Passar pelo Tempo

Fui cortar o cabelo. É uma coisa que faço muitas vezes quando as coisas não me correm bem, quando ando nervoso, quando não sei o que fazer.
Ultimamente tenho cortado bastantes vezes o cabelo. Cortei-o tanto que já não o consigo agarrar. Passo-lhe a mão, os dedos tentam agarrar os cabelos mas não conseguem. Acabam por ser uma massagem. O que até sabe bem. Gosto de uma boa massagem.
Quando tomo banho nem tenho que me preocupar a secá-lo. Passo a toalha uma vez, e já está.
Descobri que até tenho um crânio bonito, redondo, circular, não muito perfeito. No meio de toda a beleza do meu crânio, descobri-lhe três altos. Não sei o que são. Não são acumulação de caspa. Não são feridas. Não são furúnculos nem quistos. Não me doem. São rijos. É como se o crânio tivesse três cornos. Talvez sejam uns cornos. Para defender o crânio. Ou talvez seja uma inovação estética. Ou o passo seguinte e natural na evolução do Homo Sapiens. Uma mutação. Talvez seja o factor X. Como o dos X-Men. Tenho de tentar perceber qual o meu poder. Talvez… Hei! O que é que estou para aqui a dizer?
Já não sei o que digo. Ando nervoso. E quando ando nervoso falo muito. Sobre tudo. Acerca de nada. Acho que não consigo estar calado. Se me calo começo a pensar no que me incomoda e deprimo. Quando falo, esqueço a depressão. As conversas são o meu Alprazolam.
Não sei porque é que estou nervoso.
Sinto um aperto no peito. Quero respirar, mas é difícil. É como se tivesse o peito cheio de ar e ele não quisesse sair. Tenho que o ir tirando aos poucos. E insistir. Forçar.
Com o cabelo curto respiro com mais facilidade. É como se ao cortar o cabelo abrisse uma passagem de ar directa aos pulmões. Isto não faz muito sentido mas é o mais próximo do que sinto.
Sentei-me numa esplanada a aproveitar os últimos restos do Verão e acendi um cigarro.
Bebi um café. Comi um croissant folhado. Simples. Fumei, bebi e comi, tudo ao mesmo tempo.
Reparei que andava a fazer as coisas todas ao mesmo tempo. Como se não houvesse mais tempo à minha disposição. Como se as horas fossem minutos. Os dias, horas. As semanas, dias. Os meses, semanas. Eu estava a envelhecer e o tempo comigo. Íamos acabar.
Estava na esplanada a fumar um cigarro, a beber um café e a comer um croissant folhado e começou a nevar. As senhoras passavam de casacos compridos e quentes. Os homens de guarda-chuva na mão. Uma música de Natal entrou-me pelos ouvidos. As lojas luziam às cores. As pessoas passavam com sacos de presentes. As crianças corriam contentes. Um cão cheirava o rabo da um gato. O meu cabelo estava outra vez comprido. Só o cigarro era o mesmo e estava do mesmo tamanho. E como me sabia bem, cuspir fora o fumo e sentir o cheiro a invadir-me as narinas. E a beata presa nos dedos. Sim, gostava de sentir o cigarro preso nos dedos da mão. Agarrava-me à realidade. À vida. Morro quando largar o cigarro.

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