Uma Avenida com Uma Só Faixa para Ir e Outra para Vir

Eu estava parado em frente dele. O meu carro a bloquear o dele. Eu estava na estrada. Em fila. Parado. Ele num cruzamento a não poder passar por minha causa. Ele sorria. Um sorriso cínico. E acenava a cabeça. Agradecia-me o que eu não tinha feito. Eu abria a boca e gritava. Gritava-lhe. Gritava-lhe impropérios. Não ouvia o que dizia. Não me ouvia. Mas sabia que estava a gritar. Sentia-me a gritar. A mandar-lhe com todas as minhas frustrações. A descarregar nele aquele final de tarde. Estava zangado. Queria sair do carro e descarregar-lhe um murro naquele sorriso parvo. Fazê-lo sangrar.
Tinha vindo em pára-arranca desde o início daquela avenida que só tem uma faixa para ir e outra para vir. Uma avenida estreitinha. Uma avenida que serve de saída da cidade e que encaminha os carros para o Centro Comercial. Só tem uma faixa para ir. E outra para voltar. E passa por duas rotundas. Uma pequena. Pequenina. Que mal serve para fazer distribuição dos carros pelas quatro saídas. Outra que é oval. Não se percebe muito bem o que é. Como ir. Bom, é entrar, benzer e crer que Deus está por ali, ao nosso lado, para ajudar.
Deus não estava comigo naquele pára-arranca. A andar dois metros de cada vez. Um passo de caracol. Na rádio a Web Summit. E o tipo que falava em milhões. Milhões em investimentos. Milhões para investimentos. Milhões de capital de risco. Milhões de Fundos de Investimento. Em Start-Ups. Em empresas que muitos não compreendem para que servem. E algumas não servem. E algumas morrem à nascença. E algumas não são nada. Verbos de encher. Aplicações. Aplicações desnecessárias. Que custam milhões. Que valem milhões. Que precisam de milhões. E eu, dentro do carro, a pensar onde ir buscar o dinheiro para pagar a renda da casa. Tostões. É esta a nossa grandeza. Medimos assim a importância. Eu conto os tostões que não tenho. E que preciso. Num mundo de milhões. Milhões em lantejoulas.
Cheguei ao cruzamento. Medi o espaço à frente. O carro que arrancou chegava-se à frente e eu conseguia também chegar-me a ele e deixar livre, atrás de mim, a passagem para os carros que cruzam a estrada da esquerda para a direita. Mas o tipo à frente parou antes de tempo para dar passagem a uns carros que vinham da direita, do estacionamento à direita. E eu fiquei parado à frente do tipo. Só lhe via a boca cínica. A sorrir. A acenar. A fazer-me crescer a fúria. A fazer-me crescer a vontade de sair do carro e descarregar-lhe um murro naquele sorriso parvo. Fazê-lo sangrar.
Mas não.
Olhei-me no espelho retrovisor. Eu não sou assim. Não sou. Olhei-me nos olhos. Reconheci-me. Eu não sou assim. E acalmei. O carro da frente continuou uns metros e eu segui-o. Libertei o espaço atrás de mim. O outro carro cruzou então a estrada da esquerda para a direita fazendo os pneus chiarem no asfalto.
Mas já não queria saber. Já não lhe via o sorriso cínico. Só os meus olhos. Só eu no espelho retrovisor.
Na rádio a informação inútil O primeiro Grão-Mestre da maçonaria portuguesa era um neto do Marquês de Pombal. Ora bem.
Cheguei à rotunda oval e entrei. Não havia trânsito nenhum. Não sei porque é que havia engarrafamento lá mais atrás, na avenida com uma só faixa. Aqui o trânsito nem fluía. Simplesmente não havia trânsito. Onde é que se tinham enfiado os carros todos?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/05]

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