Espírito Natalício

Sinto-me azedo. Chega esta altura do ano e começo com as irritações. Não gosto do espírito natalício. Não o espírito natalício em si, que não tenho nada contra, antes pelo contrário, e até era gajo para gostar do Natal, não tanto do aniversário mas, de tudo aquilo que o Natal podia representar. Amizade. Amor. Humildade. Bem estar.
Mas é tudo muita mentira.
O trânsito na cidade anda caótico. As pessoas estão agressivas.
Parei na senhora das castanhas, a eterna senhora das castanhas que está ali, naquela curva da cidade, desde antes do princípio dos tempos, a vender castanhas assadas, e assisti. O carro parou antes da passadeira para dar passagem a um casal de namorados. Eles passaram lentos, apaixonados, arrogantes, sozinhos no mundo. Só eles e o seu desejo. A meio da passadeira pararam para dar um beijo. Um beijo terno e apaixonado. Um beijo cheio de tesão. O homem do carro começou a apitar. Colou a mão à buzina. Vi a boca dele a abrir e fechar. Senti os gritos. A baba que caía pelo ódio abaixo. E depois, pé no acelerador, arrancou num foguete, queimando borracha no asfalto e deixando cheiro de borracha queimada a sobrepor-se ao cheiro das castanhas assadas, quase atropelando o par. Fiquei parado a olhar o carro a arrancar, doido, e a ter de parar uns metros mais à frente para dar passagem ao autocarro que saía da garagem. Karma.
Pedi uma dúzia de castanhas. Havia duas estragadas. Não me importei. Mas elas são pagas quase ao preço do ouro. Fui andando pela cidade. As luzes. As músicas. Os sacos. As cores. Tudo em excesso. Tudo demasiado. Tudo em promoção.
A cidade de lantejoulas mas em saldo. O brilho é falso. É tudo mentira.
Compras aqui e eles oferecem X a uma instituição de caridade. Compras ali e uma % das tuas compras vai para uma IPSS. Mais ao fundo são mais baratos. Mais ao lado são melhores. Na loja a seguir são os presentes ideais. Mas o melhor de tudo é que nem precisas de pensar muito no que é que vais oferecer à pessoa a quem queres oferecer. Compras um cheque. Um vale. Um valor. Compras um valor para oferecer. E depois, a pessoa troca o valor por algo que queira ou, não querendo, qualquer coisa porque já está pago. Não interessa o que se dá. Interessa é dar.
É o espírito natalício.
As pessoas oferecem presentes porque podem. Para mostrar que podem. Coisas caras. Únicas. Exclusivas. A minha carteira não tem fundo.
As pessoas oferecem presentes à família, aos amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amigos-secretos. É obrigação. Oferece-se porque sim. Fica mal se não se oferecer. Mas ninguém gosta do que recebe. Quase nunca. Às vezes gostam. São uns simplórios, estes.
As pessoas oferecem presentes, muitos presentes para pagar as ausências, as faltas, as falhas, os erros, os enganos, as mentiras. As pessoas compram-se umas às outras.
Houve um tempo de meias. Houve um tempo de Ferrero-Rocher. Agora é o cheque-qualquer-coisa.
É o espírito natalício.
Em Outubro comecei a armazenar comida em casa. Enchi a despensa. Tudo para evitar entrar agora, nesta época, nos supermercados, hipermercados, megamercados, centros comerciais e todas as outras catedrais de consumo. Quero distância.
A cidade está iluminada. Há barracas. Barraquinhas. Presépios. A vaquinha. O burro. O menino Jesus nu, deitado numas palhinhas. Ao lado o carpinteiro José. E a mãe Maria. Uma árvore cheia de fitas e fitinhas e bolas e neve, de muitas cores, cores muito bonitas e apelativas. Um velho gordo, barbudo, com um saco enorme com presentes, meninos sentados ao colo e que só diz Ho-ho-ho.
Era uma vez um casal pobre, refugiado, emigrante, que não conseguiu um quarto para albergar a mulher grávida. Era uma vez uma mãe que teve de dar à luz num estábulo porque ninguém lhe abriu as portas. Era uma vez uns miseráveis escorraçados por toda a gente. Era uma vez uma estória de amizade, amor, bondade, humildade e bem-estar. Mas não era esta. Era uma vez uma estória que não tem nada a ver com esta que se conta todos os dias de Dezembro nas nossas cidades.
Se eu tivesse dinheiro, comprava-te um frasco anti-rugas ou anti-envelhecimento da La Prairie. Mas estou a brincar contigo. Gosto das tuas rugas. Das histórias que elas me contam. Preferia gastar esse dinheiro numa garrafa de vinho e sentar-me contigo a beber e a conversar.
Estou azedo. Amargo.
Mas estou mais ainda é triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/30]

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O Arco-Íris

Hoje vi um arco-íris. Um arco-íris bem estranho, por sinal. Ia assim a direito para o céu, e desaparecia lá em cima, num rasgo de nuvem, antes de fazer a curva e descer de regresso à terra. Logo ao lado, havia um segundo arco-íris e não era a continuação do primeiro. Este tinha as cores invertidas e estava mais diluído. Notava-se menos. Também desaparecia numa projecção para o céu e muito antes do primeiro. Desfazia-se no ar.
Estes arco-íris apareceram um pouco antes do anoitecer. Ali quase na fronteira com o lusco-fusco. Já se adivinhava a chegada de alguma escuridão nocturna quando as suas cores brilharam no céu cinzento como uma invasão da paleta de cores, e predominância das quentes, em especial púrpura e vermelho que se destacavam, a prenunciar o Verão atrasado. Ou seria já antecipado?
Parece que, no início do arco-íris, ou no fim, nunca sei muito bem, há um pote cheio de ouro. Mas acho que é simples crendice. Não soube nunca de quem o tivesse encontrado. Nem soube de quem ficasse rico assim, da noite para o dia, que não fosse através do trabalho duro e honesto ou do Euromilhões. O meu pote era o próprio arco-íris. E aquele vermelho-Rothko.
Este arco-íris apareceu depois de ter chovido bastante durante a tarde. Depois parou. As árvores brilharam e, para os lados do litoral, o céu descobriu e pincelaram-se tons avermelhados, rasgados como pedaços de algodão espalhado aleatoriamente sobre a cúpula celeste.
Tinha estado a tarde toda dentro de casa. Bebi chá de hibisco. Tentei ler, mas não consegui concentrar-me. Liguei a televisão e encontrei a Júlia Pinheiro. Desliguei-a. Peguei num livro de arte. Um livro com reproduções de alguns quadros interessantes e de que gosto. Abri. Reencontrei os vermelhos de Mark Rothko. Fiquei ali assim, a olhar o quadro. Passaram as horas. Passaram várias estórias. Passaram vários pensamentos. Esqueci o livro que tinha tentado ler, a voz estridente da Júlia Pinheiro na televisão e até a chuva a cair lá fora. Não sei quanto tempo ali fiquei. Horas. Sentado no sofá. O livro aberto sobre as pernas. O quadro de vermelhos à minha frente. Uma vida. Uma paixão. Um amor. Levado de viagem não sei para onde. Milhares de sítios. Muitas emoções. Rasgos. Cogumelos. Visões. E foi quando levantei os olhos para a janela que vi o vermelho do Rothko na rua. A tarde tinha passado. E vi o Rothko na rua. O arco-íris. Os arco-íris. Os arco-íris sem fim. Num céu cinzento descarregado de chuva.
Deixei o chá de hibisco na chávena. Agarrei num copo de vinho tinto. Acendi um cigarro. Saí para a rua. Sentei-me no alpendre. Respirei fundo. Apreciei o meu arco-íris até ao fim.
Quando o arco-íris finalmente se desfez, quando o cinzento recuperou o céu, quando o negro da noite começou a chegar aos montes lá ao fundo, olhei para cima e vi a minha árvore de Natal. Há anos que ela ali estava e nunca tinha reparado que ela fosse a minha árvore de Natal. Mas hoje vi-a. A minha árvore de Natal. Preta. Esguia. Assustadora. Com mil-e-uma ramificações de ramos e raminhos, como uma colecção de espinhas de peixes mirrados pendurados sobre mim. Atrás, em pano de fundo, um vermelho de Rothko que já lá não estava, mas esteve, marcou este início de quase-felicidade natalícia. Há coisas de que gosto. E gosto muito.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/29]

Os Gomos da Laranja

Ele abria a boca. E fechava. Abria de novo. E tornava a fechar.
Repetia o movimento de uma forma rápida e urgente. Como se estivesse com falta de ar. Como se estivesse a sofrer. O corpo dava pulos. Levantava a cabeça e o rabo. Ao mesmo tempo. Com força. Com tanta força que acabava por levantar, também, o resto do corpo. Saltitava assim, de um lado para o outro. Aos pulos. A boca repetia os mesmos movimentos. Abria. Fechava. Depois já estava mais devagar. Os movimentos repetiam-se, mas mais espaçados. Como se estivesse cansado. Cansado de viver. Ou de me ver a olhar para ele. Ele olhava-me com aqueles olhos húmidos e vivaços. Parecia assustado. Ou não. Podia ser eu que o via assim, não sei. Depois… Depois parou. Parou de saltar. Parou de abrir e fechar a boca. Parou. Ficou quieto. Eu peguei-lhe e levei-o até ao rio. Levei-o até à água. Entrei dentro do rio. Entrei no rio com as sapatilhas e os calções. A água até aos joelhos. Baixei-me e coloquei-o dentro de água. Nada. Nada de nada. Nem pulos. Nem abrir e fechar a boca. Nada. Levantei-o e olhei para ele. Os olhos estavam secos. Abandonados. Larguei o peixe na água do rio. Ainda esperei que, num momento, ele acordasse e começasse a nadar. Mas limitou-se a estar ali. Virado de lado. Quieto. A ser arrastado pela suave corrente.
Saí do rio. Voltei para a margem. Agarrei no frasco de vidro. Enfiei a mão lá dentro e agarrei no sapo. Coloquei-lhe um cigarro, que tinha roubado ao meu pai, na boca e apertei-a à volta do cigarro com a minha mão. Acendi um isqueiro e aproximei-o do cigarro. O cigarro acendeu. Começou a queimar. A criar cinza. Uma grande ponta em cinza. O sapo estava a fumar o cigarro e não conseguia deitar o fumo fora. Engolia o fumo todo. Começou a crescer. A inchar. Como um balão em festa de aniversário. Grande demais para as minhas mãos. Até que rebentou. Explodiu. Estilhaçou-se em mil-e-um pedaços. Mil-e-um pedaços de merda. Metade dele espalhou-se por cima de mim. Fiquei cheio de merda de sapo. Uns pedaços viscosos. Um cheiro imundo. Ainda tentei limpar a cara e o cabelo, mas as minhas mãos estavam peganhentas. Cheias de merda esverdeada. Cuspi. Cuspi pedaços que senti entrarem-me na boca. Que senti na língua. Mandei para o rio os pedaços me ficaram agarrados às mãos.
Senti-me triste. Triste, não. Zangado. Muito zangado. Furioso. A minha boca começou a tremer. Estava quase a chorar. Mas fiz força. Fiz muita força e não chorei. A minha cara fez carantonhas. Eu senti-as. Fez carantonhas enquanto eu me esforçava por não chorar com aquele susto enorme. Aquela explosão. Os restos do sapo em cima de mim.
Dei um pontapé ao frasco de vidro e mandei-o para o rio. Ainda o vi lá cair. Fez plof. E depois foi afundando. Devagarinho. Afastei-me do rio. Subi a margem. Vinha zangado. Vi um pequeno montinho de uma colónia de formigas e dei-lhe um pontapé. Arrasei com a colónia. Cheguei ao caminho. Decidi ir para casa.
À minha frente, a cruzar o caminho para o rio, um pato e cinco patinhos a seguirem-no. Corri para o pato e dei-lhe um pontapé. Errei. Mas o pato, assustado, deu um pulo-voo à minha frente, enquanto grasnava horrores, e os patinhos fugiam, cada um para seu lado, assustados. Eu desequilibrei-me e caí. Magoei-me. Torci o pé. Chorei de dores.
Acabei por me levantar, a chorar e a coxear, e fui para casa. Precisava de fazer queixinhas à minha mãe. Precisava do mimo da minha mãe.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/28]

O Cão

Acendo a lareira. Não está frio, mas preciso de ver as chamas, preciso de ouvir a madeira a queimar, preciso da companhia.
Acendo a lareira. Abro uma garrafa de vinho. Terra d’Alter. Trincadeira, Aragonez e Syrah. Dois e quarenta e nove no Pingo Doce. Não posso beber Mouchão todos os dias.
Acendo a lareira. Acendo um cigarro. O fumo da madeira esconde o fumo do tabaco. Não preciso de ir para a janela.
Acendo a lareira. Sento-me no chão. O cigarro numa mão. O copo na outra. Olho para cima, para a televisão. Desligada. Rio.
As chamas quentes da lareira acesa levam-me.
Retirei a trela ao cão. Começou aos pulos, contente. Começou aos pulos, a mijar em todo o lado. A marcar território antes que fosse tarde. Antes de voltar a ser preso. Começou aos pulos pela alameda abaixo em direcção à estrada. Era estranho aquele andar do cão. Aos pulos. Livre.
Tenho de o soltar mais.
Chegou à estrada e voltou cá para cima. Aos pulos, sempre aos pulos. Veio ter comigo. Pulou à minha volta, a mandar-me as patas para cima. Cão! Cão!, gritei. Para o chão!
Rio-me enquanto bebo mais um gole de vinho.
O cão começou a descer outra vez a alameda de terra batida até à estrada, mas corria, corria, corria desalmado caminho fora. Chegou à estrada e foi, desembestado.
O cão é rafeiro. Muito simpático. Quer sempre muita atenção. Ladra muito a quem não conhece. Dá-se bem com os gatos que aparecem por ali.
Eu chamei-o, de longe, sem muita convicção. Baixinho. Cão! Cão!
O cão não me ouviu. Foi dar a volta dele. Visitar os amigos que, às vezes, o visitam a ele. Comem da comida dele. Bebem da água dele. Uivam com ele. Especialmente de ouvem foguetes.
Acabo o cigarro e lanço-o para a lareira. Vejo-o queimar-se.
Limpei a casota. Água limpa. Ração.
Desci também eu a alameda. Fui esperá-lo à estrada. De vez em quando assobiava para ele saber que eu estava ali. À espera.
Finalmente vi-o. A descer a estrada. No meio da estrada. Percebi um carro, comercial, vindo de baixo. Virei-me para ele. Fiz sinal com a mão para vir devagar. O carro vinha depressa. Vêm sempre depressa. Numa zona onde há casas. Crianças. E animais. O carro não me viu. Não viu a minha mão a pedir abrandamento. Não viu o cão. Até ser tarde. Viu o cão quando estava já em cima dele. Guinou à esquerda. Galgou o passeio. Caiu pela ribanceira. Espetou-se numa árvore. O cão veio a correr até mim. Ignorou o carro. Deu duas voltas em torno de mim, contente, e correu até à casota. Olhei para o carro parado pela árvore. Os tipo saírem bem lá de dentro. Subi a alameda atrás do cão. Estava a comer a ração. Coloquei-lhe a trela. Vim para casa.
Acabei o copo de vinho. Sirvo-me de outro. Acendo outro cigarro. Olho para a lenha a arder. Começo a ficar com calor. A transpirar. Tiro a camisola. E deixo-me ficar por ali. A televisão desligada. A lareira acesa. Um maço de cigarros. E uma garrafa de vinho tinto a dois euros e quarenta e nova no Pingo Doce para despachar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/27]

Abalroado por uma Iluminação de Natal

Eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, aquela rua que queria ser avenida mas não é, só tem um sentido, o de vir, o de entrar na cidade, nunca sai, tem duas faixas de rodagem mas uma é para estacionar com os quatro piscas ligados que Eu vou só ali, num instantinho!, está sempre com obras, com estaleiros que ocupam os passeios, pequenos, e obrigam os peões a galgar o asfalto, ora de um lado, ora do outro, ou uma das faixas de rodagem, o que afunila a entrada na cidade para quem vem dali, do norte, que tem meia-dúzia de lojas, umas que abrem-e-fecham, outra enorme, num edifício bonito que serve de armazém de chineses, uns comes-e-bebes, uma oficina de motorizadas, uma estação-de-serviço rodeada de casas, algumas de habitação, uma discoteca, mas afinal são duas, quase três, e outras coisas avulso, mas que tem direito a iluminação de Natal que, como toda a gente sabe, é quando um homem quiser e a mulher deixar! – tenho ouvido esta na TSF, diariamente, várias vezes ao dia, tanta vez que se torna obsessiva, chata e enfada que é normalmente o que me acontece com a publicidade antes dos noticiários da TSF, replicados até à exaustão, e que já me dão ressaca, estou tão farto de os ouvir que lhes comecei a ganhar algum ódio a esses produtos anunciados antes da hora-certa em que me preparo para ouvir as novidades do país e do mundo.
Então, eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, devagar, que é a única maneira possível de fazer aquelas faixas de rodagem que afinal é só uma, e há sempre carros a entrar na cidade e a tentar mudar de faixa porque lá à frente já só há uma e ninguém avisa nada, não há indicações, placas, anúncios, telegramas, telex ou o que seja, quando me caiu uma iluminação de Natal em cheio nos cornos. Nos cornos é uma maneira de dizer que eu não os tenho. Caiu em cima do carro, de mim e da minha sanidade. Partiu-me o vidro pára-brisas. Amolgou-me o capot. Fez-me guinar o volante para a esquerda. Galguei o passeio. Atropelei uma jovem mãe com carrinho de bebé (não aconteceu nada ao bebé!) e entrei pelo armazém do chinês dentro e ainda levei com o carro que vinha atrás e que se atrapalhou com o que viu e sentiu e acabou por seguir-me os passos, bater-me por trás e empurrar-me ainda mais para dentro do armazém .
Eu vinha devagar. Ali não se consegue vir depressa àquela hora, mesmo que quisesse. Vinha entre um carro e outro. A ouvir qualquer coisa na rádio. Talvez o Tubo de Ensaio. Talvez o Não Há Dinheiro mas Há Palhaço. Sim, vinha a dar atenção ao que estava a ouvir, mas vinha com atenção à estrada que a minha costela feminina é grande e eu sou multi-tasking. Vinha a tentar não desesperar com aquele pára-arranca que, numa cidade de pequena dimensão, é ainda mais desesperante, quando uma enorme placa de luz veio lá do céu, suspensa nos cabos de electricidade, e baloiçou à minha frente, como o Tarzan, trazendo atrelado um pedaço do muro do telhado que lhe servia de apoio mas que, afinal, não apoiava nada, estava moribundo, partiu-se e despenhou-se sobre a rua cheia de viaturas tendo acabado por escolher exactamente a minha para me deixar ainda com mais espírito natalício.
Parei o carro. Os outros carros pararam atrás do meu…
Já era Natal quando a polícia finalmente lá chegou. Chegou para fazer o relatório do acidente. Averiguar responsabilidades.
Já tinha passado o Ano Novo quando finalmente todos os carros conseguiram passar pela Rua Mouzinho de Albuquerque.
Foi já pelo Carnaval que finalmente consegui comer o Bolo-Rei que me tinham oferecido.
Felizmente, ninguém se magoou. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]

À Espera que Aconteça Alguma Coisa

São 15:15′.
Abro a porta da rua e saio.
O céu está azul. De um azul suave até um azul acinzentado. Há algumas nuvens. Nuvens branco-lixívia e branco-sujo. Há ainda um sol tímido que, por vezes, se esconde atrás de uma das nuvens. Pode ser que venha a chover. Mas não agora.
Caminho até ao pátio.
Preso por uma corrente, numa casota, o cão ladra para mim. Os gatos aproximam-se e roçam-se nas minhas pernas. Sinto que estão a largar-me pulgas.
Olho lá para cima. Olho para o céu. Estou à espera que aconteça alguma coisa. Li, na internet, que a sonda chegou a Marte e estava quase a pousar (a amartar?). Não sei que sonda é essa. A última de que tomei conhecimento entrou-me pelo ânus dentro para ver não-sei-o-quê.
Li que o Elon Musk queria ir até Marte e, provavelmente, ficar por lá. Também gostava de ir. De ir e ficar.
Estou no pátio a olhar para o céu à espera que aconteça alguma coisa.
Podia estar a trabalhar. Podia estar a foder. Podia estar a beber um bagaço. Podia estar a fazer mil-e-uma coisa. Mas não. Estou no pátio a olhar para o céu à espera que aconteça alguma coisa.
Já são 15:25′ e ainda não aconteceu nada.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]

Jogar à Bola com a Malta da Rua

Eu saltava o muro do colégio e ia jogar à bola no campo pelado. Eu e o resto da malta da rua. Havia sempre uma bola. Uma bola nova. Uma bola nova à espera de ser esfacelada na areia rugosa do campo pelado do colégio. Subia o muro, saltava as grades e corria ao longo do campo. Bola nos pés. Fintava um. Fintava outro. Cara-a-cara com o guarda-redes mandava a bola para o fundo da baliza. Marcava golo. Levantava o braço direito. Corria pelo campo, sem bola, de braço no ar, saudado pelos companheiros de equipa. Golo. Era golo.
Eu jogava à frente. Era avançado. Não era ponta-de-lança, nem extremo. Era avançado. O gajo que está mais perto da baliza, que corre menos, faz menos metros de campo e está sempre à espera da oportunidade criada pelos outros, por aqueles que, realmente, sabem jogar à bola. Eu? Eu só marcava golos.
Todos os Sábados era assim. Saltava o muro e ia jogar à bola com a malta da rua. Jogávamos Benfica-Sporting entre nós. Às vezes fazíamos pequenos campeonatos internacionais e jogávamos contra o Ajax e o Barcelona. Eu cheguei a jogar pelo Nottingham Forest. Já nem sei porquê. Com tantas equipas fixes, tinha de escolher o Nottingham Forest. Talvez tivesse um equipamento bonito. Não sei. Já não sei. Não me recordo.
Outras vezes jogava contra outras ruas. Outros bairros. Às vezes as coisas saiam do controle e, quando dava por ela, estava ao murro com alguém. Às vezes com amigos. O futebol de rua era, por vezes, violento. Às vezes o jogo da bola transformava-se em luta livre. Às vezes até havia sangue. Raramente o meu.
Naquele dia estava a chover. Eu sabia que não podia jogar à bola à chuva. Os meus pais tinham-me proibido. Fazia-me mal à bronquite. Não andes à chuva!, diziam-me. Olha a bronquite!, avisavam-me.
Mas naquele dia, naquele dia eu estava endiabrado. Já tinha metido dois golos quando começou a chover. Ninguém quis parar o jogo. Uns porque estavam a ganhar. Outros porque estavam a perder. Eu porque já tinha marcado dois golos e marquei logo outro de seguida, o terceiro, quando já caía água com fartura.
Sentia-me um jogador à séria. A chuva a cair. O cabelo encharcado. A água a escorrer-me pela cara, pelas costas. E eu de calções, camisola de manga-curta, chuteiras. De mão na anca. Parado. Parado a meio do campo à espera que a equipa adversária retomasse o jogo. Estavam irritados. O guarda-redes já não queria ser guarda-redes e não havia ninguém que quisesse ir para a baliza. Nós aguardávamos no nosso lado do campo. Eu aguardava. A meio do campo. Junto à bola à espera de ser colocada, de novo, em jogo. De mão na anca. A descansar dos três golos. Com a chuva a cair-me em cima. Quando o vi.
O carro parado na estrada. Os quatro piscas ligados. Foi o que me chamou a atenção, primeiro. Depois vi-o. Vi-o através das grades. O meu pai. A olhar para mim. A olhar para mim ali parado, à chuva, à espera de reatar o jogo da bola. À chuva. Eu, à chuva. A bronquite à minha espera. O meu pai a ver-me à espera para retomar o jogo da bola. À chuva. E eu a pensar Chego a casa e vou levar!
Olhei para o meu pai. Vi-o a olhar para mim. Vi-o à chuva, a olhar para mim, todo encharcado. Comecei a correr. Comecei a correr sem bola. Comecei a correr sem bola para o outro lado. Para o lado contrário.
Fugi.
Até hoje.
E ainda não parei.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/25]