Universo Paralelo

Às vezes há sítios que conheço e que desaparecem do mapa. Entram num universo paralelo. Nunca mais os vejo. Deixam de existir. E quando menos espero, caem do céu à minha frente. E eu penso Que porra é esta? Como é que nunca mais cá vim? Houve muitas praias alentejanas a que aconteceu isso. Desapareceram. Nunca mais as encontrei.
O mesmo de passa com algumas pessoas. Pessoas de quem era muito amigo e, de um momento para o outro, desaparecem. Deixam de ser. Provavelmente nunca foram. Começo a pensar que eram um sonho meu. Que na verdade nunca tinham existido. Que eram amigos imaginários. Até que um dia me volto a cruzar com eles. E penso Onde caralho andaste, pá?
Foi o que me aconteceu ontem.
Fui muito amigo do F. Durante muitos anos fomos mesmo muito próximos. Fazíamos tudo, ou quase tudo, juntos. Gostávamos das mesmas coisas. Queríamos fazer as mesmas coisas. Gostávamos dos mesmos discos, quando os discos ainda eram de vinil, saíam bem poucos, duravam bem mais, eram mais devorados e decorávamos as letras e conseguíamos trautear as músicas – nunca aprendi música, e é o meu grande drama, que eu sempre acreditei ter perfil de estrela rock.
Gostávamos dos mesmos filmes, quando os filmes ainda eram projectados em película em écrans de salas escuras, e tínhamos de fugir de casa dos pais para ir às sessões da meia-noite.
Gostávamos dos mesmos livros, quando ainda os roubávamos nas livrarias da cidade, e os líamos à vez, primeiro eu, depois ele.
Gostávamos das mesmas comidas, um bitoque com ovo a cavalo, nem muito nem pouco frito, para podermos molhar o pão na gema amarelinha.
Gostávamos das mesmas raparigas. Aconteceu namorarmos à vez com as mesmas raparigas. Primeiro ele. Depois eu. E vice-versa. Mas um dia as coisas acabaram ao soco debaixo de uma nespereira à borda da estrada ao pé de minha casa. Por causa de uma rapariga. Há sempre uma rapariga. Há sempre uma rapariga para dar cabo de tudo.
E, então, um dia o F. desapareceu. Deixei de o ver. Passei a ouvir os discos sozinho. E comecei a escrever o que achava deles, já que não os podia discutir com F., e acabei a publicar crítica de música no Sete. Passei a ir ao cinema sozinho e comecei a gostar do cinema francês. Passei a comprar os livros. E apaixonei-me pela poesia. Deixei de comer bitoques e optei pela feijoada. Engordei. Nunca mais tive uma namorada. A vida perdeu algum sal. Mas consegui amealhar algum dinheiro. Não se pode ter tudo, não é?
Até ontem.
Ontem cruzei-me com F. nas rulotes.
Era meia-noite. Estava com fome. Não tinha nada em casa. Saí e fui às rulotes. Estava a dar a primeira dentada numa bifana com tiras de bacon frito, queijo, alface, tomate, cogumelos e cebola caramelizada daquela dos pacotes industriais, bem regada de ketchup, maionese com alho e mostarda, com os molhos a escorrerem-me pelos cantos da boca e pelos dedos, quando olhei para um tipo e reconheci: F.!
Ele também me reconheceu, estando eu bem disfarçado de gordo e quase careca – nisso, saí mesmo ao meu pai.
Então, F.?, perguntei-lhe. Ao que me respondeu com outra pergunta, Então?
Deu-me uma palmada amistosa no braço. Pediu um hambúrguer vegan, que levou para casa, e disse Ciao.
Eu não disse nada que tinha a boca cheia. Mas fiquei a vê-lo ir-se embora. A pensar que era um Cometa. Ou uma Supernova. E que iria desaparecer outra vez. Entrar num universo paralelo. E viver outra vida. Uma vida sem mim.
Dei o resto da bifana ao cão que andava por ali a cirandar.
Agora era eu que iria desaparecer deste universo. Iria embora da cidade. Iria emagrecer. Iria ser outra pessoa. Iria viver num universo paralelo.
Não sabia era se tinha força de vontade.
Ainda estou à procura dela.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/26]

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