Um Dia Acertei nos Números do Euromilhões

Há anos que mantinha aquela rotina. Não era um ritual. Nem uma obrigação. Nem sequer uma esperança. Era só um hábito. Um hábito que nasceu no início, quando o jogo nasceu e quando ainda acreditava que podia fintar o destino. E depois manteve-se. Já era automático. Sexta-feira. Entrava pelo quiosque dentro. Ou pelo café. E registava os números. A chave. A possível chave milionária. Nunca ganhei nada. Não, minto. Por duas ou três vezes ganhei o suficiente para poder voltar a jogar. Foi só. Por vezes até me esquecia de verificar os números. É possível que já tivesse alguma vez acertado na chave e deitado fora os bilhetes. Sem conferir. Tal era o meu nível de confiança. Ou de esperança, lá está.
Bom, mas naquela Sexta-feira, estava eu a passar em frente à loja dos electrodomésticos e, na montra, estava uma parede de televisores ligados a inúmeros canais. A imagem prendeu-me. Estava num futuro futurista. Senti-me um agente de informação digital a espreitar vidas alheias através dos circuitos integrados de televisão.
[agora num aparte, sempre tive vontade de me oferecer para trabalhar na régie do circuito de televisão de segurança da cidade, mas sempre tive medo do que poderia ser levado a fazer. tenho medo de ter um fascista dentro de mim. e esse medo horroriza-me]
Então parei frente à montra. Frente aos inúmeros televisores. Olhava os ecrãs. Um. Outro. Um terceiro. E comentava para mim próprio, baixinho, como se fizesse um relatório exaustivo do que estava a ver. Escolhia as imagens mais íntimas. Como se furasse mais dentro de alguém de quem queria saber tudo. Assustei-me. Assustei-me comigo próprio. Assustei-me ao pensar que eu próprio era um potencial fascista, pronto a calhandrar a vida alheia e a divulgá-la pelos meandros burocráticos do poder concentracionário – é bizarro que para os dicionários que vasculhei, calhandra é uma ave, uma espécie de cotovia, e nenhum deles trazia o sentido com o qual eu o utilizo, e cujo sentido era, para mim o único, bisbilhotice. Bizarro. Retomando, assustador. Eu próprio. É terrível quando se começa a ter medo de si próprio.
E foi então que vi. Perdido nos meus fascismos, vi num ecrã perdido no meio de todos os outros. O sorteio, em directo, do Euromilhões. Ri-me. Lembrei-me que tinha um bilhete na carteira. Tirei-o. Fui olhando a saída dos números. Tinha um. Tinha outro. Tinha três. Olha, olha! Até me ria! Tinha quatro. Tinha cinco números. Foda-se! Foda-se! Comecei a ficar nervoso. A doer-me a barriga. Os intestinos começaram a refilar comigo. Tinha vontade de ir à casa-de-banho. Saíram as estrelas. Tinha a primeira. E a segunda. E fiquei ali, assim. Parado. Hipnotizado. Não reagia. Não estava a acreditar no que tinha acontecido. Estava de boca aberta. Queixo caído. Chegaram uns vómitos. Despertei. Corri para a esquina e vomitei. Estava rico! Rico! E o vómito saía-me em jorro. Convulsões. Sujei as sapatilhas com o respingar do vomitado. Depois acalmei. Limpei a boca às mangas da camisola. Porra! Sentia a boca azeda. Tinha acertado no Euromilhões! Eu! Eu, caralho! E depois levantei a mão para rever a chave. Levantei a mão. Ergui o braço. Olhei para a mão. Para os dedos. Vazios. Tudo vazio. Onde estava? Onde caralho estava o bilhete sorteado? Porra! Porra! Porra! Voltei à esquina. Ao vomitado. Olhei. Vasculhei. Meti as mãos no meio daquela merda toda e agitei, mexi, separei, espremi. O bilhete tinha desaparecido. O bilhete fugira-me das mãos. Onde estava? Onde estava, caralho? A merda do Euromilhões? Os meus milhões! Os meus milhões!
Nunca mais joguei.
O dinheiro que utilizava para jogar, passei a bebê-lo. Sempre que penso que devia ir jogar, sento-me ao balcão e peço um copo de tinto. Alentejano, de preferência. Mas pode ser uma coisa qualquer. Preciso de afogar as mágoas. Depois saio do balcão e vou à rua fumar um cigarro. E penso que houve um dia em que fui quase um Warren Buffett português. Verto uma lágrima. Mando tudo para o caralho! e vou beber outro copo.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/25]

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