Os Bichinhos a Passear em Cima do Açúcar

Via-os a correr de um lado para o outro. Eram uns bichinhos, pequeninos, parecidos com os piolhos, que corriam assim, rápidos e nervosos, em cima do açúcar. E via-os sem óculos.
Não tinha grande escolha. Estava com a colher da mão e olhava para eles. Enfiavam-se dentro do açúcar e, por momentos, desapareciam. Depois voltavam à tona. E desatavam a correr de um lado para o outro.
Eu ia lá com a colher, afastava um pouco do açúcar, fazia um pequeno buraquinho, tentava fugir ao bichos, mas em vão.
Suspirava. Enfiava a colher. Apanhava um pouco de açúcar e largava-o na caneca de café.
Não conseguia beber café sem açúcar. E precisava de energia. Sentia-me cansado.
Nestes últimos dias sentia-me um pouco cansado. Um pouco demais. Sentia o regresso da bronquite a acompanhar o regresso dos dias mais frios. Esta instabilidade do clima era-me terrível. Puxava-me a bronquite que trazia a dificuldade em respirar que me provocava cansaço que me deixava deprimido. Uma espiral sem fim.
Mexia a colher na caneca. E via os bichinhos a subirem à tona do café. A girarem na espiral provocada pelo mexer da colher, à volta, devagar, mas constante, sem parar, a girar, à volta, e os bichinhos a acompanharem esse circuito giratório. Alguns morriam. Se calhar afogados. Esses eu apanhava-os com a colher e largava-os no guardanapo de papel. Mas havia alguns que conseguiam sobreviver e nadavam no café. Alguns deles conseguiam mesmo chegar à parede da caneca e subiam até sair de lá para fora. Mas nessa altura eu já não queria saber, levava a caneca à boca e bebia o café, pensando que, qualquer bicho que eu pudesse ingerir era uma potencial proteína. E pronto.
Apanhava um bocado de pão duro, molhava-o no café e comia-o. Assim amolecido passava bem pela garganta inflamada e não precisava de forçar os dentes e as gengivas. Nas últimas semanas andava a deitar sangue das gengivas. Devia ter escorbuto. Não comia laranjas há tanto tempo!
Estava há seis meses à espera de uma consulta no médico de clínica geral. Estava à espera que surgisse uma vaga para mim. Mas o que é que o médico ia dizer? Que isto era falta de vitamina C? Eu sabia. Eu sabia disso. Mas, e depois?
Limpava as migalhas da toalha e juntava-as num pires e ia pôr o pires à janela. O gato ia lá comer as migalhas. Partilhávamos o pouco que tínhamos.
Finalmente tive consulta.
Depois da consulta, o médico achou que o melhor era ficar internado. Acho que descobriu qualquer coisa num pulmão. Ou nos dois, já não sei. Disse que teria de ficar uns dias para observação.
Eu sabia no que é que esse internamento ia dar. Depois de umas análises, alta para casa porque não há dinheiro para ficar internado. E com a minha idade…
Estou a aproveitar, enquanto aqui estou, para me alimentar um pouco melhor.
Descobri o açucareiro. Já encontrei os bichinhos. Andam lá de um lado para o outro. É um problema geral, parece-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/30]

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