Uma Onda Gigante Veio das Colunas de Hércules

Estou no colchão de ar. Vou acima e abaixo seguindo a pequena ondulação do Mediterrâneo. Estou de olhos fechados e deixo-me embriagar naquele sobe-e-desce suave.
Ouço o barulho que me cerca, ao fundo, muito longe, como se estivesse a afastar-me dos outros. É a minha sonolência. Estou a dormitar em cima do colchão. O sol bate-me em força. A ondulação adormece-me. Os barulhos circundantes afastam-me. Afastam-se.
Sinto uma gaivota a passar. As suas pás junto a mim, distante, lá muito ao fundo. Os pés a pedalar. Esforçados. Ouço a respiração acelerada dos miúdos que saltam das borrachas da gaivota para o mar. E repetem. Sobem de novo para a gaivota e mergulham. Uma e outra vez.
O colchão ondula mais quando passa alguém a nadar forte perto de mim, bate os pés com fúria e agita as águas calmas onde estou deitado, em comunhão com a natureza preguiçosa que me embala.
Abro um pouco os olhos pesados e vejo lá no alto alguém pendurado num pára-quedas, mas não vem a cair, está a voar, como se fosse o Super-Homem ou a Mulher-Maravilha. Risca o azul do céu. Uma corda prende-o a um barco que, imagino, o puxa cá de baixo, do mar.
Volto a fechar os olhos. Estão pesados. O barulho da água a bater no colchão fazem-nos pesar. Querem adormecer-me. Querem justificar-me as férias.
Alguém diz Gosto deste mar.
Alguém diz Amo-te.
Alguém diz Sabes quanto nos vai custar estas férias?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém ri.
Alguém diz Vai à merda!
Alguém chama Maria!
Alguém diz E logo à noite?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém diz Já não tenho paciência para ela.
Alguém diz Para o ano vou para outro lado.
Alguém chora.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Silêncio.
Abro os olhos.
Silêncio.
Olho o céu e já não vejo o Super-Homem.
Algo se passa.
Tento virar-me no colchão para ver o que se passa e o colchão vira-se. Sou deitado ao mar. Mergulho. Fecho os olhos. Sinto alguém a passar à minha volta enquanto estou mergulhado no mar. Sinto alguém a nadar ao pé de mim. Alguém a andar. A forçar um andar, pé-ante-pé junto a mim.
Agarro o colchão. Dou um impulso e puxo-me para cima do colchão. Abro os olhos. E ouço.
Confusão.
Gritos.
Choro.
Desespero.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Vejo gente a sair, em pânico, do mar. A correr praia fora. A esbracejar. A gritar.
Vejo o medo na cara das pessoas. Vejo o desespero.
Toda a gente foge.
E finamente vejo.
Vejo uma onda gigante vinda das Colunas de Hércules, ali, do Estreito de Gibraltar.
Vejo uma onda gigante que vem na minha direcção e que é cada vez maior.
Está cada vez mais perto.
Eu petrifico.
Não faço nada.
Continuo agarrado ao colchão enquanto vejo a onda gigante a aproximar-se de mim e toda a gente corre praia fora.
Tenho os olhos pesados. Querem fechar-se.
Estou sonolento.
A onda aproxima-se.
Ainda ouço, lá muito ao longe, no meio de toda a barulheira de gentes e natureza assustadas, perguntar E agora?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/21]

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