Ela Deu-me um Estalo e Eu Fui-me Embora

Ela deu-me um estalo.
Deu-me um estalo e depois ficou ali assim, parada, muito direita na cadeira, sem dizer nada, só a olhar.
Eu senti a cara a ficar vermelha. Não só do estalo. Forte. Sonoro. Mas também de vergonha. Vergonha das pessoas que, no café, viraram a cara para o que estava a acontecer e aguardavam uma resposta de minha parte. E olhavam para mim. Ostensivamente. Nem disfarçavam.
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Ela continuava parada, muito quieta, à minha frente. Mas as feições da cara estavam a mudar. Estava com uma expressão dura. Como se estivesse para rebentar. Ou me quisesse rebentar a mim. Olhava-me mas entrava dentro de mim.
Eu estava bastante incomodado. Não queria estar ali. Mas estava.
Algumas pessoas tinham retomado as suas conversas. Mas ainda havia algumas a olhar de esguelha. Outras a espreitar por cima do jornal. Havia mesmo um miúdo que tinha o telemóvel virado na minha direcção. Estava a gravar, o cabrão.
Ela não dizia nada. Se calhar não tinha nada para dizer. Tudo ficara já dito quando me dera o estalo.
Eu olhei para baixo. Para a mesa. O café ainda estava na chávena. Um café queimado. A espuma era da cor da ferrugem. E já devia estar frio. Bebo-o ou não? Eu gosto muito de café. De todo o tipo de café. Expresso, americano, de saco, da avó… Aquele já tinha mau aspecto quando veio para a mesa, lembro-me bem mas, naquela altura, parecia mesmo intragável.
Não voltei a subir o olhar, mas senti os olhos dela em mim. Espetados em mim. Olhos agressivos. Frios. Facas disparadas à velocidade da luz.
Peguei na chávena e bebi o café de um gole. Travei um solavanco de vómito. O café sabia mal. Mas aguentei-o no estômago. Não queria mais vergonhas. Já bastava.
Coloquei a chávena sobre o pires. E contei Um… Dois… Dois e meio… Três!…
Coloquei as mãos na mesa e ajudei ao impulso para me levantar da cadeira. Virei costas e saí dali.
Não disse nada.
Enquanto percorria o café sentia o olhar desanimado das outras pessoas em mim. Não tinha havido sangue. Eu não tinha respondido. Aquele estalo não tinha tido consequências violentas. Que desatino. Que frustração.
Já estava a sair para a rua e a colocar as mãos nos bolsos das calças quando ouvi atrás de mim Espera! Espera aí! Onde vais?
Não me virei. Continuei em frente. Ia-me embora. Havia uma sessão de cinema no Miguel Franco e era para lá que ia. Nem sabia que filme era. Não importava. Uma sala de cinema vazia e escura era o que eu estava a precisar.
Atrás de mim continuava Ouve! Espera aí! Desculpa!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/25]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s