Espero Sobreviver

Estou deitado sobre os lençóis da cama. Os lençóis estão molhados. Eu estou transpirado. Estou a desfazer-me. Sou líquido e escorro por mim abaixo.
Não me consigo mexer.
Tenho sono. Não dormi nada esta noite por causa do calor. As janelas todas abertas mas não chegava nenhuma aragem que me refrescasse.
Levantei-me às sete da manhã para beber água fresca, urinar e regressei à cama.
São duas da tarde e ainda aqui estou. Nem consegui levantar-me para ir comer. Não consigo comer. Não consigo fumar. Só tenho sede, mas não consigo levantar-me para ir beber água.
Espero sobreviver.
Lá de fora o silêncio possível do calor. A cantoria das cigarras. Uma ou outra motorizada. Um ou outro carro. E é tudo. Por vezes parece que ouço o sino da igreja, mas acho que nessa altura estou a dormir acordado. Não há nenhuma igreja nas redondezas.
Estar assim deitado sobre a cama a estas horas, com esta luz que entra pelo resto das persianas que deixo abertas para não me sentir tão isolado, sinto-me transportado para as minhas férias de infância na Nazaré.
Os meus pais alugavam uma casa no meio da vila durante o mês de Agosto. O calor era assim como este. Ou parecido. Íamos de manhã para a praia, regressávamos para almoçar, a minha mãe fazia o almoço, dormíamos a sesta e voltávamos à praia ao fim da tarde. Normalmente ficávamos na praia até o sol tombar atrás do horizonte.
Era precisamente as sestas, deitado sobre os lençóis da cama, com a luz do início da tarde a passar entre as frinchas das persianas, sem camisola, de calções, a transpirar, a absorver o silêncio que a Nazaré era na altura, entrecortado pelo barulho isolado de uma ou outra motorizada, ou das poucas pessoas que se atreviam a sair à rua àquelas horas e passavam a conversar ali, debaixo da minha janela, e eu ouvia-as lá muito ao fundo, no fundo do meu sono leve e retemperador, que lembro agora com alguma nostalgia.
Naquela altura sabia que depois da sesta, levantava-me e voltava para a praia, brincar na areia, mergulhar no mar, conhecer miúdos novos e diferentes.
Agora não sei o que me espera se sobreviver a este calor. Já não tenho onde regressar. Não quero conhecer gente. Só espero viver um dia depois do outro.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/04]

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