Penso que Estou a Ficar Velho

Dói-me a cabeça. Bastante. Parece que vai explodir. Dói-me tanto a cabeça que me deixa maldisposto. Sinto-me agoniado. Tenho dificuldade em abrir os olhos. E não consigo estar bem em lado nenhum.
Estive sentado no sofá, mas tive de me levantar. Não estava bem. Fui até à janela mas não consegui olhar lá para fora. Não consegui abrir os olhos. Tudo o que vi foi uma mancha de claridade. A cabeça doeu-me ainda mais e, por momentos, pareceu-me que ia vomitar.
Corri até à casa-de-banho. Sentei-me na borda da banheira. Ao pé da sanita.
E é onde estou. Mas vou levantar-me. Não estou bem aqui sentado.
Passeio pela casa. Queria pensar em alguma coisa. Alguma coisa para me ajudar a passar o tempo. Mas não consigo pensar. A dor de cabeça ocupa tudo.
Entro no quarto. Olho para a cama. Penso em deitar-me sobre ela. Gostava de me deitar sobre ela. Mas fico ainda mais agoniado só de pensar em estar deitado.
Vou até à cozinha. Encosto-me à mesa. Penso que estou a perder um tempo precioso. Um tempo que poderia estar a usar para terminar o trabalho que tenho de terminar. Ou não fazer nada. Que é o que estou a fazer agora. Nada.
Sinto um vómito a subir e volto a correr até à casa-de-banho. Sento-me na borda da banheira, novamente. Sinto-me pior. Sinto ficar pior a cada momento que passa. Tenho gotículas de água a cair pela testa abaixo. São gordurosas. E sinto a testa fria. A transpiração é fria. Olho para o espelho e vejo-me branco. Pode ser só imaginação. Até porque nem consigo abrir bem os olhos. Mas pareço estar muito branco.
E então vem um vómito mais forte. Que puxa um segundo. E um terceiro. E é este que vem com força suficiente e sai de jacto boca fora em direcção ao fundo da retrete. É uma confusão de líquido vermelho e pedaços sólidos que não identifico. É o vinho tinto do almoço. Ah, e ali vai um bocado de tomate. Ao cair no fundo da retrete, o vomitado provoca alguns respingos que sobem e me batem na cara. Mas nem sinto força para sentir nojo.
Fico ali, assim, debruçado, a deitar fora tudo o que quer sair e agora a pensar que depois de vomitar poderei sentir-me melhor e ganho alento.
Cuspo uns bocados de qualquer coisa que está na boca. Levanto-me. Lavo a cara com água e sabonete. Olho-me ao espelho e não gosto do que vejo. Estou velho.
Lavo os dentes. Esfrego bastante a escova contra os dentes, pela língua, mas com tanta força que acabo por bater com o cabo da escova-de-dentes contra a gengiva e faço sangue.
Que merda!
Bochecho água. Espero que o sangue pare.
A dor de cabeça ainda não foi embora. Mas sinto um alívio no corpo. Já não me dói a barriga. Ainda sinto frio. E não estou bem em lado nenhum.
Puxo o autoclismo. A sanita ainda fica suja. Tenho de a limpar com o piaçaba. Mas não me mexo. Estou a olhar para o fundo da retrete e não consigo mexer-me.
Penso que estou mesmo a ficar velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/19]

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