O Domingo Tornou-se um Bom Dia

Estou em casa e olho para ela. Ela ignora-me. Já não nos falamos. Há dois meses que não nos falamos. Isso tem evitado que nos matemos um ao outro. Porque os olhares, os olhares disparam balas certeiras que nos fere mas não nos mata. Ainda estamos vivos. Ainda.
Mas hoje ouvi umas notícias.
Estou em casa e olho-a. Ela ignora-me mas eu não consigo não olhar para ela.
Hoje ouvi que a autora de um livro policial intitulado Como Matar o Seu Marido, Nancy Crampton Brophy, foi presa acusada de ter matado o próprio marido. Aparentemente ele foi morto exactamente como a esposa-escritora descreveu no seu livro best-seller.
Ela está a arranjar uma sandes de fiambre com manteiga. Bebe um copo de leite frio.
Eu não consigo beber leite. Acho que, com os anos, tenho-me tornado intolerante à lactose. Mas só do leite porque, estranhamente, tenho continuado a comer queijo sem problemas. Então, larguei o leite e comecei a beber vinho tinto a acompanhar o queijo.
Abro uma garrafa de vinho tinto. Adega Cooperativa de Portalegre.
Enquanto abro a garrafa, continuo a olhar para ela. Ela sai da cozinha a trincar a sandes de fiambre com manteiga sem olhar para mim. Sem levar um guardanapo. A espalhar migalhas. Cabra!
Fico na cozinha a beber o copo de vinho, encostado à bancada, e penso na outra notícia.
Uma mulher matou o marido com ajuda do amante. Mataram-no em casa e despejaram-no a cento e trinta quilómetros de casa. Mas morto com um tiro de pistola de uma arma registada pelo amante da mulher e o corpo enrolado num tapete da própria casa.
Abano a cabeça. As pessoas são idiotas.
Não, não tenho ideias parvas.
Não há crimes perfeitos. Leio livros há muito tempo. Vejo filmes à tempo demais para não saber que é assim.
Vamos continuar a não nos falarmos. Ela vai olhar para mim e eu vou ignorá-la. Eu vou olhar para ela e ela vai ignorar-me.
A casa é pequena. Não temos como nos evitar. Mas sabemos que vamos continuar assim. A olhar. Sem falar. A ignorar. E a foder uma vez por semana. Ao Domingo. Hoje.
Vou acabar o copo de vinho tinto e tomar um duche.
Quero estar bem-cheiroso. Mas é por mim, não para ela. Não a suporto. Mas gosto de estar bem-cheiroso quando ela se coloca em cima de mim. E se esfrega. E deixa cair a cabeça sobre o meu pescoço. E diz o quanto me odeia enquanto me beija. Não fala comigo. Fala com ela própria.
O Domingo tornou-se um bom dia.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/30]

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