A Vida Continua mas Já Não É a Mesma

Vesti um sobretudo. Está frio. O céu, cinzento. As montanhas ali à frente têm os cumes brancos. Neve. Não me lembro da última vez que lá nevou.
Estamos no Verão. Mas já nada é o que era.
Estou à janela da cozinha e sinto o chão a tremer. Ouço a marcha da milícia. Vieram da cidade e assentaram arraiais por aqui. Andam a doutrinar as pessoas. Às vezes, à força.
Ocuparam a escola primária. Fizeram lá o seu quartel. Algumas pessoas foram levadas para lá e nunca mais saíram. As aulas estão a começar. Para onde é que irão as crianças?
Vejo-os passar lá à frente, na estrada. Ao passar olham cá para cima, para eu saber que eles sabem que estou aqui. Até agora não fui um problema. Mas também não fui uma solução. Estão à espera para ver o que vou fazer. E eu não sei o que é que hei-de fazer.
Saio de casa, com frio, e vou apanhar uns limões ali ao limoeiro. Ainda estão verdes mas, se eu não os apanhar, apanham-nos eles. E não vão esperar que estejam maduros. Amarelinhos. Assim, mesmo verdes, sempre poderei beber um chá. Enquanto espero. Enquanto espero pelo que me irá acontecer. Enquanto tento pensar no que é que hei-de fazer.
Eles passam e a estrada volta ao silêncio. Toda a aldeia vive em silêncio. O barulho, quando há, é feito por eles. Eles mandam. O resto obedece.
Até o cão deixou de ladrar. Tem sempre o rabo entre as pernas. E quando quer a minha atenção, põe-se a ganir baixinho.
Apanhei três limões. Trago-os para casa. Ligo a chaleira. E espero.
Ligo a televisão. Parece que não se passa nada. Continua a feira popular. Os prémios em dinheiro. As chamadas de valor acrescentado. A indignação com os factos da vida de todos os dias, com aquilo que é normal. O mundo cor-de-rosa. As festas. Parece que nada está errado nesta terra. Parece que a vida continua como até aqui. Ninguém fala nada. Ninguém diz nada. Parece que a solução encontrada por toda a gente é ignorar o que está errado. A vida continua. Na mesma. Só que já não é a mesma. Esta vida é outra. Já não é vida.
A chaleira apita.
Lá fora começou a chover. Uma pequena chuvinha molha-tolos.
Corto uns bocados de casca do limão para dentro de uma caneca. Despejo-lhe água quente. Agarro na caneca e aqueço as mãos. Parece que estou no Inverno e, no entanto, ainda é Verão e não há muitos anos estaria a mergulhar nas águas violentas de São Pedro de Moel. Agora chove, neva e faz frio.
A chuva está um bocado mais forte. Deixei de ver as montanhas.
Batem à porta.
Quem será?
Não estou à espera de ninguém.
Não quero abrir a porta. Continuam a bater.
Tenho medo.
Batem com mais força.
Estou com frio.
É melhor acabar de beber o chá de limão.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/29]

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