Qual a Velocidade do Meu Corpo em Queda?

A mesa era grande. Grande e comprida. Tão comprida que eu estava numa ponta e não conseguia ver quem estava na outra.
Era um daqueles jantares de época. Com todos os amigos em volta da mesa. A comer. A beber. A conversar. A lembrar o passado. A discutir o presente, o passado próximo, o futuro até ao fim-de-semana seguinte.
Eu devia ser um amigo. Estava lá. Ali. No jantar. Mas não conhecia ninguém dos que estavam ao pé de mim. E também não sou de sair por ali fora, ver os outros comensais e encetar dois dedos de conversa. Gosto de estar quieto no meu canto.
O jantar era no restaurante no último piso do Hotel Eurosol. Se fosse em Lisboa, era no rooftop. Mas como é em Leiria, é no último andar.
Do meu lugar conseguia ver a Avenida Marquês de Pombal descer até ao fundo, até à Tasca da Ti Gracinda. E foi essa a minha companhia enquanto enfardava umas fatias de carne assada com puré de batata e uns brócolos. Despejei uns copos de vinho tinto. Ouvi algumas palavras de circunstância debitadas por alguém que se levantava e falava para o grupo. Vários alguém.. Acho que me lembrava de um ou outro. Mas não muito. Nem muito bem.
Não sabia o que estava ali a fazer.
Ia comendo. E bebendo. E olhando a avenida a descer. Devia ter ido à Ti Gracinda.
De sobremesa havia sericaia. Mamei duas tigelas. Com ameixa.
Depois distribuíram uns copos de whiskey.
Precisava de um cigarro.
Levantei-me e fui até ao telhado que ficava por cima do restaurante.
Dali via a cidade toda. Uma cidade cheia de luzinhas. Algumas luzinhas mexiam-se. A cidade não era grande, mas parecia. E era bonita. Sim, a cidade era bonita. E ali de cima muito mais, ainda.
Estava lá alguém a fumar. Acendi o meu cigarro e aproximei-me dele. Reconheci-o. Era um amigo. Um amigo daqueles desde sempre. Não o vi na mesa, ao jantar. Mas estava ali, agora, a fumar um cigarro.
Sorriu ao ver-me e perguntou Qual a velocidade de um corpo ao cair aqui de cima? Eu disse Não sei, mas terá a ver com a massa do corpo, presumo. Mas a mecânica não é o meu forte.
Ele sorriu-me de novo. Mandou fora o cigarro. Deu-me uma palmadinha no ombro enquanto se ia embora, em jeito de despedida.
Eu fiquei ali a fumar o cigarro e a olhar a estrada, lá no fundo do hotel.
Ainda cá estou. Já vou no terceiro cigarro. E não consigo deixar de pensar na pergunta dele. Qual a velocidade de um corpo a cair aqui de cima?
Qual será, afinal, a velocidade de um corpo como o meu?
Não consigo sair daqui. Não consigo sair daqui sem saber a resposta. É daquelas coisas que moem. Está a incomodar-me não saber a resposta.
Vejo a Avenida Marquês de Pombal toda iluminada. Cheia de luzinhas amarelas.
Qual será a velocidade do meu corpo em queda daqui de cima?
Será mais rápida que este cigarro? Mando o cigarro e vejo-o cair lentamente, como se estivesse em câmara-lenta. Vejo as voltas que dá no ar, o desvio que uma aragem quente lhe provoca na queda.
O castelo iluminado. O castelo de Leiria é bonito. Aldrabado, mas bonito. Todo iluminado.
Qual será a velocidade do meu corpo?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/26]

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