejo. As paixões. Mas os adolescentes serão sempre adolescentes. Tendem a reproduzir-se. A clonar-se.
Não sou a favor das punições corporais. Posso, no entanto, dizer que as sovas que levei foram bem dadas. Não que eu fosse o diabo em pessoa mas, às vezes, parecia não haver outra maneira de eu escutar, de eu ver as coisas, de compreender, de comportar-me, de estudar, de não fazer asneiras senão com um par de estalos, uma sova, uma tareia.
Já na adolescência, a minha mãe chegou à conclusão que, ao bater-me, magoava-se mais ela que a mim. Ou seja, as mãos dela é que ficavam doridas das palmadas que dava no meu corpo-carapaça de adolescente. Então passou às colheres-de-pau. Partiu-me várias no lombo, como ela costumava dizer. Mas antes ainda partiu vários chapéus-de-chuva. Réguas de plástico e de madeira. Réguas da escola. As minhas réguas. Um dia até marchou a régua-T no rabo. Mas achou que ficava caro. Tinha sempre de repor. As réguas e os chapéus-de-chuva. As colheres eram, mesmo assim, mais resistentes.
Lembro um dia em que as coisas tinham corrido bastante mal entre mim e ela. Já nem sei bem porquê. Uma qualquer revolução falhada de minha parte. Uma qualquer posição de força da parte dela. Eu tinha levado uma sova. Tinha gritado a plenos pulmões para que toda a gente no prédio soubesse que eu estava a ser maltratado pela minha mãe. Eu filho-vítima. Chorei baba-e-ranho. Maldisse o meu triste fado. Achei que a minha mãe não tinha razão. Achei que eu é que tinha a razão. Achei que se deveria ter feito como eu queria. Achei que eu era uma entidade com voto na matéria. Então veio-me a fúria. A vingança.
Saí do quarto e, sorrateiro, coloquei-me na esquina do corredor que dava para a cozinha onde era suposto ela estar, e pus-me a fazer-lhe piretes. Sabem o que são? Piretes? O dedo médio esticado e os adjacentes, o anelar e o indicador recolhidos. Como uma arma. Um órgão sexual masculino. Como uma forma de poder. Lembro-me de estar a rir enquanto o fazia, imaginando uma forma de feitiçaria voodoo que levaria a minha vingança sobre a minha mãe. Mas o feitiço, como muitas vezes acontece, virou-se contra o feiticeiro.
A minha mãe veio de trás. Veio de trás de mim. Tinha ido ao quarto dela e eu não percebi. Estava atrás de mim. E viu-me fazer aquilo. Aquilo. Uma obscenidade.
Caiu o Carmo-e-a-Trindade. O céu desceu à Terra. As chamas do Inferno abriram-se para me devorar. Só senti a mão da minha mãe a bater-me na cara. A cara a ficar vermelha. Eu apanhado em flagrante. Eu derrotado. Eu figurinha triste que nem escondido, e à distância, conseguiu a sua pequena vingança na forma daquele estúpido e obsceno pirete.
Levei uma valente tareia. Fui para o quarto chorar. E só desejava que a minha mãe não contasse ao meu pai. Não que ele me fosse bater, que era raro fazê-lo. Mas pela vergonha que sempre me fazia sentir.
No fim de tudo isto, no fim de todos estes anos, no fim de todas estas guerras em que, invariavelmente, fui derrotado porque não tinha razão, nunca deixei de amar a minha mãe como um filho ama.
E só se perderam as que caíram. Naquele tempo ainda não éramos politicamente correctos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/22]

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