Eu Ia, mas Voltava. Voltava Sempre

Saía a correr da Faculdade, com a mochila cheia de roupa suja. Chegava à Casal Ribeiro a transpirar de tanto correr e ficava nervoso a arrastar o passo, centímetro-a-centímetro, na fila para comprar o bilhete para o quase-expresso. Às vezes já não havia lugar. Tinha de esperar por outro horário. No meio dos cheiros tóxicos do gasóleo, do barulho, das pessoas transpiradas como eu, dos gritos, das conversas tontas e aos berros, dos motores agressivos das camionetas, das sandes secas de fiambre tipo york e queijo de barra e das imperiais mortas.
Na hora de ponta podia demorar-se uma hora a sair de Lisboa.
Em Aveiras acabava a auto-estrada. Parava-se no Pôr-do-Sol. Às vezes no Bigodes. Ou no Dom Abade. Comia uma sandes de panado. Uma mini. Fumava no autocarro. Naquele tempo ainda se podia fumar nos autocarros. Era uma festa de fumo de cortar à navalha. Por vezes nem via o condutor. Por vezes aviava-se um charrito. As janelas abertas. Não havia ar-condicionado.
Vinha pelo país profundo. Passávamos ao lado do Cartaxo. Vínhamos pelas Caldas da Rainha. Por Rio Maior. Horas e horas a fio dentro do autocarro. O nervoso. Nunca mais chego. Estou atrasado.
A chegada a Leiria. Passar pelo Panaceia. Pelo Amadeus. Largar lá o saco da roupa suja que a mãe iria lavar. Mais tarde. Era tempo de beber uma imperial. Comer uns tremoços. Encontrar os amigos. Os que tinham ido para o Porto. Os que tinham ido para Coimbra. Os que não tinham ido para lado nenhum. Todos tínhamos novidades. Novas músicas. Novas bandas. Novos grupos portugueses. Novos concertos. E as notas, pá? Ah, sei lá, meu!…
Jantávamos por lá, pela cidade. Íamos às Cortes. Ao Drácula e ao Pião. Íamos ao Salvador. Ao Pátio das Cantigas. A outros sítios que não me lembro. Comíamos e bebíamos e conversávamos tertúlias culturais. Tínhamos vontade. E desejo. E capacidade.
Criávamos conhecimento. Novos namoros.
Dávamos uma fugida até à Rua Direita. Fumávamos um charro às escondidas. Este veio de Amesterdão, pá!
Ouvíamos à porta É só para clientes habituais. Mas não era para mim. E não era só em Lisboa. Leiria também tinha a sua selecção. Querer entrar era um desejo. Entrar era só para quem podia.
E passava-se o fim-de-semana nisto. Em coisas assim. Numa grande rotação. O que a idade permitia. O que o corpo conseguia. O desejo. A vontade. As coisas novas. O que estávamos a descobrir. E trazíamos tudo para a cidade. Trazíamos a gasolina que alimentava a nossa pequena cidade.
Leiria podia ser provinciana, mas conhecia coisas. As coisas que os leirienses que andavam pelo mundo traziam.
No final de Domingo, às vezes ainda de ressaca, lá ia com a roupa lavada, passada-a-ferro e bem dobrada na mochila, à vezes com um segundo saco com tupperwares e comida congelada. Eram as saudades de casa. Tornadas feijoada. Dobrada. Rancho. Uma morcela de arroz para assar lá na capital.
A semana servia para descansar dos fins-de-semana cheios e intensos. Armazenar conhecimento e estórias para vir depositar na terrinha que, às vezes, te cospe e deita fora. Mas cagas nisso.
É que é de novo Sexta-feira e estás com vontade de regressar e encontrar tudo como tudo era.
Até que tudo muda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/15]

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