O Domingo Tornou-se um Bom Dia

Estou em casa e olho para ela. Ela ignora-me. Já não nos falamos. Há dois meses que não nos falamos. Isso tem evitado que nos matemos um ao outro. Porque os olhares, os olhares disparam balas certeiras que nos fere mas não nos mata. Ainda estamos vivos. Ainda.
Mas hoje ouvi umas notícias.
Estou em casa e olho-a. Ela ignora-me mas eu não consigo não olhar para ela.
Hoje ouvi que a autora de um livro policial intitulado Como Matar o Seu Marido, Nancy Crampton Brophy, foi presa acusada de ter matado o próprio marido. Aparentemente ele foi morto exactamente como a esposa-escritora descreveu no seu livro best-seller.
Ela está a arranjar uma sandes de fiambre com manteiga. Bebe um copo de leite frio.
Eu não consigo beber leite. Acho que, com os anos, tenho-me tornado intolerante à lactose. Mas só do leite porque, estranhamente, tenho continuado a comer queijo sem problemas. Então, larguei o leite e comecei a beber vinho tinto a acompanhar o queijo.
Abro uma garrafa de vinho tinto. Adega Cooperativa de Portalegre.
Enquanto abro a garrafa, continuo a olhar para ela. Ela sai da cozinha a trincar a sandes de fiambre com manteiga sem olhar para mim. Sem levar um guardanapo. A espalhar migalhas. Cabra!
Fico na cozinha a beber o copo de vinho, encostado à bancada, e penso na outra notícia.
Uma mulher matou o marido com ajuda do amante. Mataram-no em casa e despejaram-no a cento e trinta quilómetros de casa. Mas morto com um tiro de pistola de uma arma registada pelo amante da mulher e o corpo enrolado num tapete da própria casa.
Abano a cabeça. As pessoas são idiotas.
Não, não tenho ideias parvas.
Não há crimes perfeitos. Leio livros há muito tempo. Vejo filmes à tempo demais para não saber que é assim.
Vamos continuar a não nos falarmos. Ela vai olhar para mim e eu vou ignorá-la. Eu vou olhar para ela e ela vai ignorar-me.
A casa é pequena. Não temos como nos evitar. Mas sabemos que vamos continuar assim. A olhar. Sem falar. A ignorar. E a foder uma vez por semana. Ao Domingo. Hoje.
Vou acabar o copo de vinho tinto e tomar um duche.
Quero estar bem-cheiroso. Mas é por mim, não para ela. Não a suporto. Mas gosto de estar bem-cheiroso quando ela se coloca em cima de mim. E se esfrega. E deixa cair a cabeça sobre o meu pescoço. E diz o quanto me odeia enquanto me beija. Não fala comigo. Fala com ela própria.
O Domingo tornou-se um bom dia.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/30]

Os Mangalhos em Serralves

O tamanho do meu pénis erecto é de quase 15cm. E digo quase porque é melhor que dizer que tem mais de 14. Acho que já foi maior. A idade tem-no feito minguar.
Tenho tido, ao longo dos tempos, uma boa relação com o meu pénis. E com os pénis dos outros. Nunca me senti diminuído.
No fundo, tenho-me sentido satisfeito com o pénis que me calhou e não queria ter tido outro. Este tem respondido bem às solicitações. E já criei muita afinidade com ele. Tem-me acompanhado aos longo dos anos e nunca me deixou ficar mal. Mesmo daquela vez…
Quando entrei em Serralves e vi aqueles mangalhos, poderia ter ficado escandalizado, talvez até ciumento, mas não fiquei. Tenho resolvido a vida com o que tenho. Já fui casado. Mais que uma vez. Tive namoradas. Bastantes. Amantes. Amigas coloridas. Umas raparigas com quem fiz amor. Outras com com fodi. Fui à putas. Tive algumas experiências. Brincadeiras. Liberdades. Excessos. Tive filhos. E filhas. Até tive cunhadas e irmãs. Algumas mães. E uma avó. Mas era nova.
Quando entrei em Serralves, não vi nada que já não conhecesse do trabalho de Robert Mapplethorpe. E que não tivesse já visto na vida. Tenho amigos africanos. Cresci a ver A Garganta Funda, Por Detrás da Porta Verde e A História de Joana, para além de outras alarvidades. Mas é como tudo. Umas coisas são assim, outras são assado. Uma vez uma amiga perguntou-me o que é que achava das mamas dela. Eu acho bem, respondi. E ela Então?! Então, tu é que tens que achar. Eu gosto de mamas, ponto disse-lhe. E continuei, mostrando a mão aberta, dizendo Desde as que cabem aqui, até às que têm dificuldade em entrar aqui, disse mostrando então já a mão em concha. Nós somos como somos e temos é de gostar de nós, disse-lhe armado em Deepak Chopra ou outro guru da auto-ajuda.
Antes de ter entrado em Serralves, já tinha visto o Jeff Koons a foder com a Ilona Staller em fotografias ampliadas a tamanho de parede. Não me senti intimidado. Gosto do Jeff Koons. Gosto das fodas de Jeff Koons. Gosto dos cães floridos de Jeff Koons. Gosto da lagosta do Jeff Koons. Gosto, de uma maneira geral, das merdices pop-pindéricas de Jeff Koons. E isso é que me importa.
E também gosto das fotografias do Robert Mapplethore. Das pilas gigantes do Robert Mapplethorpe. Dos rabos do Robert Mapplethorpe. Das Patti Smith do Robert Mapplethorpe. Dos auto-retratos do Robert Mapplethorpe.
Gosto do fetichismo de Robert Mapplethorpe e, ao contrário do Henrique Monteiro, não teria problemas em ir ver a exposição com os meus filhos e falar-lhes sobre o que estavam a ver. Mais dificuldade teria em tentar explicar como é que o Expresso teve o Arquitecto tantos anos como director.
Mas já chega de arte. Hoje é Sábado e quero ver se consigo dar trabalho aos meus quase 15cm.
E fumar um cigarro, enquanto ainda se pode.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/29]

Volátil

Ela vai à frente a correr. Não vai sempre? Não vai sempre à frente? A correr? Vai a correr desalmada duna acima, duna abaixo. Em direcção ao mar. Às ondas frias de Setembro. E mergulha sem medo.
Ela vai à frente a correr, mas vira-se. Vira-se para trás. Vira-se sempre para trás. Para mim. Ou sou eu que a faço virar? Que imagino que ela se vira? Ela vira-se para trás mas não lhe vejo a cara. O sol bate-lhe nos cabelos d’ouro e explodem em partículas douradas que a escondem. E não a consigo refazer.
Como esqueci a cara?
Mergulha.
Mergulha e vai, vai, vai por ali fora até ao princípio do mar.
Princípio de incertezas.
Até aos meus olhos?
Até às lágrimas dos meus olhos?
Onde moro? Onde moram?
O sangue corre ácido nas veias. Cospe. Vomita.
Como esqueci a cara?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/28]

Um Sabor Amargo na Boca

Fui ao café beber um expresso. Tenho andado com fortes dores de cabeça. Falta de cafeína. Ou de sexo.
Desci à rua e fui ao café. Encostei-me ao balcão. Havia uns bolos com ar muito seco. Mil-Folhas daqueles muito branquinhos, raquíticos, com riscos castanhos a sugerir chocolate. Palmiers com a massa-folhada a desfazer-se, a cair em pedaços. Pastéis de Nata quebrados a meio, como uma estrela de quatro pontas.
Veio o café. Sem espuma. Ferruginoso. Queimado. Amargo. Despejei um pacote de açúcar. Não chegou. Quente, quente, quente. Tão quente que mais que soprasse não ficava frio. Queimei a língua.
Ao fundo do balcão chegou um tipo. Pediu um medronho. Não havia. Uma Aldeia. Nova ou Velha? Pode ser Velha. Só há Nova. Pode ser.
Nunca gostei de aguardentes. De medronho, sim. Mas houve um tempo em que bebi Croft. Depois passei para a Macieira. E ainda acabei na 1920. As coisas que bebemos quando o dinheiro não abunda. Acho que começou aí o calvário do meu fígado.
Lá ao fundo do balcão tocou um telemóvel. O tipo atendeu e começou a falar alto. Exaltado. O rapaz do café aproximou-se e tentou que o tipo baixasse o tom de voz.
Eu olhava para o Mil-Folhas. Tão mau aspecto e tanto desejo despertado. Conscientemente, eu não queria. Mas tinha de o comer. Já sabia que me ia saber mal. Cair pesado no estômago. O açúcar ia colar-se aos dentes e não me permitir abrir a boca e mastigar. O creme ia deslizar com dificuldade pelo esófago e deixar lá um travo a acidez. E não tinha Kompensan em casa. Mas era um substituto.
Bebi o resto do café. Fiquei com um sabor amargo na boca.
Ao fundo o balcão o tipo mandou com o copo vazio à cabeça do rapaz do café. Fez um corte. Saiu sangue. O tipo ainda arremessou também uma embalagem de guardanapos, falhou o alvo e acertou nas garrafas, deitando algumas abaixo. Um estardalhaço.
Perdi o desejo de comer o Mil-Folhas raquítico e esbranquiçado.
Ao fundo o tipo ainda ameaçou o rapaz levantando o braço como se lhe fosse bater. Mas estava longe. Cada um do seu lado do balcão. Aquilo era só show off.
Eu procurei umas moedas nos bolsos das calças para pagar o café.
O tipo voltou a levar o telemóvel ao ouvido. Continuou a falar alto. Sempre exaltado. Enquanto saía do café ia olhando para mim. Que é que queres, pá?, pensei eu que ele estaria a pensar ao olhar para mim.
O rapaz do café estava encostado à máquina do café, com um pano de limpar as mesas a aguentar o sangue que lhe escorria da cabeça.
Larguei as moedas em cima do balcão. Murmurei qualquer coisa para ele que nem eu sei bem o quê. E saí do café. Envergonhado.
Voltei para casa.
Quando cheguei a casa comecei a tremer. Sou um mariquinhas do caralho.
E a dor de cabeça não me largava. Agora agravada pelo sabor amargo na boca. E a falta do doce. Ou do sexo.
Que porra de vida a minha!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/27]

Universo Paralelo

Às vezes há sítios que conheço e que desaparecem do mapa. Entram num universo paralelo. Nunca mais os vejo. Deixam de existir. E quando menos espero, caem do céu à minha frente. E eu penso Que porra é esta? Como é que nunca mais cá vim? Houve muitas praias alentejanas a que aconteceu isso. Desapareceram. Nunca mais as encontrei.
O mesmo de passa com algumas pessoas. Pessoas de quem era muito amigo e, de um momento para o outro, desaparecem. Deixam de ser. Provavelmente nunca foram. Começo a pensar que eram um sonho meu. Que na verdade nunca tinham existido. Que eram amigos imaginários. Até que um dia me volto a cruzar com eles. E penso Onde caralho andaste, pá?
Foi o que me aconteceu ontem.
Fui muito amigo do F. Durante muitos anos fomos mesmo muito próximos. Fazíamos tudo, ou quase tudo, juntos. Gostávamos das mesmas coisas. Queríamos fazer as mesmas coisas. Gostávamos dos mesmos discos, quando os discos ainda eram de vinil, saíam bem poucos, duravam bem mais, eram mais devorados e decorávamos as letras e conseguíamos trautear as músicas – nunca aprendi música, e é o meu grande drama, que eu sempre acreditei ter perfil de estrela rock.
Gostávamos dos mesmos filmes, quando os filmes ainda eram projectados em película em écrans de salas escuras, e tínhamos de fugir de casa dos pais para ir às sessões da meia-noite.
Gostávamos dos mesmos livros, quando ainda os roubávamos nas livrarias da cidade, e os líamos à vez, primeiro eu, depois ele.
Gostávamos das mesmas comidas, um bitoque com ovo a cavalo, nem muito nem pouco frito, para podermos molhar o pão na gema amarelinha.
Gostávamos das mesmas raparigas. Aconteceu namorarmos à vez com as mesmas raparigas. Primeiro ele. Depois eu. E vice-versa. Mas um dia as coisas acabaram ao soco debaixo de uma nespereira à borda da estrada ao pé de minha casa. Por causa de uma rapariga. Há sempre uma rapariga. Há sempre uma rapariga para dar cabo de tudo.
E, então, um dia o F. desapareceu. Deixei de o ver. Passei a ouvir os discos sozinho. E comecei a escrever o que achava deles, já que não os podia discutir com F., e acabei a publicar crítica de música no Sete. Passei a ir ao cinema sozinho e comecei a gostar do cinema francês. Passei a comprar os livros. E apaixonei-me pela poesia. Deixei de comer bitoques e optei pela feijoada. Engordei. Nunca mais tive uma namorada. A vida perdeu algum sal. Mas consegui amealhar algum dinheiro. Não se pode ter tudo, não é?
Até ontem.
Ontem cruzei-me com F. nas rulotes.
Era meia-noite. Estava com fome. Não tinha nada em casa. Saí e fui às rulotes. Estava a dar a primeira dentada numa bifana com tiras de bacon frito, queijo, alface, tomate, cogumelos e cebola caramelizada daquela dos pacotes industriais, bem regada de ketchup, maionese com alho e mostarda, com os molhos a escorrerem-me pelos cantos da boca e pelos dedos, quando olhei para um tipo e reconheci: F.!
Ele também me reconheceu, estando eu bem disfarçado de gordo e quase careca – nisso, saí mesmo ao meu pai.
Então, F.?, perguntei-lhe. Ao que me respondeu com outra pergunta, Então?
Deu-me uma palmada amistosa no braço. Pediu um hambúrguer vegan, que levou para casa, e disse Ciao.
Eu não disse nada que tinha a boca cheia. Mas fiquei a vê-lo ir-se embora. A pensar que era um Cometa. Ou uma Supernova. E que iria desaparecer outra vez. Entrar num universo paralelo. E viver outra vida. Uma vida sem mim.
Dei o resto da bifana ao cão que andava por ali a cirandar.
Agora era eu que iria desaparecer deste universo. Iria embora da cidade. Iria emagrecer. Iria ser outra pessoa. Iria viver num universo paralelo.
Não sabia era se tinha força de vontade.
Ainda estou à procura dela.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/26]

Ela Deu-me um Estalo e Eu Fui-me Embora

Ela deu-me um estalo.
Deu-me um estalo e depois ficou ali assim, parada, muito direita na cadeira, sem dizer nada, só a olhar.
Eu senti a cara a ficar vermelha. Não só do estalo. Forte. Sonoro. Mas também de vergonha. Vergonha das pessoas que, no café, viraram a cara para o que estava a acontecer e aguardavam uma resposta de minha parte. E olhavam para mim. Ostensivamente. Nem disfarçavam.
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Ela continuava parada, muito quieta, à minha frente. Mas as feições da cara estavam a mudar. Estava com uma expressão dura. Como se estivesse para rebentar. Ou me quisesse rebentar a mim. Olhava-me mas entrava dentro de mim.
Eu estava bastante incomodado. Não queria estar ali. Mas estava.
Algumas pessoas tinham retomado as suas conversas. Mas ainda havia algumas a olhar de esguelha. Outras a espreitar por cima do jornal. Havia mesmo um miúdo que tinha o telemóvel virado na minha direcção. Estava a gravar, o cabrão.
Ela não dizia nada. Se calhar não tinha nada para dizer. Tudo ficara já dito quando me dera o estalo.
Eu olhei para baixo. Para a mesa. O café ainda estava na chávena. Um café queimado. A espuma era da cor da ferrugem. E já devia estar frio. Bebo-o ou não? Eu gosto muito de café. De todo o tipo de café. Expresso, americano, de saco, da avó… Aquele já tinha mau aspecto quando veio para a mesa, lembro-me bem mas, naquela altura, parecia mesmo intragável.
Não voltei a subir o olhar, mas senti os olhos dela em mim. Espetados em mim. Olhos agressivos. Frios. Facas disparadas à velocidade da luz.
Peguei na chávena e bebi o café de um gole. Travei um solavanco de vómito. O café sabia mal. Mas aguentei-o no estômago. Não queria mais vergonhas. Já bastava.
Coloquei a chávena sobre o pires. E contei Um… Dois… Dois e meio… Três!…
Coloquei as mãos na mesa e ajudei ao impulso para me levantar da cadeira. Virei costas e saí dali.
Não disse nada.
Enquanto percorria o café sentia o olhar desanimado das outras pessoas em mim. Não tinha havido sangue. Eu não tinha respondido. Aquele estalo não tinha tido consequências violentas. Que desatino. Que frustração.
Já estava a sair para a rua e a colocar as mãos nos bolsos das calças quando ouvi atrás de mim Espera! Espera aí! Onde vais?
Não me virei. Continuei em frente. Ia-me embora. Havia uma sessão de cinema no Miguel Franco e era para lá que ia. Nem sabia que filme era. Não importava. Uma sala de cinema vazia e escura era o que eu estava a precisar.
Atrás de mim continuava Ouve! Espera aí! Desculpa!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/25]

Talvez Seja Só o Fim do Mundo

A Lua hoje saiu cedo. E grande. O céu ainda não é preto. É de um azul petróleo, denso.
Vejo-a caminhar. Distanciar-se da torre da igreja. Cada vez mais. Cada vez mais alta.
Fumo um cigarro.
Ouço o cão, lá longe, a ladrar. Não se cansa. Não se cala. Ladra em continuo. Não percebo o que diz.
Agora há um outro cão a responder-lhe. Mas do outro lado. Eles comunicam e eu fico de fora.
O gato roça-se nas minhas pernas. Não me mexo. Deixo-o roçar-se. Quando largo a cinza do cigarro tenho cuidado para ela não cair em cima do pêlo do gato.
Ouço o barulho de uma motorizada a espremer o motor. Depois um camião, de som grave. Um carro, de som agudo. Mas não os vejo. Só os ouço.
Acabo o cigarro. Acendo outro.
Sinto que algo se passa.
O dia esteve estranho. A noite está estranha.
Não sei porquê.
Sinto uma impressão na base da nuca. Por vezes, fico com o corpo arrepiado. Acho que estou um pouco assustado. Com medo.
Mas não sei porquê.
No caminho lá em baixo passa um homem. Ele pára e olha para mim. Estamos demasiado longe para percebermos as feições um do outro. Mas vejo-o a ver-me.
E esta estranha sensação.
O homem retoma a sua marcha.
Os cães calaram-se.
O mundo está em silêncio.
Fumo o meu cigarro.
E então vejo, vindo lá do céu, uma massa em chamas, a cair. Primeiro é pequena. Depois vai aproximando-se.
Não sei o que é. Talvez um meteorito. Um avião. Um satélite. Um bocado da Estação Espacial.
Talvez seja só o fim do mundo.
A massa em chamas cresce e aproxima-se de mim.
Eu fumo o cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/24]

O Sexo É Mais Assustador que a Morte

Ela preparou a iluminação. Nada de muito complicado. Um pequeno candeeiro com um véu por cima a filtrar a luz. A janela aberta mas as persianas um pouco fechadas a quebrar as luzes exteriores. Foi à câmara. Espreitou. Dirigiu-se à poltrona e virou-a um pouco. Foi espreitar de novo. E, outra vez, mais um ligeiro toque na poltrona. Apontou o fotómetro para a poltrona. Mediu a luz. Voltou à câmara. Subexpôs. Depois despiu-se e vestiu uma combinação. Voltou à câmara. Espreitou. Carregou no temporizador. Foi sentar-se na poltrona. Deixou descair uma alça. Um seio saltou para fora. Clic. A câmara disparou. A fotografia foi tirada.
Ela pegou na câmara. Ligou-a ao computador. Importou a fotografia. Mirou-a com muita atenção. Passou-a para preto e branco. Escureceu-a ainda um pouco mais. Percebia-se que era ela, mas não se via bem a cara. Por outro lado, o seio chamava atenção. Ela sorriu. Gostava de fotografia. Gostava de si. Gostava de se ver. Por vezes, de se expor um pouco, não demasiado. Mas o suficiente para sentir uma certa adrenalina.
Entrou no Facebook. Fez um post com a sua fotografia. Não demorou muito a receber um Like. Dois. Três. Voltou a sorrir.
Ainda não tinha passado uma hora, já tinha a conta bloqueada por causa da fotografia. Já estava habituada. É por isso que tinha duas contas. Na outra, que só lá ia em caso de bloqueio da primeira, era mais comedida. E foi lá. Queixar-se. Mas não era queixume. Foi só informar. Informar que o sexo continuava a fazer medo a muita gente. Porque nunca sabia. Nunca sabia se era o algoritmo ou denúncia.
Entretanto, no outro lado da cidade, ele olhava-se ao espelho. Fazia caretas. Tentava fazer cara de mau. Experimentava ser agressivo. Ameaçava-se a ele próprio. Depois levou a mão às costas e pegou num revólver. E apontou o revólver a si próprio, reflectido. E riu. Faltava-lhe um dente à frente. Uma briga na semana anterior.
Voltou a colocar a arma presa às calças de ganga, atrás. Saiu de casa. Na rua foi evitando as outras pessoas. Especialmente as raparigas. Olhos no chão. Passada larga e rápida. Cruzou a cidade. Levava uns auscultadores nos ouvidos. Ouvia música do telemóvel. Ignorava a cidade.
Chegou a um prédio. Olhou-o com atenção. Viu umas luzes. Umas persianas fechadas. E viu uma persiana descida, não completamente fechada, e a janela aberta. A janela não ficava longe das escadas exteriores do prédio. O prédio tinha um rebordo. Não muito grande. Mas o suficiente.
Ele tirou os auscultadores dos ouvidos. Desligou a música do telemóvel. Saltou o portão de entrada. Subiu as escadas. No andar certo saltou para o pequeno muro das escadas e agarrou-se à parede exterior e foi andando, devagarinho, com muito cuidado, pelo rebordo, até chegar à janela. Ergueu-se, silencioso, puxou-se para a janela e deixou-se escorregar para dentro de casa.
Começou a vasculhar o quarto. Umas cuecas caídas em cima da cadeira. Agarrou-as. Cheirou-as. Voltou a largá-las no mesmo sítio. Viu uma nota de vinte. Apanhou-a e pô-la no bolso. Viu umas moedas. Apanhou-as. Uma-a-uma. Um tablet. Agarrou nele. Olhou para a entrada do quarto e viu. Ela estava lá parada a olhar para ele. Olhou para o telemóvel. Ele percebeu. Ela saltou, agarrou no telemóvel e saiu do quarto enquanto ia ligando para as emergências. Ele foi atrás dela e, quando ela estava a tentar abrir a porta da rua, levou a mão às costas e puxou o revólver. Disparou. Uma vez. Uma só vez. Acertou nela. Nas costas dela. Uma mancha de sangue começou a formar-se na combinação enquanto ela deslizava para o chão.
Ele ficou quieto. À espera. À espera do que é que podia acontecer de seguida. De algum barulho. De algum movimento. Mas ela não se mexeu mais. Ele virou-se de costas para a porta. Agarrou no seu telemóvel e pôs-se em pose. A mão direita à frente do peito a agarrar o revólver, um pouco elevado. Ao fundo, se se olhasse com atenção, podia perceber-se o que podia ser um corpo caído. Mas não havia luz suficiente para identificar o lugar. Rasgou um sorriso na cara. Tirou uma selfie. Postou-a no seu Facebook. E escreveu Mais um dia no escritório. Depois foi ter com o corpo dela. Não viu se estava viva ou morta. Tirou-lhe o telemóvel. Deu um giro pela casa. Encontrou mais umas notas de vinte euros. Levou a câmara fotográfica presa ao tripé. Abriu a porta da rua e saiu.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/23]

O Desperdício É um Crime

Estava um dia de merda. Um sol horrível a dizer-me Vai para a praia, pá! Vai para a praia!, e eu casmurro, que não, é Outono e já estou com a neura dos dias curtos com upgrade de fim-de-semana.
Estava, portanto, um dia de merda, com o sol a brilhar nas suaves e quentes ondas de São Pedro de Moel (disseram-me!) e eu fechado em casa por não acreditar no Pai Natal, em Unicórnios e que o sol se levanta antes do meio-dia em São Pedro de Moel (quando, a bem da verdade, são já quase três da tarde).
Estava, então, um dia de merda e eu fui fazer bolhinhas de sabão para a varanda. Soprava, soprava e elas nasciam-me à frente do nariz, voavam pela rua, tocadas a vento e iam morrer, felizes e contentes, em pequenos plocs na calçada portuguesa lá em baixo. Às vezes na cabeça de uma velha. Outras vezes na careca de um skin. Uma vez, uma vez só, no boné de um polícia das multas.
À minha frente, na varanda à minha frente, a minha vizinha fumava um cigarro encostada à porta da varanda e olhava-me com um olhar lânguido. E disse-me Estás a desperdiçar água! e eu respondi-lhe E tu estás a desperdiçar-te aí assim, sozinha e vestida. Ela não respondeu. Ficou a fumar o resto do cigarro enquanto continuava a olhar para mim. Acho que me avaliava. Depois entrou em casa.
Eu continuei a fazer bolhinhas de sabão. Lá em baixo um tipo escorregou no piso cheio de sabão. Deu três gritos, ninguém lhe ligou e foi-se embora.
E eu ouvi É uma pena desperdiçá-la! Olhei em frente e vi a minha vizinha, nua, com uma garrafa de vinho branco entre as pernas (estava a abrir a garrafa!).
Larguei o frasco das bolhinhas e desatei a correr, saí de casa, desci as escadas, cruzei a rua, abri a porta da rua do edifício em frente, subi as escadas e entrei em casa dela antes ainda de o frasco das bolhinhas chegar à calçada portuguesa, lá em baixo, debaixo da minha varanda. Eu moro num quarto andar.
A minha vizinha já tinha a garrafa de vinho branco aberta quando lá cheguei. Ela estava à porta da varanda, nua, a olhar para mim e a despejar o vinho por ela abaixo e disse É um crime desperdiçar este vinho!
Eu concordei.
E o dia melhorou bastante.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/22]

A Minha Mãe Queria que Eu Fosse Tão Elegante como o Meu Pai

A minha mãe olhava para mim e dizia Porque é que não és como o teu pai?, mas não para ser ele, ou ser parecido com ele, mas para ser mais como ele.
O meu pai era elegante. Sempre de fato. Calças, casaco, camisa, gravata e, às vezes, até colete. Usava botões-de-punho. Tinha vários diferentes, para as diferentes camisas e diferentes ocasiões. Eu poderia tentar explicar como é que determinado botão-de-punho era para determinada camisa. Mas não sei. É uma ciência que me transcende. O meu pai sabia. E tentou ensinar-me. Mas não tive ouvidos.
O meu pai fazia a barba todos os dias de manhã. Eu acordava, geralmente, com ele a fazer a barba. Fazia quase sempre com lâminas. Pincelava a espuma na cara e depois raspava. Quando estava com muita pressa fazia à máquina, mas não gostava. Dizia que Não fica como deve ficar. Depois massajava-se com after shave. Um dia ofereceu-me uma navalha para a barba. Nunca a utilizei. Não sei utilizar. Era raro que ele utilizasse mas, uma vez, fez-me a barba a mim, com a navalha. E depois colocou-me um pano quente sobre a cara acabada de ser escanhoada. Deve ter sido a última vez que a minha cara ficou livre de pelos.
Nunca vi o meu pai usar calças de ganga. Aquelas que até Primeiros-Ministros de países do Primeiro Mundo usam quando visitam países do Terceiro Mundo. Muito menos calções. Calções de banho, sim. Nas poucas vezes que foi à praia.
Também nunca vi o meu pai calçar sapatilhas. Muito menos ténis. Talvez tenha usado alpercatas nos tempos de mocidade, mas nem ele se devia lembrar de tal heresia.
De Inverno usava, geralmente, uma gabardina ou um sobretudo sobre o fato. Gabardina em dias de chuva ou de vento. Sobretudo em dias frios. Cheguei a roubar-lhe algumas gabardinas. Principalmente na minha fase urbano-depressivo. Gabardinas de três-quartos. Escuras. Cinzento escuro.
Nunca usou botas. Sempre sapatos. Sapatos de sola. Nunca de borracha e muito menos de plástico. O que me complicou a vida quando quis comprar umas Doc Martens.
De Verão usava calças mais leves, mas sempre impecavelmente vincadas pela minha mãe, e camisas leves de manga comprida. Não usava mangas curtas e, no Verão, prescindia da gravata. A não ser que usasse casaco por algum motivo e, então sim, usava gravata. Nessa altura usava uns sapatos mais leves, com uns furinhos em cima, no couro, a formar desenhos.
O meu pai usava óculos. Óculos de ver. E em toda a vida, deve ter mudado de armação, não mais de quatro vezes. É aqui que sou mais parecido com ele. Agora também uso óculos para ver que estou a ficar velho e os livros que fui lendo ao longo da vida gastaram-me a vista, mas sempre usei óculos de sol, que tenho uma vista com muita sensibilidade à luz. A iluminação branca, fluorescente, dá-me nervos e é capaz de me levar a cometer actos de loucura. E em toda a minha vida devo ter usado quatro ou cinco armações diferentes.
Em casa o meu pai usava roupão por cima do pijama. Eu nunca uso pijama. Já usei quando a minha mãe me obrigava. Quando deixou de me conseguir obrigar, deixei de usar. Gosto de boxers. E t-shirt. E, na hora de dormir, nem uso um pingo de Channel 5. E roupão, foi coisa que nunca usei na vida. Faz-se sentir preso. E eu não gosto de me sentir preso.
A última vez que entrei em casa da minha mãe ela perguntou És tu, menino?, e eu disse Sim, sou eu!, e ela perguntou-me se por acaso eu era algum menino. E disse-me Senti logo, pela falta do after shave, que não era o teu pai. E quando te vi assim, maltrapilho, nessas calças de ganga todas ruças, nessa camisola que já deve ter sido um dia, há muito anos, branca – quem é que te lava a roupa? podia por um bocadinho de lixívia para desencardir -, e com essas sapatilhas todas sujas e rotas – como é que consegues andar assim, meu Deus? – percebi logo que não era o teu pai. Que desgosto, filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/21]