Sozinho a Subir o Alentejo

Estou parado à beira da estrada. Estou dentro do carro mas vou ter de sair. O calor aqui dentro é insuportável. Uma estufa.
Já olhei à volta e não vejo uma árvore, uma sombra. Estou aqui há uma hora e ainda não passou nenhum carro.
Esta paisagem é aterradora. Extraterrestre. Extraterrestre aqui, na Terra.
O horizonte morre já ali, na pequena encosta de um monte. Isto é feito de pequenos montes que se seguem uns aos outros, num sobe-e-desce que nunca mais acaba. Montes carecas. Cinzentos. Cheios de árvores mortas. Carbonizadas.
Passei pelo leito de um ribeiro, lá atrás. Seco.
Não posso ficar aqui muito mais tempo. Não passa carro nenhum e, não tarda, começa a escurecer.
Mesmo com o calor que me assola, com os pingos que escorrem pela cara abaixo, pelas costas, pelas virilhas, acendo um cigarro. Saio do carro. Olho em volta. Silêncio. Solidão. Parece que estou sozinho no mundo.
Olho de novo para trás. Nada. Olho para a frente. A estrada parece flutuar lá mais à frente, debaixo deste calor. Olho para o carro. Morto.
Não sei o que é que lhe aconteceu. Ia bem e, de repente, nesta subida, começou a sufocar, deu uns safanões, uns arrotos e parou. Não deu mais nenhum sinal. A chave da ignição não liga nada. Pode ser um problema eléctrico. Ainda tinha gasolina. Acho. Morreu, pronto.
Peguei no telemóvel, mas não há rede.
Precisava de uma boleia. De um mecânico. De um telefone. De um carro. De alguém…
Precisava de uma garrafa de água geladinha. Uma imperial. Um copo de vinho branco. Até um rosé. De um gelado. Um gelado de gelo. Daqueles de laranja. Ou limão. Ainda haverá? Aqueles da Olá.
É melhor começar a andar. Andar em frente. Hei-de ir dar a algum lado. Algum lado onde haja gelados.
O cigarro? Caiu? Deitei-o fora? Não recordo. O que é que lhe fiz? Olha, que se foda!
Tenho de ir devagar. Não sei onde estou. Se estou longe. Se tenho muito caminho para fazer a pé.
Que barulho é este?
Não… Não vejo nenhum carro. Não, não é nada.
Porra, ainda vejo o meu carro. Não andei quase nada. E já estou cansado. Cheio de sede. E continua tudo deserto. Deserto e vazio.
Vou sentar-me nesta pedra e fumar um cigarro. No final do cigarro vai aparecer um carro. E vai levar-me para Beja. E vou jantar aos Infantes. Enfrascar-me. Beber cerveja até morrer afogado.
Já está a cair a noite. Porra.
Não posso continuar por aí de noite. Às escuras. Sem saber onde estou.
Não posso ficar aqui nesta pedra.
Merda.
Vou voltar para o carro. E rezar.
Ainda o sei fazer? É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. A sério? Se não for, aprendo.
Amanhã tudo vai ser diferente. Amanhã tudo vai correr bem. Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/22]

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