A Chuva de Perseidas

O som chega-me em stereo.
Eu espreito pela janela para tentar ver a chuva de estrelas, não o antigo programa da SIC que a Catarina Furtado apresentou, mas a de Perseidas. Engano. É dia. É tarde. O sol está brilhante, espetado lá em cima no céu, estão trinta e cinco graus, e a única coisa que está lá pendurada, a fazer companhia ao brilho do sol são as nuvens, aquelas nuvens brancas, branquinhas, redondas, feitas de espuma, as nuvens dos Simpsons, a estenderem-se horizonte fora. Não, não há chuva de estrelas. Ainda é de dia e está sol.
Mas o som chega-me em stereo.
De um lado, ela. Nem sei já o que diz. Que importa? São só palavras. Palavras sem sentido. Palavras que actuam como facas, a cortar, a cortar, a fazer sangrar. Os ouvidos. A cabeça. Do outro lado o cão. O cão, lá fora, que não pára de ladrar. Aquilo entra-me cérebro dentro e fura-o. Destrói-me os nervos. Está a deixar-me louco. Louco em stereo.
Dói-me a cabeça. Queria ver a chuva de estrelas. Mas o som em stereo, um som alto, alto e repetitivo, monocórdico, como um mantra maléfico, terrível, como setas, setas perfuradoras, aguçadas, está a dar comigo em doido.
Vou à dispensa e agarro na pressão-de-ar. Saio de casa. Ela nem se apercebe. Continua a falar. Nem se apercebe que saio. Aproximo-me da casota. O cão está preso por uma trela pequena que lhe limita o espaço de movimentação. Está a ladrar. Está em pé, preso pela trela, a ladrar. Ladra como punhais que se espetam na minha cabeça. Aponto a pressão-de-ar e disparo. Disparo uma única vez. Certeiro. O cão deixa de ladrar. Sinto alívio na cabeça. Pelo menos momentâneo. Vejo o cão deitado frente à casota. Deitado e quieto. Uma poça de sangue a formar-se à sua volta. O silêncio. O silêncio por enquanto.
Logo volta a ladainha dela.
Regresso a casa. Arrumo a pressão-de-ar na dispensa. Passo por ela que continua a refilar. Não percebo o que diz. As palavras não fazem sentido. Um de nós dois está em erro. Ou eu não percebo o que ela diz, ou ela não diz nada que seja perceptível. Mas continua, continua… Continua…
Ela olha para mim quando passo por ela. Não se apercebeu que saí de casa. Pego no jarrão que está à entrada, levanto-o acima da cabeça e lanço-o para o chão. Um estrondo transformado em mil e um pedaços de porcelana espalhados por todos os buracos da casa e, finalmente, sim, finalmente, o silêncio. O silêncio total. Penso que até as putas das cigarras se calaram.
Ela parou de falar. Ficou parada, talvez incrédula, a olhar para o jarrão, feio, horroroso, quebrado em mil e um pedaços espalhados pela casa.
Suspiro.
Suspiro de alívio.
Respiro fundo e recupero o ritmo. O meu ritmo. As batidas estão mais espaçadas. Tranquilas. Relaxo.
Olho para ela e vejo-a de boca aberta. Parada. Como uma fotografia. Still.
E digo-lhe Vou beber um café, queres vir? E ela balbucia qualquer coisa que não percebo, não oiço. Um murmúrio que nem o é, inaudível. Ela não sai do lugar. A boca mexe-se. Abre-se e fecha-se. Mas não diz nada.
Aceno a cabeça em compreensão e saio de casa sozinho.
Fecho a porta nas minhas costas. Já não a oiço refilar comigo. Cá fora, o cão deixou de ladrar. Está a começar a escurecer. Talvez ainda consiga ver a chuva de estrelas. Mas entretanto, um cigarro. Liberdade.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/13]

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