A Vila Deserta e Eu

Entro no café da vila. Está quase deserto. Há um homem pequenino encostado ao balcão. Usa umas bermudas de ganga e uns chinelos enfiados no dedo. Tem uma camisola de alças, daquelas do basquetebol, do Porto, grande, enorme. Fica-lhe abaixo do rabo. Riscas azuis.
O homem pequenino fala uma algaraviada qualquer onde mistura francês, português e outras coisas que não entendo. Fala para o homem do café mas este parece não ouvir nada.
Encosto-me ao balcão e peço uma imperial e tremoços. Não há, diz. Não há nada, percebo eu. Não há imperial que os barris vão todos para a praia. Não há tremoços à borla mas há amendoins em lata num aparelho que funciona a moedas de um euro. Está bem, uma mini, peço.
O homem pequenino bate com a mão no balcão de inox e vai-se embora. O homem do café liga o moinho do café que começa a fazer um barulho ensurdecedor. Olho para a televisão e vejo tudo a arder. Não ouço o que dizem por causa do moinho do café.
Bebo a mini de um gole, deixo uma moeda no balcão e vou-me embora.
Está calor na rua. Calor e abafado. Meto por uma rua que faz sombra e vou andando sem destino.
Volto a cruzar-me com o homem pequenino. Está no meio da rua a olhar para uma casa de azulejo. Tem ar de renovada. Casa antiga renovada. Ele olha para mim, orgulhoso e diz Ma maison. Eu aceno com a cabeça e digo É uma boa casa, sim senhor! Parabéns.
Passo pelo homem e continuo rua fora. Está calor. Não se vê ninguém na vila. Não há barulhos. Parece uma terra morta. Irreal.
A rua chega ao fim e desemboca numa praça. Está montado um palco de madeira. Uma teia com luzes coloridas desligadas. Um PA levantado nos lados do palco. Ao lado um cartaz. Zé Café & Guida.
Tenho de cá vir ver, penso. O Zé tem bigode grande. A Guida é gira. Na rua está calor. Estou com sede.
Sento-me nos degraus da igreja, à sombra, e acendo um cigarro.
Uma miúda, não mais de doze, treze anos, aparece vinda não-sei-de-onde e estende-me uma caixa de madeira. É para a festa, diz. Eu olho para ela. Puxo uma baforada de fumo e meto a mão ao bolso dos calções. Tiro uma moeda de euro e coloco-a na caixa. Obrigada!, diz enquanto se afasta a correr e desaparece numa esquina.
Acabo o cigarro. Não volta a aparecer vivalma.
Tenho de vir ver o Zé Café & Guida, digo para mim próprio. Levanto-me e meto-me noutra rua da vila. Embrenhar-me até me perder e desaparecer. Tornar-me invisível. Uma pedra da calçada. Um Dente-de-Leão. Um nada. Perdido no vento.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/11]

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