Umas Nuvens Escuras Sobre a Montanha

Parei ali defronte da casa. Atrás de mim o caminho de terra batida. A leve aragem de Julho fazia levantar uma pequena poeira que mal se via, mas sentia-se nos pulmões quando inspirávamos. À frente, lá no cimo, a casa.
Abri o portão e comecei a subir a ladeira até casa. Dos lados, à laia de boas-vindas, a plantação de milho. Não muito. O suficiente para consumo próprio e algum excedente para ser vendido na feira de Domingo onde os vizinhos vendiam ou trocavam o que tinham a mais. Também havia umas batatas. Tomates. Algum feijão verde. Duas ginjeiras. Sem ginjas, claro, que os pássaros comiam-nas todas. Todos os anos era a mesma coisa. Era.
No fim desse campo cultivado que recebia quem chegava, a enorme nespereira onde eu costumava subir e olhar ao fundo a montanha.
Parei a olhar para ela. Já não me parecia tão grande.
Do outro lado, a um canto, a casota e o Piruças. Estava estático a olhar para mim. As quatro patas bem fixas no chão. Parecia de porcelana. Não ladrou. Deve ter-me reconhecido. Ficou quieto.
Continuei para casa.
A relva frente ao alpendre. Uma bicicleta encostada ao muro. Uma pá tombada. Um bola de futebol, vazia, perdida por ali.
Subi as escadas do alpendre. Vi a mesa de madeira. As cadeiras. O cinzeiro sobre a mesa. Caminhei devagar até à porta de entrada. Levei a mão à maçaneta e…
Virei-me para trás. Olhei para a montanha. Formavam-se umas nuvens escuras sobre a montanha. Vinha lá chuva, pensava eu.
Larguei a mochila no chão. Sentei-me numa das cadeiras. Puxei de um cigarro e acendi-o.
No caminho em frente, lá em baixo, passou uma carrinha. Levantou uma poeira seca. Ao fundo, mais perto da vila, o motor de uma motorizada. Uma Zundapp, com certeza.
Olhei a maçaneta da porta.
Acabei de fumar o cigarro e apaguei a beata no cinzeiro.
Recostei-me na cadeira. Mais ao longe, ainda, um cão a ladrar. Aqui mais perto, o Piruças respondeu. Depois, houve outros na conversa em cadeia.
Vem lá chuva, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/21]

A Mulher que Nunca Acabava uma Conversa

Ela era uma daquelas mulheres que nunca acabam um assunto, vão assim despejando coisas ao longo dos tempos como se a conversa ainda lá estivesse, em banho-maria. E ia despejando as ideias como se fossem arrotos. Iam saindo. Aos solavancos.
Às vezes não percebia muito bem para onde é que caminhava a conversa. Quando julgava que já estava terminada, lá vinha um Portanto, um Assim, um Contudo ou ainda um Ou se quiseres, como se eu quisesse alguma coisa. Não, não queria!
Chegava a acontecer a conversa prolongar-se por vários sítios, entrando na conversa com várias pessoas diferentes, prolongando-se no tempo e no espaço, sem nunca perder o fio-à-meada.
Também no Facebook era assim. Talvez pior. Escrevia um post. Depois editava-o. Duas vezes. Três vezes. Havia posts que já não tinham nada a ver com os posts originais, tal a quantidade de edições. Chegava, inclusivamente, a responder a si própria para continuar uma estória sem fim.
Era cansativo. Ela era uma mulher cansativa.
Mas era interessante. Culta. Inteligente. Elegante. Lia. Gostava de pintura. Conhecia vinhos. Gastronomia. Acompanhava todos os programas de comida que passavam pela televisão. Claro que, na vida real, não comia glúten, nem lactose, nem gorduras, nem fritos, nem açucares. Procurava sempre as coisas light, qualquer coisa free, magro, com omega 3, cálcio. Uma lista interminável de coisas. E depois passava a vida na casa-de-banho. Nunca percebi se era causa ou consequência.
E então, uma vez virou-se para mim, ia eu a conduzir o carro, ela ia ao lado, no banco do pendura, e disse Isto não vai a lado nenhum. Eu já estava um pouco farto e aproveitei a deixa para sair. Encostei o carro à berma, abri a porta, saí e fui, a pé, em frente. Ela ainda me chamou algumas vezes. Ouvi-a gritar pelo meu nome. Mas não me quis virar. Alguém tinha de pôr um ponto final numa conversa que nunca mais terminava.
Ainda não tinham passado vinte minutos quando cheguei ao fim da estrada. Era uma estrada sem saída. E aí percebi a conversa dela Isto não vai a lado nenhum, pois não. Mas não podia dizer que estava a falar da estrada? Que porra!
Peguei no telemóvel. Sem rede. Voltei para trás a pé. Cheguei ao ponto de onde tinha partido mas o carro já não estava lá. E ela também não.
Entretanto passaram-se dois dias. Tenho a cara a arder por causa dos pêlos da barba. Há dois dias que não faço a barba e não estou habituado a ter pêlos na cara. Estou com fome. Só comi umas amoras selvagens que encontrei ali, numas silvas. Bebi água do pequeno ribeiro que cruzei ontem. Fiquei com diarreia. Não tenho papel. Não tenho lenços de papel. Já me perdi. Acho que ando aqui às voltas e não encontro a estrada de regresso. Ainda não vi nenhum carro. Continuo sem rede no telemóvel. Não tenho cigarros. Para quê, cigarros? Não fumo. Está bem, mas podia começar. Talvez me aliviassem os nervos. Está a ficar escuro. Acho que vai chover. Não tenho onde me abrigar. Não sei para onde ir. Tenho saudades dela. Gostava das conversas que tinha com ela. Gostava de a ouvir falar. Quando é que é o Festival da Canção?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/20]

Ela Foi Embora e Levou (Quase) Tudo

Cheguei a casa. Estava vazia e em silêncio.
Vazia mesmo. Vazia de quase tudo. Ela foi embora e levou tudo. A cama. A mesa da sala e as cadeiras. A mesa da cozinha e as cadeiras. Os quadros. Os quadros que os meus amigos pintores me tinham oferecido. As fotografias. Mesmo as fotografias que eu tinha tirado, desapareceram das paredes. Volatilizaram-se. Até as prateleiras onde estavam os livros. Foram embora. Mas os livros, os livros ficaram. Até me ri. Levou tudo menos a merda dos livros. Não sabia o que lhes fazer. Agarrei no primeiro que me apareceu. Mulheres de Eduardo Galeano. Levei-o comigo.
Dei uma volta pela casa. A olhar o vazio. Sentir a dor do vazio.
A sala. O quarto. A casa-de-banho sem papel higiénico. A dispensa vazia. A cozinha. Na cozinha tinham ficado a torradeira e a chaleira. Até uma cafeteira antiga, estava em cima do fogão. Mas não havia café. Nem manteiga. Nada. Nada para comer. Levou tudo.
Pousei o livro na bancada.
Abri o frigorífico. Quase vazio. Uma garrafa de vinho branco alentejano. Vidigueira. Mas já encetado. Foi por isso que ficou. Aberto não tinha valor.
Agarrei na garrafa. Abri a porta do móvel mas não havia nenhum copo. Tirei a rolha com os dentes, cuspi-a para o chão e bebi um gole pelo gargalo. Estava bom.
Pensei em ir para a sala. Mas lembrei-me que não havia sofá. Nem televisão. Tinha o computador porque o tinha levado comigo. Mas não me apetecia ligá-lo.
Fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro. Bebi mais um gole de vinho branco da Vidigueira.
Peguei no livro de Eduardo Galeano e li:
“Sukaina casou-se cinco vezes, e nos cinco contratos de matrimónio negou-se a aceitar a obediência do marido.”
Fechei o livro e desatei a rir. A rir feito tonto. Um riso que não conseguia parar. Um riso que me vez chorar, chorar de tanto rir, e foi então que disse, alto, a reverberar na casa quase vazia, repleta de livros, Estamos bem fodidos!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/19]

Mas Qual País?

Vinha no carro. A TSF na rádio. Era um Bloco Central especial com os dois Pedros do costume e o super-Paulo da Caixa, que já o fora dos impostos e da saúde. Na conversa fiquei-me por um aforismo de Luís Montenegro repetido por um dos Pedros: O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Pois não. A vida das pessoas não estava melhor. Mas o país estava? Qual país? Este dos dois milhões de pobres? Dos salários mínimos de quinhentos e oitenta euros? Das pensões de sobrevivência que não chegam a duzentos euros? Dos velhos com terrenos sem futuro perdidos num interior que ninguém quer e que tem de os limpar em tempo recorde? Das pessoas expulsas dos centros das cidades pela ganância? Da pequena e grande corrupção? Dos processos que prescrevem ou desaparecem?
Senti-me deprimido.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Cheguei a casa. Acendi um cigarro e sentei-me no sofá, liguei a televisão e recostei-me. Estava cansado.
CMTV.
Manuel Pinho a lidar os deputados. Os Hells Angels. Os hooligans da Juve Leo e o assalto à Academia de Alcochete. A prescrição dos processos sobre as contas dos partidos da democracia. O desaparecimento de uma parte do processo contra Ricardo Salgado.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Levantei-me do sofá. O cigarro esquecido na mão.
Um jovem esfaqueado e morto à entrada de casa. Bruno de Carvalho a queixar-se à polícia por bullying do Sporting e a pedir audiência à Procuradoria-Geral da República. O botox da Ana Malhoa. Escolas com salários em atraso e falta de alimentos nas cantinas. Agentes da GNR castigados por passarem poucas multas. Os Maias. CR7. Jesus. O Benfica. Ufa!
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O cigarro consumido caiu ao chão.
Fui ao quarto. Agarrei no revólver. Saí à rua.
Estava no lusco-fusco. Fim-de-dia. Muita gente na rua. A passear. A caminho de casa.
Comecei a disparar. Comecei a disparar a torto e a direito. Acertei. Acertei. Errei. Acertei.Errei.Errei.AcerteiAcerteiAcerteiErreiAcertei…
Os corpos iam tombando à minha passagem.
Eu estava a ajudar o país.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Matei os velhos para poupar nas pensões. Matei as crianças para poupar os serviços de urgência das Maternidades. Matei as outras pessoas todas para poupar o Serviço Nacional de Saúde. Matei brancos e pretos e mulatos e alguns chineses, e homens e mulheres, e alguns gays e trans e travestis para não me acusarem de racista ou sexista.
Matei polícias e médicos para poupar o Orçamento de Estado. Matei professores para evitar mais greves.
Ia limpando tudo à minha passagem.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Até que fui barrado.
A minha mãe viu-me a passar e a disparar e, quando passei ao pé dela, e eu não a vi, levantou a bengala e deu-me com ela na cabeça. Com força. Com fúria. Com muitas lágrimas nos olhos. Com muitos gritos de dor.
Eu cai no chão. E disse Obrigado, mãe!
E tudo ficou negro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/18]

A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]

No Buraco

Está a chover torrencialmente.
Já é Verão. Está calor. Mas está também a chover torrencialmente.
E logo hoje que me deu para começar a fazer a piscina. Para usufruir quando? No Inverno?
Já tinha feito um buraco considerável quando começou a chover. E a chuva não chegou, caiu. Quando dei por ela e quis sair do buraco, já não consegui. A lama escorregava debaixo das minhas mãos desesperadas a tentar escavar uma saída do buraco.
Agora continuo aqui no buraco que quase parece uma piscina. Quer dizer, mais parece um poço. Um poço onde não tarda vou ficar sem pé. Não, não vou ficar sem pé porque, primeiro, vou ficar soterrado.
Não há ninguém nas redondezas. Não há ninguém à minha espera. Não virá ninguém à minha procura.
Vou ficar aqui enterrado debaixo desta terra enlameada que já me começou a prender os pés e, não tarda nada, me irá cobrir por completo.
Devia estar com medo. Devia estar a gritar, a chorar, desesperado com o meu destino. Mas estou calmo. Sereno.
Sei que vou ficar por aqui, mas também sei que já vivi o que tinha a viver.
Já não haveria nada de novo. Nada de novo para mim. Tudo seria já uma repetição das repetições. Voltar aos mesmos destinos. Cometer os mesmos erros. Ver os mesmos quadros, os mesmo filmes. Ouvir as mesmas músicas. Ler os mesmos livros. Conversar com as mesmas pessoas.
É bom terminar no fim.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/16]

O Rapaz Caleidoscópio

Tinha roubado a bicicleta na semana anterior. Tinha roubado a bicicleta já a pensar na sua utilidade. Ou na necessidade que eu tinha dela para aquele caso em particular.
Eram sete da tarde quando saímos de casa. Quando saímos da Rua. Fomos de Leiria até à Batalha pelas estradas municipais. Cruz d’Areia, Telheiro, Barreira, Andreus e Batalha. Campo da bola na Batalha.
Uma noite amena para ver, ao vivo, UHF, Iodo, Pizolizo e Órbita.
Tinha treze anos. Tínhamos todos mais ou menos essa idade. Éramos cinco. Os Cinco. Os Cinco na Batalha. Os Cinco de Bicicleta. Os Cinco no Concerto. Os Cinco em Liberdade.
A viagem custou mais que o esperado. São mais ou menos quinze quilómetro até à Batalha por aquelas estradas secundárias cheias de curvas. Sempre a subir. No final é a descer. Mas antes, na primeira metade, é sempre a subir. É preciso força nas pernas. Bufar bastante. O descanso viria depois. Na descida.
Chegámos já com os Órbita em palco. Eram uma espécie de grupo de baile, banda de covers, apanhados na espiral do Rock Português. Tudo o que mexia, servia.
Depois foram os Pizolizo, banda de Vila Franca de Xira. Bomba Nuclear, Não. Pouco mais.
Chegaram os Iodo. As Novas das Tesouras Velhas. Uma cópia de Motels, a banda de Martha Davis. Mas também a Boneca de Cera, Ceby e, o hit que invadia as casas da Malta da Rua, o Malta à Porta, Não penses em assinar documentos em papel molhado, Porque ao fim ao cabo, Sais sempre cansado… Estava ganha a noite. Mas os Iodo não tiveram grande vida. Morreram pouco depois.
Ainda estava para vir o fogo-de-artifício e os cabeça de cartaz. O fogo-de-artifício chamava os UHF de António Manuel Ribeiro ao palco. E nós, nós os cinco, ali junto ao palco, estávamos embasbacados a olhar para toda aquela feira fascinante que só conhecíamos dos discos e dos programas de rádio e do Júlio Isidro. O António Manuel Ribeiro estava à minha frente a cantar os Cavalos de Corrida. A Rua do Carmo. O Jorge Morreu. A Geraldina e, acima de tudo, O Rapaz Caleidoscópio, Dá-me, dá-me, dá-me, Dá-me um rapaz, Calidoscópio dá-me, Dá-me um rapaz…
Chegou a madrugada. Os concertos acabaram. Regresso. Era necessário subir a primeira parte da viagem. Fomos de bicicleta à mão. A falar sobre o que tínhamos visto. O meu, o nosso, primeiro concerto ao vivo. Fora de casa. Longe de casa. Sem os pais saberem. Sem os pais sonharem.
Atrás de nós, as Serras d’Aire e dos Candeeiros em chamas. Enquanto falávamos, sentíamos algum medo de sermos apanhados pelas chamas. Era época de incêndios. Chegados aos Andreus, foi sempre a descer até Leiria, e passar na bisga ali, junto ao cemitério da Barreira, não fosse alguma alma penada pedir boleia.
Chegámos a casa e entrámos em silêncio.
Aquele foi o início de uma série de viagens e de concertos e de música que invadiu a minha vida.
Mas nunca nenhum concerto repetiu aquela magia da primeira vez. Foi como uma trip de heroína. E viciou.

Eu era o rapaz caleidoscópio.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/15]

O Sardão ao Sol na Eira

Eu estava em silêncio a olhar para ele.
Era quase meio-dia. Estava sol. Estava sol e calor. E ele estava ali refastelado, a aquecer-se.
Não lhe via as orelhas e, no entanto, o tipo estava sempre atento ao menor ruído. Assim que ouvia um ramo a cair da árvore, corria a esconder-se dentro do tubo.
Nem sei para que é aquele tubo. Não sei onde vai dar. Nem para o que serve. Mas ele passa a vida lá dentro.
Eu abri a janela do quarto e vi-o, no cimento da eira, a apanhar sol. Ele virou a cabeça para mim quando ouviu a janela a abrir, mas o barulho já lhe devia ser familiar e não se mexeu. Só virou a cabeça para mim. Acendi o cigarro, devagar. E fiquei quieto e em silêncio a observá-lo.
O cabrão era bonito. Todo verde. Tinha assim umas tonalidades azuis em determinados pontos do corpo quando acentuados pela luz. Era grande. Meio metro, talvez. Com uma cauda enorme que perfazia dois terços do seu tamanho. Tinha um ar robusto e imponente.
Às vezes parecia de porcelana. Não se mexia. Não lhe sentia a respiração. Parecia um boneco. Um boneco em porcelana da Bordalo Pinheiro.
E foi então que chegou o carro. A gaja tinha comprado um Tesla eléctrico. Aquilo não se ouve chegar. Nem partir. Não se ouve nada. Nem parece um carro.
E, então, splash, passou-lhe por cima e esborrachou-o no cimento da eira. Ele nem teve a oportunidade de fugir, de mandar um pulo para o lado, de se enfiar dentro do tubo. Não. Foi apanhado à traição pelo carro eléctrico do Elon Musk.
Raios partam!
Vou sentir saudades do sardão. Era bonito, o raio do animal. E fazia-me companhia quando ia fumar um cigarro à janela. Espero que tenha deixado descendência. O cimento da eira precisa de um habitante.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/14]

A Casa Desapareceu

Regressei a casa.
A árvore está seca. É uma figueira. Não sei se está morta. Não sei nada de árvores. Mas está seca. Sem frutos. Sem folhas. Os ramos parecem palha.
Abro a porta de casa. Entro. Sinto o cheiro a caldeirada. O refogado com cebola e alho, e o tomate. E os peixes que a minha mãe lá punha. O safio, a pescada, a sardinha, a lula, a amêijoa, a raia… Ai!, a raia! O que eu gosto de raia. Raia frita! Há quanto tempo não como raia frita?
Entro pelo corredor da direita, directo à cozinha, à sala. Vejo o tacho de barro ao lume, a fervilhar, olho para a rua através das janelas da marquise e vejo o silêncio. Não há vento. Os arbustos não abanam. O baloiço está parado. Há uma quietude. Vou até à sala. A televisão está ligada. Está a dar o Verão Azul. Sorrio de saudade ao ouvir aquelas vozes espanholas cheias de aventura.
Volto para trás. Vou para o outro corredor. O dos quartos. No quarto dos meus pais sinto o cheiro da laca da minha mãe. Do after shave do meu pai. Passo pela casa-de-banho e vem-me o cheiro de um perfume que lá deixei cair. A casa ficou cheirosa durante meses. Ainda hoje me cheira. Lembro-me que me atacou a bronquite.
Passo pelo meu quarto. Vejo a máquina de escrever. O poster da Kim Wilde. Os livros dos Cinco e dos Sete. Os Livros do Harold Robbins que comecei a ler quando me julguei adulto. As cassetes com as gravações do Som da Frente e da voz incompreensível do António Sérgio. Os singles dos Xutos & Pontapés e dos GNR. Os LPs dos Bauhaus e dos Echo and The Bunnymen. Ouço os Chameleons a dizerem que A Person Isn’t Safe Anywhere these Days…
Olho pela janela. Olho pela janela mas não vejo nada. Está emparedada com tijolos. Os cheiros da caldeirada e dos perfumes desvaneceram-se. Os Chameleons calaram-se. A casa desapareceu.
Estou num T0.
Estou no T0 onde vivo. Onde vivo só, na companhia das minhas memórias. Memórias de um tempo de esperança. Um tempo onde a vida prometia ser a Taluda, o Totoloto, o Euromilhões.
Um tempo cheio de maravilhas por vir.
Um tempo de enganos, afinal.
Estou deitado no sofá no T0 onde habito e olho para a televisão onde o Hernâni Carvalho fala de mais um crime contra idosos.
Eu já sou um idoso.
Acho que o Hernâni Carvalho começou a falar para mim. A falar de mim. Eu que me sinto enganado pela vida. Eu, já velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/13]

Sinto o Peso do Revólver

 

 

Sinto o peso do revólver na mão. É pesado. A mão está transpirada e ele parece querer fugir.
Lá em cima, duas águias a planar. Acho que são águias. Estão muito alto. Lá muito em cima. E não consigo vê-las muito bem. Mas andam aqui à volta. A rondar.
Já fomos amigos!, oiço dizer. Já me tinha esquecido dele. Estava ali à minha frente.
Já fomos amigos!, repete.
Sim, fomos amigos, pensei. E olha onde isto nos trouxe.
Olho para ele ali à minha frente. A sangrar. Os joelhos partidos e a sangrar.
Sim, já fomos amigos. Mas não serviu de nada. Nunca serve de nada. Amigos ou não, o que conta é o fim. E para esse fim há que escolher meios. Há quem não olhe aos meios.
Já não sei porque é que estamos aqui. Já não sei o que quero fazer. Já não sei para que é tudo isto.
As águias, e continuo a achar que são águias, estão aqui por cima às voltas. São bonitas. Imponentes. Gostava de ser uma águia. Gostava de ser uma águia e não ter problemas de sociabilidade. De amizade. Problemas.
Porque é que estás a fazer isto?, pergunta.
E eu já não sei. Ou sei, mas não quero pensar mais nisso. Cansa-me.
Olho para ele. Lembro-me. Lembro-me de tudo. Lembro-me de termos sido amigos. E lembro-me de quando tudo se perdeu. Sei exactamente porquê.
Mas não quero pensar nisso.
Olho para ele e vejo-lhe o medo no rosto. O terror.
Cheira mal. Ele acabou de se borrar.
Sinto o peso do revólver. Olho para ele. Ergo-o. Ergo-o à altura da minha cara. Estou a transpirar. Enfio o revólver na boca. Sinto o sabor amargo do metal. Bate-me nos dentes. Magoa-me. A língua fica sem espaço. Não consigo respirar.
E disparo.
Sinto a bala a sair pelo cano do revólver, a entrar na boca, queimar a língua, furar o céu da boca e entrar na cabeça, estilhaçar os miolos e sair pelo coruto.
Caio para trás. Vejo lá no alto as duas águias a planar. Acho que são águias. E ouço-o gritar. Não percebo o que diz. Talvez não diga nada. Talvez seja só um grito.
E pensar que já fomos amigos.
Como é que chegámos aqui?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/12]