A Mosca Mole

Estava nu em cima da cama.
Puxei o edredão para baixo, despi-me e deitei-me em cima da cama. Estava à espera dela. Deixei a porta da rua no trinco e vim esperá-la na cama. Era uma surpresa.
Mas a porra da mosca apareceu por ali e nunca mais foi embora. Uma mosca daquelas chatas, moles, que anda ali a voar baixinho, devagarinho, que passam junto aos ouvidos e fazem iiãooo, e irritam, incomodam, dão cabo dos nervos. Pousam em todo o lado. Estão moles mas quando as tentamos apanhar, são sempre rápidas. Mas não tão rápidas que não fiquemos com a sensação que é possível apanhá-las. Mas é raro acontecer. Só com alguma sorte. Ou insistência.
Ela estava atrasada.
E a mosca não ia embora.
Estava a azucrinar-me.
Levantei-me. Agarrei na camisola que tinha largado no chão e pus-me à cata dela.
Abri os estores. As luzes do tecto. Os candeeiros das mesas-de-cabeceira. Tudo para ver melhor. Onde é que andas, minha vaca? disse alto para a mosca.
Vi-a na parede. Levei o braço atrás e mandei-lhe rápido com a camisola em chicote, mas vi-a sair. Eu vi a mosca escapar nano-segundos antes de a camisola lá chegar. Merda.
Agucei o olhar. Procurei no tecto e nas paredes brancas. Nada. Olhei para os lençóis brancos. Para a cabeceira da cama. Para uma mesa-de-cabeceira. Para a outra. Nada também. Foi embora, pensei.
Larguei a camisola no chão. Desliguei as luzes. Baixei os estores. Voltei para cima da cama. E ainda não estava deitado quando a ouvi zunir ao meu ouvido, iiãooo! Parou no meu joelho e começou a subir pela perna acima. Mandei-lhe com a mão aberta. Nada. Foda-se, pá!
Voltei a levantar-me. Puxei de novo os estores. Acendi as luzes. Todas as luzes. Agarrei na camisola e recomecei à procura da mosca.
Olhei pormenorizadamente para cima do móvel. Dos livros em cima do móvel. Nada.
Virei-me para o armário. Vi e revi cada canto das portas do armário. Nada.
E então, vi o ponto negro, solitário, parado na parede branca por cima da cabeceira da cama. E comecei a aproximar-me dela. Devagar. Devagarinho. Com o braço puxado atrás. E a camisola tombada, agarrada pela mão.
Olá! Cheguei!… ouço dizer atrás de mim. Viro-me e vejo-a à entrada do quarto. E continua O que é que estás a fazer aí todo nu?
Eu viro-lhe as costas e resmungo entre os dentes Agora não!, e reparo que a mosca já não está onde estava. Foda-se! Sai daqui que tenho uma guerra para ganhar! disse-lhe, brusco. E ela saiu.
E eu fui à procura da mosca. Tinha de a encontrar.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/31]

Os Bichinhos a Passear em Cima do Açúcar

Via-os a correr de um lado para o outro. Eram uns bichinhos, pequeninos, parecidos com os piolhos, que corriam assim, rápidos e nervosos, em cima do açúcar. E via-os sem óculos.
Não tinha grande escolha. Estava com a colher da mão e olhava para eles. Enfiavam-se dentro do açúcar e, por momentos, desapareciam. Depois voltavam à tona. E desatavam a correr de um lado para o outro.
Eu ia lá com a colher, afastava um pouco do açúcar, fazia um pequeno buraquinho, tentava fugir ao bichos, mas em vão.
Suspirava. Enfiava a colher. Apanhava um pouco de açúcar e largava-o na caneca de café.
Não conseguia beber café sem açúcar. E precisava de energia. Sentia-me cansado.
Nestes últimos dias sentia-me um pouco cansado. Um pouco demais. Sentia o regresso da bronquite a acompanhar o regresso dos dias mais frios. Esta instabilidade do clima era-me terrível. Puxava-me a bronquite que trazia a dificuldade em respirar que me provocava cansaço que me deixava deprimido. Uma espiral sem fim.
Mexia a colher na caneca. E via os bichinhos a subirem à tona do café. A girarem na espiral provocada pelo mexer da colher, à volta, devagar, mas constante, sem parar, a girar, à volta, e os bichinhos a acompanharem esse circuito giratório. Alguns morriam. Se calhar afogados. Esses eu apanhava-os com a colher e largava-os no guardanapo de papel. Mas havia alguns que conseguiam sobreviver e nadavam no café. Alguns deles conseguiam mesmo chegar à parede da caneca e subiam até sair de lá para fora. Mas nessa altura eu já não queria saber, levava a caneca à boca e bebia o café, pensando que, qualquer bicho que eu pudesse ingerir era uma potencial proteína. E pronto.
Apanhava um bocado de pão duro, molhava-o no café e comia-o. Assim amolecido passava bem pela garganta inflamada e não precisava de forçar os dentes e as gengivas. Nas últimas semanas andava a deitar sangue das gengivas. Devia ter escorbuto. Não comia laranjas há tanto tempo!
Estava há seis meses à espera de uma consulta no médico de clínica geral. Estava à espera que surgisse uma vaga para mim. Mas o que é que o médico ia dizer? Que isto era falta de vitamina C? Eu sabia. Eu sabia disso. Mas, e depois?
Limpava as migalhas da toalha e juntava-as num pires e ia pôr o pires à janela. O gato ia lá comer as migalhas. Partilhávamos o pouco que tínhamos.
Finalmente tive consulta.
Depois da consulta, o médico achou que o melhor era ficar internado. Acho que descobriu qualquer coisa num pulmão. Ou nos dois, já não sei. Disse que teria de ficar uns dias para observação.
Eu sabia no que é que esse internamento ia dar. Depois de umas análises, alta para casa porque não há dinheiro para ficar internado. E com a minha idade…
Estou a aproveitar, enquanto aqui estou, para me alimentar um pouco melhor.
Descobri o açucareiro. Já encontrei os bichinhos. Andam lá de um lado para o outro. É um problema geral, parece-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/30]

A Vida Continua mas Já Não É a Mesma

Vesti um sobretudo. Está frio. O céu, cinzento. As montanhas ali à frente têm os cumes brancos. Neve. Não me lembro da última vez que lá nevou.
Estamos no Verão. Mas já nada é o que era.
Estou à janela da cozinha e sinto o chão a tremer. Ouço a marcha da milícia. Vieram da cidade e assentaram arraiais por aqui. Andam a doutrinar as pessoas. Às vezes, à força.
Ocuparam a escola primária. Fizeram lá o seu quartel. Algumas pessoas foram levadas para lá e nunca mais saíram. As aulas estão a começar. Para onde é que irão as crianças?
Vejo-os passar lá à frente, na estrada. Ao passar olham cá para cima, para eu saber que eles sabem que estou aqui. Até agora não fui um problema. Mas também não fui uma solução. Estão à espera para ver o que vou fazer. E eu não sei o que é que hei-de fazer.
Saio de casa, com frio, e vou apanhar uns limões ali ao limoeiro. Ainda estão verdes mas, se eu não os apanhar, apanham-nos eles. E não vão esperar que estejam maduros. Amarelinhos. Assim, mesmo verdes, sempre poderei beber um chá. Enquanto espero. Enquanto espero pelo que me irá acontecer. Enquanto tento pensar no que é que hei-de fazer.
Eles passam e a estrada volta ao silêncio. Toda a aldeia vive em silêncio. O barulho, quando há, é feito por eles. Eles mandam. O resto obedece.
Até o cão deixou de ladrar. Tem sempre o rabo entre as pernas. E quando quer a minha atenção, põe-se a ganir baixinho.
Apanhei três limões. Trago-os para casa. Ligo a chaleira. E espero.
Ligo a televisão. Parece que não se passa nada. Continua a feira popular. Os prémios em dinheiro. As chamadas de valor acrescentado. A indignação com os factos da vida de todos os dias, com aquilo que é normal. O mundo cor-de-rosa. As festas. Parece que nada está errado nesta terra. Parece que a vida continua como até aqui. Ninguém fala nada. Ninguém diz nada. Parece que a solução encontrada por toda a gente é ignorar o que está errado. A vida continua. Na mesma. Só que já não é a mesma. Esta vida é outra. Já não é vida.
A chaleira apita.
Lá fora começou a chover. Uma pequena chuvinha molha-tolos.
Corto uns bocados de casca do limão para dentro de uma caneca. Despejo-lhe água quente. Agarro na caneca e aqueço as mãos. Parece que estou no Inverno e, no entanto, ainda é Verão e não há muitos anos estaria a mergulhar nas águas violentas de São Pedro de Moel. Agora chove, neva e faz frio.
A chuva está um bocado mais forte. Deixei de ver as montanhas.
Batem à porta.
Quem será?
Não estou à espera de ninguém.
Não quero abrir a porta. Continuam a bater.
Tenho medo.
Batem com mais força.
Estou com frio.
É melhor acabar de beber o chá de limão.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/29]

Uma Bota Pousada na Minha Cabeça

Abri os olhos. Não conseguia mover a cabeça. Tinha uma bota pousada em cima da minha cabeça e não a conseguia mexer.
Revirei os olhos o máximo que pude para perceber o que se estava a passar. Mas não percebi grande coisa.
Ia numa carrinha de caixa aberta. Ia deitado na caixa aberta da carrinha. À minha frente, à frente dos meus olhos, um corpo. Um corpo inerte. Alguém adormecido. Alguém desmaiado. Alguém morto, talvez.
Via umas botas. Tipo militar. Só via uma. A outra estava pousada sobre a minha cabeça. Sabia-o. Sentia-o.
A carrinha percorria uma picada. Um caminho de terra batida. Ia aos saltos. Eu ia aos saltos. Íamos todos aos saltos.
Era de madrugada. Estava escuro, mas já se percebia alguma claridade. Árvores. E casas.
O barulho da carrinha não permitia perceber outros barulhos em volta.
Senti o cheiro de um cigarro. Alguém ia a fumar. Apetecia-me um cigarro. Vi fumo.
Tinha a boca seca. Sabia-me a sangue. Devia ter sangue seco na boca.
Não sei o que aconteceu. Não sei o que se passou.
Não sei sequer quem sou.
A carrinha parou.
Ouvi homens aos gritos. Pareciam ordens. Não entendi. Não percebi o que diziam.
A bota saiu de cima de mim. Alguém agarrou-me pelas mãos presas atrás das costas. Magoou-me. Senti uma dor percorrer-me a coluna. Os braços pareciam que iam ser arrancados.
O corpo que estava à minha frente foi agarrado por dois homens e tirado da carrinha como um saco de batatas. Lançado para o chão. Lançado pelo ar para o chão.
Estávamos numa ponte.
Vi agarrarem o corpo e lançarem-no da ponte abaixo.
Depois agarraram em mim e alguém disse Tens sorte. Tens as pernas livres. Se bateres os pés chegas à margem. E lançaram-me, também, da ponte abaixo.
Senti todos os centímetros de ar durante a queda.
Não vi a minha vida a passar-me à frente. Mas vi a ponte a afastar-se de mim, lentamente, e o rio a aproximar-me, devagar, mas cada vez mais próximo.
Tentei cair de pé.
O impacto foi violento. Senti uma dor lancinante quando bati na água, quando mergulhei, quando me agitei dentro de água, quando me debati e abanei os pés, com a força que já não tinha, até atingir o cimo do rio.
Ar. Ar. Ar.
Bebi golfadas de ar. Bebi golfadas de água. Aguentei-me à tona.
Vi o outro corpo inerte a passar, lá mais à frente, e ser levado pela corrente.
Eu deitei-me na água. Bati os pés. Agitei o corpo. Fui-me arrastando pelas pequenas ondas do rio. E cheguei à margem. Bati na margem. Ergui-me pela margem. Senti terra. Terreno duro. Fixo. E deixei-me ficar. Senti-me ir. E fui.
Fui não sei para onde.
Não sei quem sou.
Não sei o que me aconteceu.
Está tudo escuro.
Não sei se estou adormecido. Não sei se morri.
Estou à espera. À espera do que virá a seguir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/28]

Tenho o Corpo a Apodrecer

Ela adorava plantar-se nas minhas costas à procura de pontos negros. Eu quase não tinha, mas isso não lhe diminuía o desejo de os procurar. Deitava-se sobre mim, andava com as mãos sobre as costas, os dedos paravam, aguçava o olhar e começava a espremer.
Às vezes eu dizia Ai! E ela retorquia Fica quieto! Está quase a sair!
Às vezes não era nenhum ponto negro. Era um sinal. Uma borbulha. Uma sarda.
Às vezes espremia a pele só para satisfazer o seu desejo.
Às vezes… Às vezes nada e ficava chateada como se o facto de eu não ter pontos negros nas costas fosse um problema e culpa minha.
Outras vezes ficava só a passar a mão suavemente pelas minhas costas, e eu gostava, mas sabia que ela estava era a mirar o quisto sebáceo de dimensões gigantescas que estava nas minhas costas e que parecia um mamilo.
Ela sabia, no entanto, que não podia mexer naquele quisto, a aguardar oportunidade para ir à faca, um dia destes. Mas gostava de lhe tocar, de senti-lo abanar como se fosse gelatina. E tanto o namorou, tanto insistiu, tanto puxou as peles em volta que, um dia, abriu um buraco e começou a sair sebo lá de dentro.
Ficou radiante. Disse O melhor é espremer tudo e depois desinfectar! E eu, que remédio, lá deixei que assim fosse. Debruçou-se sobre mim, sobre as minhas costas, e foi enchendo pedaços de gaze com o sebo que ia saindo em golfadas lá de dentro. Bastava calcar o dedo à volta da zona para sair uma pasta nojenta, de cheiro nauseabundo, que parecia brotar de um buraco sem fim.
Esteve naquilo uma meia-hora. Colocava o dedo e punha a gaze a amparar o sebo.
No final começou a sair um líquido que, aos poucos começou a ser vermelho e percebeu, finalmente, que já tinha tirado tudo. E disse Vou só espremer uma última vez para limpar tudo mesmo e depois desinfectamos. Eu continuei calado com o entendimento que o meu voto não contava para nada ali, naquela questão.
E então, ela espremeu uma última vez, e espremeu, e a pele rasgou, e rasgou carne, e fez um golpe que me cruzou as costas de cima a baixo e começou a sair sangue que vinha do buraco onde tinha estado o sebo, um buraco grande, grande e fundo, e era por lá que o sangue saía e se espalhava pelas minhas costas abaixo.
Ela assustou-se.
Eu, como não conseguia ver muito bem, não me assustei muito.
Disse-lhe Coloca um penso e vamos ao hospital. E ela assim fez. Mas nunca mais sorriu de prazer como até ali. Agora estava com ar preocupado. Agora estava com medo. Agora estava arrependida de ter insistido. Agora sentia-se responsável pelo meu estado.
Fomos ao hospital. Entrámos nas urgências. Deram-me a pulseira vermelha. Fui logo atendido. Fui visto. Fui analisado. Mandaram-me fazer uma série de testes e exames. E disseram-me Vai cá ficar internado.
Ela começou a chorar. E foi para casa buscar coisas que eu precisava.
E eu fui internado.
Estou há cinco dias no hospital. Estou isolado. Sozinho num quarto. Não deixam ninguém ver-me. Os médicos e as enfermeiras vêm sempre protegidos. Não sabem o que tenho.
O buraco continua a produzir sebo. Quando tiram o sebo começa a sair sangue que não conseguem fazer parar. Só pára quando começa a produzir mais sebo. O rasgão nas costas está a alastrar. De lá de dentro vem um cheiro fétido. Um cheiro a morte. Penso que tenho o corpo a apodrecer. Mas os médicos não me dizem nada.
Eles não sabem.
Os médicos não sabem o que tenho.
Os enfermeiros começaram a recusar fazer-me curativos. Têm muita dificuldade em olhar para a chaga em que se tornou as minhas costas.
A ela, nunca mais a vi.
Não sei o que vai ser de mim.
Escrevi estas linhas para que saibam o que se passou.
Ela não teve culpa nenhuma.
O sebo era meu. O quisto estava nas minhas costas.
Estranhamente, nada disto me dói.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/27]

Qual a Velocidade do Meu Corpo em Queda?

A mesa era grande. Grande e comprida. Tão comprida que eu estava numa ponta e não conseguia ver quem estava na outra.
Era um daqueles jantares de época. Com todos os amigos em volta da mesa. A comer. A beber. A conversar. A lembrar o passado. A discutir o presente, o passado próximo, o futuro até ao fim-de-semana seguinte.
Eu devia ser um amigo. Estava lá. Ali. No jantar. Mas não conhecia ninguém dos que estavam ao pé de mim. E também não sou de sair por ali fora, ver os outros comensais e encetar dois dedos de conversa. Gosto de estar quieto no meu canto.
O jantar era no restaurante no último piso do Hotel Eurosol. Se fosse em Lisboa, era no rooftop. Mas como é em Leiria, é no último andar.
Do meu lugar conseguia ver a Avenida Marquês de Pombal descer até ao fundo, até à Tasca da Ti Gracinda. E foi essa a minha companhia enquanto enfardava umas fatias de carne assada com puré de batata e uns brócolos. Despejei uns copos de vinho tinto. Ouvi algumas palavras de circunstância debitadas por alguém que se levantava e falava para o grupo. Vários alguém.. Acho que me lembrava de um ou outro. Mas não muito. Nem muito bem.
Não sabia o que estava ali a fazer.
Ia comendo. E bebendo. E olhando a avenida a descer. Devia ter ido à Ti Gracinda.
De sobremesa havia sericaia. Mamei duas tigelas. Com ameixa.
Depois distribuíram uns copos de whiskey.
Precisava de um cigarro.
Levantei-me e fui até ao telhado que ficava por cima do restaurante.
Dali via a cidade toda. Uma cidade cheia de luzinhas. Algumas luzinhas mexiam-se. A cidade não era grande, mas parecia. E era bonita. Sim, a cidade era bonita. E ali de cima muito mais, ainda.
Estava lá alguém a fumar. Acendi o meu cigarro e aproximei-me dele. Reconheci-o. Era um amigo. Um amigo daqueles desde sempre. Não o vi na mesa, ao jantar. Mas estava ali, agora, a fumar um cigarro.
Sorriu ao ver-me e perguntou Qual a velocidade de um corpo ao cair aqui de cima? Eu disse Não sei, mas terá a ver com a massa do corpo, presumo. Mas a mecânica não é o meu forte.
Ele sorriu-me de novo. Mandou fora o cigarro. Deu-me uma palmadinha no ombro enquanto se ia embora, em jeito de despedida.
Eu fiquei ali a fumar o cigarro e a olhar a estrada, lá no fundo do hotel.
Ainda cá estou. Já vou no terceiro cigarro. E não consigo deixar de pensar na pergunta dele. Qual a velocidade de um corpo a cair aqui de cima?
Qual será, afinal, a velocidade de um corpo como o meu?
Não consigo sair daqui. Não consigo sair daqui sem saber a resposta. É daquelas coisas que moem. Está a incomodar-me não saber a resposta.
Vejo a Avenida Marquês de Pombal toda iluminada. Cheia de luzinhas amarelas.
Qual será a velocidade do meu corpo em queda daqui de cima?
Será mais rápida que este cigarro? Mando o cigarro e vejo-o cair lentamente, como se estivesse em câmara-lenta. Vejo as voltas que dá no ar, o desvio que uma aragem quente lhe provoca na queda.
O castelo iluminado. O castelo de Leiria é bonito. Aldrabado, mas bonito. Todo iluminado.
Qual será a velocidade do meu corpo?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/26]

De Regresso a Casa

Estou de regresso a casa.
Estou de regresso às ruas da minha cidade.
Voltei ao meu passado, às minhas memórias, aos sítios que me construíram e às pessoas que me formaram.
Mas onde estão?
Saio pela cidade e já não reconheço nada.
Os sítios estão lá, onde sempre estiveram. Mas são já outros. A alma é outra. Respira-se outro ambiente. As pessoas são já outras. Não as reconheço. Reconheço os gestos, os toques, o andar, mas são outras.
Algumas pessoas são as mesmas mas também são outras. Tornaram-se outras. Casaram. Divorciaram. Tornaram-se pais. Adultos. Entretidos em negócios. Tornados empreendedores. Máquinas de fazer dinheiro. Arrumaram a música em caixotes guardados nas garagens. Deixaram de ter tempo para ler. Compram livros da Taschen que ficam bem nas mesas de apoio na sala lá de casa, têm lombadas coloridas que chamam a atenção nas estantes e não se lêem, folheiam-se.
De regresso a casa descubro-me sozinho.
Estou só.
Caminho pelas ruas que eram minhas e que já não são mais. Cruzo-me com gente e sinto-me estrangeiro na minha cidade natal. Já não entendo as palavras. As frases perderam sentido. Perco-me nas ruas. Entre gente, muita gente. Quem é esta gente?
Entro e saio. Entro e saio dos sítios.
Fumo cigarros uns atrás dos outros, a única constante na minha vida aqui, nesta cidade que já foi minha. Mas até isso… Quando acendo um cigarro olham-me de lado. Dizem Na rua. E eu vou para a rua. Prefiro a rua. Eu quero a rua.
Caminho junto ao rio. Cruzo a Praça. Percorro a avenida.
Passo por uma cara do meu passado. A língua fica presa. O corpo hirto. Não há sinais. Não há trocas. Já não há memórias. Só desejos. Desejo que tudo seja igual. Mas já não é.
Quem sou eu aqui? Que cidade é esta que me é estranha? Que presente é o meu, perdido o passado e sem futuro?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/25]

Estou em Stereo e Recordo o Chiado

Estou em stereo. À minha direita o Sol. À minha esquerda a Lua. O Sol ainda vive os últimos raios antes de morrer para além da praia, do mar, lá para os lados da América. A Lua já canta lá em cima, foco de luz num azul petróleo que pinta o céu por cima das montanhas.
Enquanto me sinto em stereo, aqui no alpendre, recordo.
Sim, recordo.
Recordo o rescaldo do grande incêndio do Chiado.
Era Agosto e eu estava de férias na província. Vivia o Meu Querido Mês de Agosto. São Pedro de Moel, Vieira, Pedrogão. Em Leiria perdia-me pelo Terreiro, nos Vicentes e na Estrebaria. Nos Filipes. No Panaceia se ainda não tinha fechado. No Amadeus se já tinha aberto. A memória aqui torna-se um pouco difusa e perde-se nos pormenores. Mas também havia o Alibi. E o strip-tease no Raínho. E a Ala dos Namorados às cinco da manhã. As sandes de panado. A sopa de feijão na companhia das putas, dos chulos e da droga.
Mas recordo aquela manhã. E a tarde. E a noite. E os dias que se seguiram. E todas as imagens do Inferno. E todas as reportagens angustiantes e angustiadas de quem via uma parte importante do seu mundo desabar. Quem perdeu tudo. Quem viu perder tudo. Quem viu o diabo subir à Terra.
O Chiado como o conhecia, acabara. Acabara ali em poucas horas. Consumido pelas chamas.
Regressei a Lisboa em Setembro. Já bem no fim de Setembro. Mas ainda havia Inferno.
E recordo. Recordo de me aproximar mas não conseguir lá ir. Recordo que era assustador. Recordo que não queria ver. E vi à distância. À distância de segurança.
Para ir para o Bairro Alto subia pelo Elevador da Glória. Não precisava de subir o Chiado. Não queria subir pelo Chiado.
Recordo mais tarde. Recordo a reconstrução. Recordo os estaleiros. Recordo os fins-de-tarde de final de aulas, a descer o Chiado e passar pelas pontes, pelos passadiços, no meio dos estaleiros da reconstrução, e dos mirones que faziam fila para observarem os trabalhos de quem lá estava a trabalhar. Os trabalhadores. Os processos de reconstrução. De inovação. De recriação de uma zona que deixou de ser uma coisa para se tornar outra.
Mais tarde revi-a num filme de João César Monteiro. Não me recordo qual, mas ele era um militar que observava, do alto da sua arrogância de conhecedor, como todos os mirones, os trabalhos de recuperação do coração da cidade.
Em stereo recordo o Chiado. Recordo um tempo que não mais regressa. E mesmo tendo sido terrível, deixa-me um amargo pelo impossibilidade de regressar a um tempo em que tudo ainda era possível. Um tempo em que eu ainda era capaz. Uma época em que eu ainda acreditava. Em que julgava que tudo estava à mão-de-semear e que era só preciso estender a mão e agarrar. E em que estava tão enganado.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/24]

Estarei num Sonho?

Maldoror is dead / Little brick / Buried in the earth / Maldoror is gone / Was I a man? / Was I a stone? …”

Descubro-me a cruzar o pequeno jardim Camões no centro histórico de Leiria. Estarei num sonho?
A cidade está a preto e branco. As árvores são em cinquenta tons de cinza. O céu está num branco sujo. Estarei a sonhar?
Ouvi dizer que os sonhos são a preto e branco. Estarei a sonhar?
Sento-me num banco do jardim. Num banco de ripas de madeira a meio do pequeno jardim do centro histórico. Acendo um cigarro. Olho o castelo à minha frente, lá no alto do monte. À direita do castelo, na torre altaneira, as Cibeles, mais para baixo, a Torre Eiffel, logo a seguir o menino a mijar e umas putas de mamas expostas a espreitarem atrás de umas montras na avenida mais concorrida de Leiria.
Fumo o cigarro. Pergunto-me se terão droga. Estarei a sonhar?
Aproxima-se de mim uma bela fräulein que me estende uma bratwurst bem cheirosa. Estendo as mãos para a agarrar – estou com fome! –, mas o que agarro são uns fish’n’ships que uma miss sorridente, a quem falta um dente da frente, acaba por me oferecer.
Enquanto mastigo umas chips, vejo ao fundo, no fim da alameda do jardim, o Coliseu, onde uma turba de gente eufórica festeja um golo de CR7.
Foda-se! Onde é que estou? Estarei a sonhar?
Ao lado vejo a Julie Andrews a dançar no meio das vacas e o Capitão Von Trapp a entoar “Raindrops on roses and whiskers on kittens / Bright copper kettles and warm woolen mittens / Brown paper packages tied up with strings / These are a few of my favorite things”.
Uma das vacas é roxa e vem trazer-me uma tablete Milka. Mas o sonho não era a preto e branco? Era! É! Mas a vaca tem manchas roxas!
Atrás da vaca vejo passar o Eça de Queiroz na conversa com o Afonso Lopes Vieira, o Miguel Torga e o Rodrigues Lobo. Mais ao lado, afastado deles, segue o António Campos. Sozinho. Acho que vão à Praça beber umas imperiais e comer uns hambúrgueres. Ouvi dizer que eram bons. Tento levantar-me e ir ter com eles, mas acabo por ficar sentado. Alguém me traz um copo de vinho das Cortes. Um néctar de Deuses. O que os sonhos nos fazem!, penso. E sorrio. Estou mesmo a sonhar.
Acabo o cigarro ao mesmo tempo que termino com o fish quando volto a olhar para o castelo e vejo lá alguém debruçado sobre as ameias. Parece o David Tibet, mas devo estar a sonhar, mesmo. Que raio é que ele estaria aqui a fazer? Neste pequena, pobre e triste cidadezinha de província? Sem nada de interessante para ninguém? A não ser a morte?

“… / The black angel weeps / The waters part / Maldoror / Maldoror / Maldoror / All fall down / Dead.”

Espero acordar na minha cama. Espero acordar sozinho. E que ainda tenha cigarros. E vinho tinto. Umas azeitonas também não era mau. E um bocado de pão do Soutocico. Sim, não era mau. E tenho de ir cortar o cabelo. Sim, tenho de ir cortar o cabelo.
Acorda. Acorda, pá. Acorda, vá lá. E vê a vida a cores.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/23]

Sozinho a Subir o Alentejo

Estou parado à beira da estrada. Estou dentro do carro mas vou ter de sair. O calor aqui dentro é insuportável. Uma estufa.
Já olhei à volta e não vejo uma árvore, uma sombra. Estou aqui há uma hora e ainda não passou nenhum carro.
Esta paisagem é aterradora. Extraterrestre. Extraterrestre aqui, na Terra.
O horizonte morre já ali, na pequena encosta de um monte. Isto é feito de pequenos montes que se seguem uns aos outros, num sobe-e-desce que nunca mais acaba. Montes carecas. Cinzentos. Cheios de árvores mortas. Carbonizadas.
Passei pelo leito de um ribeiro, lá atrás. Seco.
Não posso ficar aqui muito mais tempo. Não passa carro nenhum e, não tarda, começa a escurecer.
Mesmo com o calor que me assola, com os pingos que escorrem pela cara abaixo, pelas costas, pelas virilhas, acendo um cigarro. Saio do carro. Olho em volta. Silêncio. Solidão. Parece que estou sozinho no mundo.
Olho de novo para trás. Nada. Olho para a frente. A estrada parece flutuar lá mais à frente, debaixo deste calor. Olho para o carro. Morto.
Não sei o que é que lhe aconteceu. Ia bem e, de repente, nesta subida, começou a sufocar, deu uns safanões, uns arrotos e parou. Não deu mais nenhum sinal. A chave da ignição não liga nada. Pode ser um problema eléctrico. Ainda tinha gasolina. Acho. Morreu, pronto.
Peguei no telemóvel, mas não há rede.
Precisava de uma boleia. De um mecânico. De um telefone. De um carro. De alguém…
Precisava de uma garrafa de água geladinha. Uma imperial. Um copo de vinho branco. Até um rosé. De um gelado. Um gelado de gelo. Daqueles de laranja. Ou limão. Ainda haverá? Aqueles da Olá.
É melhor começar a andar. Andar em frente. Hei-de ir dar a algum lado. Algum lado onde haja gelados.
O cigarro? Caiu? Deitei-o fora? Não recordo. O que é que lhe fiz? Olha, que se foda!
Tenho de ir devagar. Não sei onde estou. Se estou longe. Se tenho muito caminho para fazer a pé.
Que barulho é este?
Não… Não vejo nenhum carro. Não, não é nada.
Porra, ainda vejo o meu carro. Não andei quase nada. E já estou cansado. Cheio de sede. E continua tudo deserto. Deserto e vazio.
Vou sentar-me nesta pedra e fumar um cigarro. No final do cigarro vai aparecer um carro. E vai levar-me para Beja. E vou jantar aos Infantes. Enfrascar-me. Beber cerveja até morrer afogado.
Já está a cair a noite. Porra.
Não posso continuar por aí de noite. Às escuras. Sem saber onde estou.
Não posso ficar aqui nesta pedra.
Merda.
Vou voltar para o carro. E rezar.
Ainda o sei fazer? É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. A sério? Se não for, aprendo.
Amanhã tudo vai ser diferente. Amanhã tudo vai correr bem. Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/22]