Há um Outro a Viver Dentro de Mim

Há outro a viver dentro de mim. Há outro que toma conta de mim e faz o que eu nunca faria.
Há um outro, louco, doido, sem limites, que me habita e toma conta de mim quando quer e lhe apetece.
A última vez aconteceu hoje. Há bocado.
Eu estava a dormir. Era ainda aquela hora mágica matinal, mas eu ainda estava a dormir. Não tinha nada para fazer e deixei-me ficar, descansadamente, a dormir.
Levantei-me. Nu. Fui à cozinha. Fiz café. Ia fazer torradas mas não tinha pão. Peguei nas chaves do carro e saí porta fora.
Eu continuava a dormir. Na cama.
Sai de casa. Entrei no carro e fui até ao InterMarché comprar pão de Rio Maior.
Ainda era cedo e o hipermercado estava fechado. Fiquei no carro, sentado, a ouvir a TSF e à espera que o InterMarché abrisse.
Quando abriu, sai do carro e entrei no hipermercado. Dirigi-me à padaria. Aproximei-me da rapariga que olhou para mim e deu um berro. Um grande berro. E saiu a correr detrás do balcão. Eu fiquei a olhar para ela a fugir. Não percebi.
Apareceu um segurança. Disse-me Não quero chatices. É melhor ires embora antes que chegue a polícia.
Mas eu quero um pão de Rio Maior, se faz favor, disse.
Ainda não veio, respondeu. Eu virei a cara para dentro do balcão e vi um monte de pães de Rio Maior dentro do depósito do pão. E disse-lhe Estão ali. E ele disse Estão vendidos. E eu respondi Não podem estar vendidos porque estão no depósito do pão. E ele respondeu Estão reservados e é melhor ires embora antes que chegue a polícia.
Eu não sabia porque raio haveria de chegar a polícia. Mas queria torradas para acompanhar com o café. Queria pão de Rio Maior. Precisava daquele pão.
Dei uma corrida. Entrei dentro do balcão. Agarrei num pão de Rio Maior. E quando ia a enfiar a mão no bolso das calças para deixar lá dinheiro pelo pão, reparei que não tinha bolso, nem calças, nem nada. Estava nu.
Estava na cama a dormir. Mas já não estava. Agora já estava ali.
O outro arranja problemas, e depois vai embora. Foge. E descubro-me no meio do InterMarché, nu e com um pão de Rio Maior na mão.
Distraí-me a pensar nas coisas que o outro eu faz e de repente senti uma pancada. E tudo ficou escuro. As vozes desligaram-se devagar e desapareceram. Eu desapareci. Não sei para onde. Não sei o que aconteceu. Desliguei.
Acordei agora, há cinco minutos, aqui. Acho que estou numa esquadra de polícia. Tenho um cobertor pelos ombros e os pulsos algemados. Não sei onde pára o pão de Rio Maior. Apetecia-me café e torradas. E um cigarro. O outro foi-se embora. E eu estou aqui. São doze e doze. Marca o relógio da parede. Já faz umas horas desde que o outro saiu de casa e me deixou a dormir. Tenho fome. E quem é este que vem aqui? O que é que ele quer?…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/15]

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