O Meu Vizinho Era Comunista

Eu tinha o revólver na mão. E olhava para o tipo. E ele olhava para mim. E eu estiquei o braço para ele. O revólver na ponta do braço. Na mão. Na mão segura. O dedo trémulo. E disse Comunista! E disparei. Disparei à queima-roupa. E vi-o ser projectado. Para trás. Com o impacto. A cabeça a rebentar. E a ser projectado. Para trás. E caiu. Caiu no chão. O sangue. O sangue na cabeça. O sangue no chão.
Repeti para que me ouvissem Comunista!
O cão dele aproximou-se. Cheirou-o. Ganiu. O rabo entre as pernas. A andar de um lado para o outro.
Já não aguentava. Manhã e tarde. Para baixo e para cima. Para a frente e para trás. O tractor. A merda do tractor. E o tipo ensebado. Gordo ensebado. A camisola de alças suja. A melena do cabelo, despenteado, caído sobre a testa. O cabelo gorduroso. Sebo e gordura. As mãos pequenas. Os dedos grossos. As unhas sujas. E o barulho. O barulho do motor. Logo de manhãzinha. Até à noite. Até chegar o lusco-fusco. O barulho. O motor a trabalhar. A entrar cá dentro. Fundo cá dentro. A perfurar.
Aguentei o que pude. Juro. Aguentei. Tentei ignorar. Ultrapassar. Esperei que terminasse. Um dia. Dois dias. Uma semana.
Já nem me ouvia. Não ouvia os meus próprios pensamentos. Mas ainda bem. Ainda bem não me ouvir.
Foi automático. Levantei-me da cadeira. No alpendre. Larguei o cigarro no chão. Acabei com o vinho. Parti o copo na mão. Fiz sangue. Entrei em casa. A arma. O revólver. As balas. O sangue. O meu sangue na mão. Na arma. Na camisola. E disse Comunista!
Saltei o muro. Percorri a horta. Passei entre as couves. As batatas. O feijão verde. Caminhei. Passo decidido. Ao longo da horta. Depois das árvores. As maçãs. As pêras. E vi-o lá ao fundo. No tractor. O barulho. Ainda e sempre, o barulho. A revolver a terra. Ele viu-me. Levantou o braço. Num olá. Desligou o motor. Saiu do trator. Aproximou-se. Esticou-me a mão. Eu também estiquei a mão. Com o revólver nela. Na mão. E disse Comunista! E disparei. Disparei à queima-roupa. Ele caiu. Foi projectado. Eu cuspi para o chão. E disse, Comunista! Olhei o revólver. Pu-lo no cinto.
Aproximou-se o cão. O cão dele. A cheirá-lo. A ganir. O rabo entre as pernas. Eu agarrei no telemóvel. Marquei o número. Esperei. Atenderam. E eu disse, Atirei num comunista!
Olhei para o céu. E senti. Senti o silêncio. A calma. A paz.
Regressei ao alpendre. Acendi um cigarro. E sentei-me. Sentei-me à espera que o viessem buscar.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/29]

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