Estou Entre as Pernas Dela e Não Consigo Sair

Estava a tomar banho. Estava no duche. A janela da casa-de-banho estava aberta. Gosto de sentir o frio gelado por cima da água quente a açoitar-me o corpo. Começou a chover. De repente. Uma chuvada que Deus-a-dava. Uma chuvada tipo tropical. Daquelas violentas. De grossas bátegas. Tocada a vento. Entrou casa-de-banho dentro.
Eu não via nada. Tinha o champô na cabeça a cair-me pela cara e a entrar pelos olhos. Estavam-me a arder. Nem os conseguia abrir. Mas ouvi. Ouvi a chuva a entrar dentro da casa-de-banho. Parecia uma rajada de metralhadora. Ouvi o vento a abanar as janelas. Ouvi um vidro a partir. Mas não tinha a certeza do quê. Podia ter sido o vidro da janela ou o espelho sobre o lavatório. Ouvi também a pequena prateleira onde estava a escova dos dentes, a pasta dentífrica e o secador a cair no chão. Ouvi o barulho de queda em água. A casa-de-banho estava inundada. Parecia-me.
Enxaguei o cabelo e tirei o champô. Lavei bem a cara. Molhei bem os olhos. Desliguei a água do duche. Abri a cortina de banho e olhei à volta. Parecia o Inferno.
A casa-de-banho era uma piscina. Tudo o que estava em cima, estava agora em baixo. A boiar. A sanita partida. Havia também bocados de merda a passear pela casa-de-banho. Ramos de árvores. Folhas. Muito papel-higiénico desenrolado. Dois sapos. Vi dois sapos a nadar na poça de água. Um deles ainda subiu para o bidé e depois mandou um pulo para o lavatório onde ainda está. Acho. Só não sei como a cortina do banho se aguentou no meio daquele caos.
Mas assim como veio, foi-se. Caiu violentamente. Muita e muito depressa. E depois, foi-se. Acabou por chegar um sol brilhante e amarelo. O sol trouxe o chilrear dos pássaros. Mas os estragos feitos na casa-de-banho, esses mantinham-se.
Saí da banheira. Enrolei uma toalha à volta da cintura. Abri a porta da casa-de-banho com dificuldade. A casa estava toda inundada. Na sala, em frente, um tronco de uma árvore tinha partido a janela e tinha aberto caminho à água da chuva. Cheguei-me à janela para espreitar. A água estava da altura do meu apartamento. Um primeiro andar. Eu moro na porra de um primeiro andar. Estava tudo inundado até à altura do primeiro andar. Aquilo são quantos metros? Nem sei, mas são bastantes.
Não sabia como tirar a água de casa. Não tinha para onde escoar. Estava prisioneiro.
Peguei no telemóvel e liguei para os bombeiros. Ocupado. Mas as telecomunicações estavam a funcionar. Menos mal.
Percorri a casa de uma ponta à outra a tentar ver o que salvar e não vi grandes possibilidades. Devia estar angustiado, triste, desesperado. Mas afinal, nada disso. Na verdade, estava a cagar-me para a casa, para as coisas que tinha perdido, para o fenómeno extremo, como disseram mais tarde nos noticiários, para tudo aquilo. Na verdade estava bastante calmo. Era como se não fosse nada comigo. Como se eu não estivesse ali.
Liguei para a minha vizinha de cima. Atendeu. Pedi-lhe ajuda. Ela estava cheia de medo. Abriu-me a porta de casa. Sempre era um segundo andar. A casa estava seca.
Abriu-me também a cama. E depois, as pernas.
É onde estou agora. Entre as pernas dela. Dentro da cama dela. No apartamento dela. Mas vou ter de me levantar. Estou com fome. Vou ter de fazer alguma coisa para comer. Para comermos. E ela já me disse que não sabe nem estrelar um ovo. Eu acho que é desculpa. Mas não é problema. Eu sei cozinhar. Vou ver o que é que há por ali, E quanto é que há por ali. É que a água ainda não desceu um centímetro. Os bombeiros não atendem. Não sei quanto tempo vou ter de ficar na cama dela. E só tenho uma toalha como roupa. Também, não preciso de mais.
Estranhamente os telemóveis estão a funcionar. A televisão também. A CMTV já perdeu dois jornalistas afogados em directo. Foi um sucesso. A internet também está a funcionar. E a funcionar bastante bem. O Facebook, o Instagram e o Twitter não param de bombardear informação, piadolas e imagens radicais dos estragos e do mundo ao avesso.
Vou fumar um cigarro. Vou fumar um cigarro e ver o que há aqui para comer. E procurar uma garrafa de vinho.
Deixa-me sair. Chega para lá, vá. Então, rapariga? Descruza lá as pernas, se fazes favor. Ai, então?! Não tem piada, vá. Vamos. Vá lá. Oh! Estás a ouvir? Hei! Oh, porra!…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/20]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s