As Viagens de Carreira pelas Aldeias da Minha Terra

Entro na rodoviária e apanho uma carreira. É o que tenho feito nos últimos dias. Entro na rodoviária, vejo qual é a primeira carreira a sair para uma das aldeias à volta da cidade e lá vou eu. São as minha férias. É o meu Verão.
Houve uns dias de calor extremo em que acabei por ficar em casa, deitado no chão onde chegava o fresco, a chupar cubos de gelo e a esfregar a minha transpiração pelos tacos de madeira afagados.
Mas agora, agora ando a conhecer a minha terra.
Tenho descoberto nomes deliciosos. Alguns feios. Outros só bizarros. Janardo. Caranguejeira. Memória. Chaínça. Souto da Carpalhosa. Bajouca. Chiqueda. Pingarelhos.
Algumas terras são só uma pequena rua, deserta, outras parecem um puzzle com casas espalhadas à sorte em terrenos verdes, cheios de árvores e mato à espera de uma fagulha.
Reparo na grande quantidade de carros com matrículas estrangeiras. De França. Suíça. Alemanha. Luxemburgo. Cruzo-me nos cafés centrais, ou nos clubes da terra com gente descontraída, eles de bermudas, camisola de alças e chinelos, elas de calças de ganga riscada e manchas muito brancas e camisas estranhas com mangas grandes e em forma de balão. Eles carecas ou pouco cabelo, elas com os cabelos coloridos.
Bebem muito, falam alto e em estrangeiro.
Vejo casas a arejar. Casas que estão fechadas o ano inteiro, casas que esperam esta altura para abraçarem a vida e garantirem o regresso mais tarde e que abrem as portas e janelas para a aldeia e família.
Pelos cartazes que tenho apanhado nos postes de electricidade e nos muros das fábricas abandonadas, há festas em todas as localidades. Há festas todos os dias. Desde meados de Julho e até ao fim de Agosto, há festas todos os dias, com terras a sobreporem-se umas às outras com festas em simultâneo.
No início ainda havia uns morteiros e foguetes a avisar da festa. Agora, com medo dos incêndios, o fogo de artifício parou.
Há um nome que trago gravado na memória que se repete de terra para terra, de festa para festa, de cartaz para cartaz: Zé Café & Guida. Ainda não ouvi mas, um dia destes vou ouvir.
Depois das minhas voltas, o regresso. Volto ao ponto de partida. Chego à rodoviária de onde parti e sinto uma certa tristeza. As aldeias da minha terra são bem mais interessantes que a minha cidade.
Mas amanhã volto a partir. Deixar-me embrenhar em terras de nomes estranhos e gente esquisita e tão fascinante.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/10]

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