O Primeiro Dia de Caça

Fui caminhar.
Era Domingo. Estava sol. Não muito calor. Enchi uma garrafa de água, peguei na câmara fotográfica e saí de casa.
Nunca tinha ido por ali, por aqueles lados. Estava no campo. No campo do campo. Fora da aldeia. Caminhos de terra batida. Ou sem caminhos. Mas ervas afastadas a criá-los. Fui. Fui por lá.
Parava para tirar umas fotografias. Árvores. Plantas. Pequenas folhas com formas exóticas. Muros feitos com pedra de xisto.
Lá no alto uma águia. A planar em círculos.
Cruzo-me com um rapaz. Traz uma espingarda com os canos abertos. Diz-me Cuidado! Anda aí mais gente! Eu não sabia, mas fiquei a saber A caça começou hoje. Anda tudo doido. E andava. Mesmo.
Ouvi uns tiros, ao longe. Uns cães a ladrar. Vozes.
Continuei a minha passeata. De vez em quando, falava alto. Gritava asneiras. Afirmava que estava ali. Que tivessem cuidado. Havia gente no meio das perdizes.
Cruzo-me com um cão. Um podengo. Passa por mim e cheira-me. Depois fica parado a olhar. Aproxima-se um homem e diz Tenha cuidado que esse sacana morde!
Ai, sim? Vem cá, vem!, penso eu. Mas não disse nada. Continuei o meu caminho. A câmara pendurada a tira-colo. Fui perdendo a vontade de fotografar. Estava mais atento aos barulhos. Aos cães. Aos homens. Aos tiros.
Desço até uma ribeira. Ribeira escondida. Fechada num tecto de canas. Pensei no José Cid e na Cabana Junto à Praia. Na na na na na …e nos canaviais…
Mijei ali ao pé da ribeira. Contra uma árvore. Contra o troco de uma árvore. Bebi água da garrafa. Comecei a subir. A deixar a ribeira para trás.
E então, a minha perna vai ao chão. Sinto uma picada e a perna dobra-se e vai ao chão. Ouvi o barulho de um tiro. Acho que ouvi o barulho de um tiro. E fui ao chão. A perna foi ao chão e arrastou-me com ela. Caí.
Senti dor. Primeiro senti dor da queda. Magoei-me na mão com que aparei o tombo. Depois comecei a sentir uma dor que principiou ligeira e se tornou violenta. Levei a mão à perna. Sangue. Fiquei com sangue na mão. Tentei levantar-me. Não consegui.
Aproximou-se um cão. Olhou para mim. Começou a ladrar. Mas não estava a ladrar para mim. Estava a avisar alguém que eu estava ali.
Chegaram dois homens com espingardas abertas. Assustaram-se quando me viram ali assim. No chão. Com sangue.
Vejo-os conversarem. Um deles sai dali a correr. O outro tira o cinto da calças, aproxima-se de mim e faz-me uma garrote na perna.
Eu sinto uma tontura. Desmaio.

Acordo. Estou numa carrinha de caixa aberta. Vou na caixa aberta. Vejo lá em cima o céu azul. O sol. O tempo está bom. Está calor, mas não é um calor insuportável. Estou deitado. Tento erguer-me e não consigo. Dói-me a perna. Tenho tonturas.
Uma cara de homem entra-me no campo de visão. Deixe-se estar. Desmaiou. Estamos na carrinha. Vamos a caminho do hospital.
E eu deixo-me estar. Sinto-me uma vítima. A primeira vítima do primeiro dia de caça. Caça feita numa zona de caminhadas. Entre casas. Casa isoladas, é certo. Mas casas. Casas de gente. Lá em cima no céu azul, uma águia. Ou será um abutre?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/07]

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