Tenho o Corpo a Apodrecer

Ela adorava plantar-se nas minhas costas à procura de pontos negros. Eu quase não tinha, mas isso não lhe diminuía o desejo de os procurar. Deitava-se sobre mim, andava com as mãos sobre as costas, os dedos paravam, aguçava o olhar e começava a espremer.
Às vezes eu dizia Ai! E ela retorquia Fica quieto! Está quase a sair!
Às vezes não era nenhum ponto negro. Era um sinal. Uma borbulha. Uma sarda.
Às vezes espremia a pele só para satisfazer o seu desejo.
Às vezes… Às vezes nada e ficava chateada como se o facto de eu não ter pontos negros nas costas fosse um problema e culpa minha.
Outras vezes ficava só a passar a mão suavemente pelas minhas costas, e eu gostava, mas sabia que ela estava era a mirar o quisto sebáceo de dimensões gigantescas que estava nas minhas costas e que parecia um mamilo.
Ela sabia, no entanto, que não podia mexer naquele quisto, a aguardar oportunidade para ir à faca, um dia destes. Mas gostava de lhe tocar, de senti-lo abanar como se fosse gelatina. E tanto o namorou, tanto insistiu, tanto puxou as peles em volta que, um dia, abriu um buraco e começou a sair sebo lá de dentro.
Ficou radiante. Disse O melhor é espremer tudo e depois desinfectar! E eu, que remédio, lá deixei que assim fosse. Debruçou-se sobre mim, sobre as minhas costas, e foi enchendo pedaços de gaze com o sebo que ia saindo em golfadas lá de dentro. Bastava calcar o dedo à volta da zona para sair uma pasta nojenta, de cheiro nauseabundo, que parecia brotar de um buraco sem fim.
Esteve naquilo uma meia-hora. Colocava o dedo e punha a gaze a amparar o sebo.
No final começou a sair um líquido que, aos poucos começou a ser vermelho e percebeu, finalmente, que já tinha tirado tudo. E disse Vou só espremer uma última vez para limpar tudo mesmo e depois desinfectamos. Eu continuei calado com o entendimento que o meu voto não contava para nada ali, naquela questão.
E então, ela espremeu uma última vez, e espremeu, e a pele rasgou, e rasgou carne, e fez um golpe que me cruzou as costas de cima a baixo e começou a sair sangue que vinha do buraco onde tinha estado o sebo, um buraco grande, grande e fundo, e era por lá que o sangue saía e se espalhava pelas minhas costas abaixo.
Ela assustou-se.
Eu, como não conseguia ver muito bem, não me assustei muito.
Disse-lhe Coloca um penso e vamos ao hospital. E ela assim fez. Mas nunca mais sorriu de prazer como até ali. Agora estava com ar preocupado. Agora estava com medo. Agora estava arrependida de ter insistido. Agora sentia-se responsável pelo meu estado.
Fomos ao hospital. Entrámos nas urgências. Deram-me a pulseira vermelha. Fui logo atendido. Fui visto. Fui analisado. Mandaram-me fazer uma série de testes e exames. E disseram-me Vai cá ficar internado.
Ela começou a chorar. E foi para casa buscar coisas que eu precisava.
E eu fui internado.
Estou há cinco dias no hospital. Estou isolado. Sozinho num quarto. Não deixam ninguém ver-me. Os médicos e as enfermeiras vêm sempre protegidos. Não sabem o que tenho.
O buraco continua a produzir sebo. Quando tiram o sebo começa a sair sangue que não conseguem fazer parar. Só pára quando começa a produzir mais sebo. O rasgão nas costas está a alastrar. De lá de dentro vem um cheiro fétido. Um cheiro a morte. Penso que tenho o corpo a apodrecer. Mas os médicos não me dizem nada.
Eles não sabem.
Os médicos não sabem o que tenho.
Os enfermeiros começaram a recusar fazer-me curativos. Têm muita dificuldade em olhar para a chaga em que se tornou as minhas costas.
A ela, nunca mais a vi.
Não sei o que vai ser de mim.
Escrevi estas linhas para que saibam o que se passou.
Ela não teve culpa nenhuma.
O sebo era meu. O quisto estava nas minhas costas.
Estranhamente, nada disto me dói.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/27]

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