Estou Quente

Sinto-me quente.
Ele coloca a mão dela sobre a minha, que está na alavanca das velocidades, e diz Estás quente.
Sim. Estou quente. Sinto-me quente.
Vou a conduzir o carro. Ela vai ao meu lado. Olha para mim. Coloca a mão dela sobre a minha e diz Está quente. Eu vou a conduzir devagar. Vou atrás de um camião lento. Não praguejo. Vou a conduzir mas nem vou atento à estrada. Vou só atrás do camião.
Eu estou à entrada do Liceu. Estou a fumar um cigarro. Ela está ao meu lado. Encostada a mim, como só os adolescentes sabem encostar. Mergulha a cara no meu pescoço. Beija-o, lentamente. E diz Estás quente.
Sim. Estou quente.
Páro o carro no parque de estacionamento do super-mercado e digo Eu fico aqui. Ela sai. Eu fico. Mas não estou lá. Não estou em lado nenhum. Sinto-me estranho. Estou quente mas não tenho calor. Sinto, aliás, um pouco de frio. Nada de muito intenso. Um arrepio. Uma vontade de não estar de t-shirt.
Passam carros à minha frente. Carrinhos cheios de compras. Uma carrinha Opel faz manobra para estacionar de traseira. O Mercedes que vem atrás apita. Volta a apitar. O Opel pára. Pára atravessado na estreita passagem do parque de estacionamento. Um homem sai de dentro do carro com um ferro na mão. Aproxima-se do Mercedes e começa a bater no carro com o ferro. A mulher dentro do carro fica parada. Estática. Assustada. O homem parte os faróis da frente do carro. Amolga o capot. Parte o espelho retrovisor exterior esquerdo. Com uma só pancada. Violenta. Bate com o ferro no pára-brisas mas não consegue parti-lo. Nem um arranhão. A mulher dentro do Mercedes desperta. Mete a marcha-atrás e arranca em alta velocidade pelo parque de estacionamento. Ao fundo faz um pião. Endireita o carro. Mete a primeira e desaparece.
O homem com o ferro na mão olha à volta. De peito feito. Olha para toda a gente. À espera de um olhar. De um desafio. Mas todos os olhos fogem. O meu também. Olho para o lado. O homem afasta-se, lentamente. Entra dentro do Opel. Estaciona-o.
Eu vejo-o sair do carro e entrar dentro do super-mercado.
A porta do carro abre-se. Ela entra. Coloca o saco aos seus pés. Dá-me uma garrafa de água e um comprimido. É um ibuprofeno. Toma-o. Estás quente, diz
Meto o comprimido na boca. Abro a garrafa e bebo água. Empurro o comprimido. Ela leva a mão à minha testa.
Eu ponho o carro a trabalhar. Saio do parque de estacionamento.
Queria estar no Liceu. À saída do Liceu. A fumar um cigarro. A fumar um cigarro e ela a dar-me um beijo, suave, no pescoço e a murmurar-me ao ouvido Estás quente.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/11]

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