O que É que Lhe Terá Acontecido?

Estávamos os dois naquela pequena escuridão, de língua na boca do outro, e as mãos, marotas, a entrar por baixo das camisolas, da minha e da dela, que ambos desejávamos tocar naqueles pontos tão sensíveis e macios, quando a luz se acendeu.
Parecia o flash de uma máquina fotográfica, acender e apagar, assim em rápida acção, como a preparar o caminho para depois acender completamente. Um bocado como o balastro daquelas luzes frias e merdosas das lâmpadas fluorescentes das cozinhas antigas, que ainda são o que há, pelo menos nas casas por onde eu vivo. São umas luzes que parecem que estão com medo de acender, vai-não-vai e lá acaba por ir. Ou vir. A luz. Finalmente.
Mas habituado aquela escuridão propícia ao desejo, assustei-me com o despertar daquela luminosidade e o pigarrear de quem lá vinha, juntamente com a luz.
Assustei-me, sim. Assustei-me e levantei-me num ápice de velocidade super-sónica e subi os lances de escada que me levavam até casa. Abri a porta. Entrei. E encostei-me a ela. O coração a saltar. O ouvido na porta. Quem lá vem? Quem será?
E então pensei nela. Nela que deixei lá, no meio das escadas, com a camisola subida. O sutiã à mostra, quase de certeza. E ela lá sozinha. Quem é que lá viria? E como é que ela iria escapar daquela situação?
Percebi, então, que tinha o cinto das calças desapertado. E o primeiro botão das calças fora da sua casa. Os passos passaram pela minha porta e continuaram para cima. Não ouvi vozes. Onde é que ela se teria metido?
Deixei-me deslizar pela porta abaixo. Serenei o coração que parecia querer saltar peito fora.
Acalmei.
Abri a porta e, de novo às escuras, desci as escadas. Mas ela não estava lá. Nem nunca mais lá voltou.
Senti a língua dela na minha boca. As bocas húmidas. E frescas. As línguas a tocarem-se. O chocar dos dentes na ânsia de sentir. A minha mão a tocar-lhe numa mama por cima do sutiã. A mão dela por baixo da minha camisola. A mão dela na minha perna. A mão dela a desapertar-me o cinto. A mão dela a abrir os botões das calças. A frágil luz da Lua que entrava pela clarabóia das escadas do prédio e nos mantinha naquela intimidade de sombras e contornos. Na acolhedora escuridão.
Toca-me. Toco-te.
E depois a porra da luz!
A porra daquela luz!
Onde é que estás?, perguntei-me.
O que é que lhe terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/09]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s