As Minhas Dores de Cabeça

Voltaram as dores de cabeça. Umas dores de cabeça violentas. Parece que tenho um berbequim a perfurar-me o crânio. A perfurar-me o cérebro. Dói-me a cabeça toda. Como se tivesse um capacete de dor a transmiti-lo homogeneamente por todo o lado. E que se propaga ao resto do corpo. Os olhos fecham-se. Tenho vómitos. Dores de barriga. Um mal-estar geral.
Tento viver com estas dores. Tento viver a minha vida normal com estas dores. Não me queixo. Não digo nada a ninguém. Não quero ouvir aquela resposta tipo Tens de ir ao médico!
Vou aguentando. Continuo a viver a minha vida como se nada se passasse.
Estava em casa dela. Sentado à mesa da cozinha enquanto a via cirandar de um lado para o outro a preparar o jantar para nós dois. E falava. Falava, falava, falava. E eu ouvia. E via.
Andava de um lado para o outro. O esparguete a cozer na panela. Os restos de bifes de perú do almoço, cortados em pedaços fininhos. E falava de coisas, nem sei quais. Cortava pimentos. Cogumelos Portobello (era o que tinha!). Quadrados de bacon. Tomate seco. Alho. E continuava a doer-me a cabeça. E o estômago. Despejou tudo para um wok. Mexeu. Misturou. Depois juntou lá o esparguete já cozido. E voltou a mexer. E não parava de falar não-sei-de-quê. Pimenta. E mexeu de novo. Depois colocou na mesa onde eu estava. Eu contorcia-me de dores de cabeça. Mas tentava ignorar. Voltou a colocar vinho no copo dela. O meu ainda estava intacto. Não estava com muita vontade de beber vinho. Sim, eu sei. Nunca se diz não ao vinho. Mas devo estar doente.
Ela sentou-se, sorridente e satisfeita, e disse Vamos jantar? Eu sorri, um sorriso tímido e acenei a cabeça.
Ela serviu-me. Serviu-se. Levantou o copo. Eu levantei o meu. Batemos os copos. Dissemos Tchim! Tchim! e bebemos um golo. Eu senti o vinho na boca, a descer pelo esófago e a desaparecer lá em baixo, no estômago.
Ela estava contente e continuava a falar. Eu via-lhe a boca a mexer. Uma boca sorridente. Via o garfo a levar esparguete e enfiá-lo na boca. A boca a mexer. A mastigar e a falar.
A cabeça continuava a doer-me.
Agarrei no garfo. Enrolei um bocado de esparguete e um conjunto de várias coisas que não confirmei o que era e coloquei na boca. Mastiguei. Mastiguei. Devagar. Sem vontade. Engoli. Senti aquela bola a passar da boca para o interior do corpo. Mas não desapareceu. Andou por ali. Sem fugir. Para cima e para baixo. Pelo estômago. E comecei a ficar enjoado.
Esqueci-me dela. Deixei de a ouvir. Senti que a bola de esparguete voltava a subir pelo esófago. Parou na garganta. Sentia a comida presa na garganta. E, depois, depois veio para a boca e projectou-se para fora. A boca abriu-se e saiu tudo de uma vez para cima da mesa. Para cima do meu prato. Do prato dela. Dos copos. Do peito dela. Uma massa multiforme, grenat, nojenta.
Senti-me corar de vergonha. Mas os vómitos não paravam. Queria levantar-me para ir à casa-de-banho, mas não conseguia. A cabeça continuava a doer-me. Os olhos encharcados. A boca azeda. Ela saiu da minha frente e não sei para onde foi. Eu não sabia o que fazer. A não ser voltar a vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/13]

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