Ainda Há Pessoas Normais

Estava num restaurante da baixa a jantar. Num daqueles restaurantes pequenos, com poucas mesas, e as poucas mesas existentes estão tão encavalitadas umas nas outras que duas pessoas que não se conhecem e que estão a jantar em mesas separadas parecem estar a jantar uma com a outra e a trocar segredos íntimos.
Mas é um restaurante de comida caseira, feita por uma senhora já de certa idade que de vez em quando espreita pela guarita da cozinha para ver o andamento da sala, e que tem a vantagem de ser barato.
Estava a jantar sozinho, como quase sempre, enquanto ia espreitando o telejornal que passava na televisão pendurada no alto da parede em frente.
Ao meu lado estava uma senhora a jantar com a filha e, nessa noite, a mesa do lado roubava-me a atenção e nem conseguia ligar à tragédia grega que estava a tombar sobre os arredores de Atenas.
A senhora andaria pelos quarenta anos. Ainda jovem. Bonita. Bastante atraente. A filha não teria mais que os doze, treze anos. Adolescente. Rebelde. E estavam em guerra.
A miúda pedia Oh, mãe, corta-me a carne, ao que a mãe respondia Corta tu. A miúda agarrou no bife com as duas mãos e começou a comer assim, com o bife nas mãos, a metê-lo na boca, a tentar rasgá-lo com os dentes mas a não conseguir grandes resultados. A carne tinha nervo. A comida era caseira mas às vezes não era grande coisa.
Quando a mãe viu a figura da filha à sua frente, de bife esticado entre os dentes e as mãos, deu uma palmada rápida e funcional na mão da miúda que deixou cair o bife no prato enquanto gritava um sonoro Ai!. Claro que não doeu nada que eu vi que a palmada foi mais um ligeiro toque que uma verdadeira palmada. Mas a miúda tinha de se fazer ouvir. Afinal era a vítima.
Olha a badalhoquice que estás a fazer!, disse a mãe enquanto olhava para mim a ver se eu não estava a ligar nada aos incidentes do lado. Eu não consigo cortar a carne, guinchava a miúda, embirrenta. Já tens idade para ir ao cinema com o teu namorado, também tens idade para cortar o bife, ou se fores jantar com ele também lhe pedes para te cortar a carne?, retorquiu a mãe. Como sopa!, respondeu certeira a filha.
Eu não consegui evitar uma gargalhada tão forte e imediata que acabei por cuspir um bocado de arroz que tinha na boca.
A mãe revirou a cara maldisposta para mim. Censurou-me.
Eu estava parvo, completamente hipnotizado pela conversa delas. Com pena da mãe. Mas a achar piada à filha. Já tinha esquecido a tragédia dos gregos.
A miúda lá voltou a pegar no talher. Mas ela agarrava ao contrário. A faca na mão esquerda. O garfo na mão direita.
E eu pensei Então, pá?
E a mãe disse Então, rapariga?
E a miúda disse Então?!
É que não me dá jeito de outra maneira, continuou. E a mãe disse Não vimos mais aqui jantar!. Depois esticou os braços e, com o seu talher, acabou por cortar o bife à filha.
Eu acabei de jantar. Bebi um café. Levantei-me e paguei ao balcão. Saí.
Já na rua pensei Nem sei o que pensar!. Mas sorri. E o sorriso tornou-se gargalhada.
Aquilo pôs-me bem disposto.
Afinal ainda há pessoas normais.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/24]

Deixei de Ver o Carro

Vinha na estrada, de carro. Vinha devagar. Não tinha pressa. E vinha a pensar na vida. Acho. Não tenho a certeza. Mas acho que vinha a pensar na vida. Venho sempre a pensar qualquer coisa. Muitas vezes na vida. Ajuda-me a passar o tempo e afasta-me da neura.
Cheguei ao cruzamento e já lá estava um carro parado. Semáforo vermelho. Deixei-me deslizar suavemente até parar atrás do carro. Atrás de mim parou outro.
Na perpendicular passavam muitos camiões. Camiões cisterna. Aqueles camiões que transportam carros novos. Um camião da cerveja Sagres. Uma ambulância com as luzes ligadas.
Quando estou no carro olho para o que se passa lá fora, na estrada. Penso muito na vida e observo os outros.
Por exemplo, o tipo que parou atrás de mim estava com o dedo enfiado no nariz. Mas acho que nem percebia o que estava a fazer porque o olhar dele estava perdido para além da janela do seu lado, aberta, braço de fora (o outro) e um cigarro esquecido na ponta dos dedos.
À minha frente estava uma mulher. Talvez uma rapariga. Não consegui ver muito bem. Estava a olhar para o banco traseiro através do espelho do seu pára-sol. No banco traseiro estava um bebé numa cadeirinha presa ao banco do carro.
Lá mais à frente, na estrada perpendicular, continuavam a passar os camiões. Às vezes também passava um ou outro carro.
O trânsito parou.
O semáforo passou a verde.
O carro à minha frente engatou a primeira, apagaram-se as luzes de paragem e arrancou. Ainda não estava completamente na estrada quando passou um enorme camião, daqueles com um atrelado enorme, talvez de alguma empresa de distribuição para grandes superfícies, e bateu no carro que estava a arrancar à minha frente. Eu parei logo, antes mesmo de arrancar. O carro da mulher, ou rapariga, não sei bem, foi atingido na parte da frente, na parte do motor, e, com o impulso, começou a rodopiar, como um pião, rodando pela estrada fora, à frente do camião, a deslizar, até começar a perder velocidade e o camião, que à velocidade que vinha não conseguiu travar, acabou por atingir o carro de novo, mas desta vez em cheio, a meio, e quase que desfez o carro que foi projectado e só parou na parede de uma casa que estava lá mais à frente e que acabou por deitar abaixo. O camião começou finalmente a travar mas não conseguiu evitar enfiar-se, também ele, no buraco feito pelo impacto do carro na casa.
Deixei de ver o carro. Só o atrelado do camião.
Eu continuei parado, dentro do meu carro, com o semáforo a passar a vermelho e a verde e a vermelho e a verde outras vezes, com amarelos pelo meio, e só queria não pensar na mulher, ou rapariga, e no bebé que estavam naquele carro.
E no meio daquilo tudo, não me saía da cabeça aquele clichê Para morrer, basta estar vivo! Queria arrancar a cabeça e não pensar mais imbecilidades como aquela. Mas não era capaz.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/23]

Uma Praia Deserta

É Domingo. Dia de tédio. Dia de neura. Está calor. Visto os calções, pego na toalha, n’A Bola e saio de casa.
Vou de carro até à praia onde costumo ir.
Arrependo-me depressa.
Ainda não vejo o mar e já há carros parados pelas bermas. Sigo em frente à espera da sorte. Mas não aparece. Não há um buraco à minha espera. Continuo em direcção às outras praias que se seguem.
Está tudo igual. Tudo cheio de gente. Cheio de carros.
Continuo estrada fora. Vou na marginal, junto a um penhasco. Olho para o mar. Está convidativo. Mas há muitos barcos, gaivotas, botes, colchões de ar e gente, gente, gente.
De repente, uma buzina soa histérica ao meu ouvido, recupero o olhar para a frente e vejo um carro quase em cima de mim e só tenho tempo de desviar o volante para a direita e entrar pela berma mesmo sobre o mar. Travão a fundo. O carro bloqueia. Levanto uma nuvem de pó. Ouço ainda a buzina do outro carro a gritar enquanto se afasta. Estou a transpirar. O coração bate muito e muito depressa. O carro está suspenso sobre o penhasco. Foi por pouco.
Meto a primeira e volto à estrada. Sigo por ela fora e começo a descer. Vou devagar. É bastante íngreme.
Chego a uma pequena enseada. Vazia. Linda e vazia.
Páro o carro. Saio. Olho à minha volta. Ninguém.
Ao fundo, ao fundo da praia deserta, o barulho das pequenas ondas do mar a arrastarem-se na areia. Esqueço a toalha e A Bola e vou por ali fora. Largo os chinelos. Tiro a camisa. Começo a correr. Chego à água e mergulho. Mergulho na água tépida do mar e, com o impulso do mergulho, vou por ali fora, debaixo de água, por momentos. Depois subo. A cabeça fora da água. Abro os olhos e vejo o horizonte a perder de vista. Viro-me de costas e descubro a praia, a mesma praia de onde mergulhei, cheia de gente, muita gente, uma quantidade de gente inacreditável, quase que parecem todas as pessoas do mundo.
Nado até à praia e vejo alguém a caminhar na minha direcção. Mãe. Vem ali a minha mãe. E o meu pai. O Zé Pedro. O Bowie. A minha primeira namorada. O meu tio. Os meus avós. Os quatro. A Marilyn também está ali. E o Bogart. O JFK. O Orson Welles. O Ian Curtis. O Philip Roth, foda-se!
Onde é que estou?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/22]

Umas Nuvens Escuras Sobre a Montanha

Parei ali defronte da casa. Atrás de mim o caminho de terra batida. A leve aragem de Julho fazia levantar uma pequena poeira que mal se via, mas sentia-se nos pulmões quando inspirávamos. À frente, lá no cimo, a casa.
Abri o portão e comecei a subir a ladeira até casa. Dos lados, à laia de boas-vindas, a plantação de milho. Não muito. O suficiente para consumo próprio e algum excedente para ser vendido na feira de Domingo onde os vizinhos vendiam ou trocavam o que tinham a mais. Também havia umas batatas. Tomates. Algum feijão verde. Duas ginjeiras. Sem ginjas, claro, que os pássaros comiam-nas todas. Todos os anos era a mesma coisa. Era.
No fim desse campo cultivado que recebia quem chegava, a enorme nespereira onde eu costumava subir e olhar ao fundo a montanha.
Parei a olhar para ela. Já não me parecia tão grande.
Do outro lado, a um canto, a casota e o Piruças. Estava estático a olhar para mim. As quatro patas bem fixas no chão. Parecia de porcelana. Não ladrou. Deve ter-me reconhecido. Ficou quieto.
Continuei para casa.
A relva frente ao alpendre. Uma bicicleta encostada ao muro. Uma pá tombada. Um bola de futebol, vazia, perdida por ali.
Subi as escadas do alpendre. Vi a mesa de madeira. As cadeiras. O cinzeiro sobre a mesa. Caminhei devagar até à porta de entrada. Levei a mão à maçaneta e…
Virei-me para trás. Olhei para a montanha. Formavam-se umas nuvens escuras sobre a montanha. Vinha lá chuva, pensava eu.
Larguei a mochila no chão. Sentei-me numa das cadeiras. Puxei de um cigarro e acendi-o.
No caminho em frente, lá em baixo, passou uma carrinha. Levantou uma poeira seca. Ao fundo, mais perto da vila, o motor de uma motorizada. Uma Zundapp, com certeza.
Olhei a maçaneta da porta.
Acabei de fumar o cigarro e apaguei a beata no cinzeiro.
Recostei-me na cadeira. Mais ao longe, ainda, um cão a ladrar. Aqui mais perto, o Piruças respondeu. Depois, houve outros na conversa em cadeia.
Vem lá chuva, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/21]

A Mulher que Nunca Acabava uma Conversa

Ela era uma daquelas mulheres que nunca acabam um assunto, vão assim despejando coisas ao longo dos tempos como se a conversa ainda lá estivesse, em banho-maria. E ia despejando as ideias como se fossem arrotos. Iam saindo. Aos solavancos.
Às vezes não percebia muito bem para onde é que caminhava a conversa. Quando julgava que já estava terminada, lá vinha um Portanto, um Assim, um Contudo ou ainda um Ou se quiseres, como se eu quisesse alguma coisa. Não, não queria!
Chegava a acontecer a conversa prolongar-se por vários sítios, entrando na conversa com várias pessoas diferentes, prolongando-se no tempo e no espaço, sem nunca perder o fio-à-meada.
Também no Facebook era assim. Talvez pior. Escrevia um post. Depois editava-o. Duas vezes. Três vezes. Havia posts que já não tinham nada a ver com os posts originais, tal a quantidade de edições. Chegava, inclusivamente, a responder a si própria para continuar uma estória sem fim.
Era cansativo. Ela era uma mulher cansativa.
Mas era interessante. Culta. Inteligente. Elegante. Lia. Gostava de pintura. Conhecia vinhos. Gastronomia. Acompanhava todos os programas de comida que passavam pela televisão. Claro que, na vida real, não comia glúten, nem lactose, nem gorduras, nem fritos, nem açucares. Procurava sempre as coisas light, qualquer coisa free, magro, com omega 3, cálcio. Uma lista interminável de coisas. E depois passava a vida na casa-de-banho. Nunca percebi se era causa ou consequência.
E então, uma vez virou-se para mim, ia eu a conduzir o carro, ela ia ao lado, no banco do pendura, e disse Isto não vai a lado nenhum. Eu já estava um pouco farto e aproveitei a deixa para sair. Encostei o carro à berma, abri a porta, saí e fui, a pé, em frente. Ela ainda me chamou algumas vezes. Ouvi-a gritar pelo meu nome. Mas não me quis virar. Alguém tinha de pôr um ponto final numa conversa que nunca mais terminava.
Ainda não tinham passado vinte minutos quando cheguei ao fim da estrada. Era uma estrada sem saída. E aí percebi a conversa dela Isto não vai a lado nenhum, pois não. Mas não podia dizer que estava a falar da estrada? Que porra!
Peguei no telemóvel. Sem rede. Voltei para trás a pé. Cheguei ao ponto de onde tinha partido mas o carro já não estava lá. E ela também não.
Entretanto passaram-se dois dias. Tenho a cara a arder por causa dos pêlos da barba. Há dois dias que não faço a barba e não estou habituado a ter pêlos na cara. Estou com fome. Só comi umas amoras selvagens que encontrei ali, numas silvas. Bebi água do pequeno ribeiro que cruzei ontem. Fiquei com diarreia. Não tenho papel. Não tenho lenços de papel. Já me perdi. Acho que ando aqui às voltas e não encontro a estrada de regresso. Ainda não vi nenhum carro. Continuo sem rede no telemóvel. Não tenho cigarros. Para quê, cigarros? Não fumo. Está bem, mas podia começar. Talvez me aliviassem os nervos. Está a ficar escuro. Acho que vai chover. Não tenho onde me abrigar. Não sei para onde ir. Tenho saudades dela. Gostava das conversas que tinha com ela. Gostava de a ouvir falar. Quando é que é o Festival da Canção?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/20]

Ela Foi Embora e Levou (Quase) Tudo

Cheguei a casa. Estava vazia e em silêncio.
Vazia mesmo. Vazia de quase tudo. Ela foi embora e levou tudo. A cama. A mesa da sala e as cadeiras. A mesa da cozinha e as cadeiras. Os quadros. Os quadros que os meus amigos pintores me tinham oferecido. As fotografias. Mesmo as fotografias que eu tinha tirado, desapareceram das paredes. Volatilizaram-se. Até as prateleiras onde estavam os livros. Foram embora. Mas os livros, os livros ficaram. Até me ri. Levou tudo menos a merda dos livros. Não sabia o que lhes fazer. Agarrei no primeiro que me apareceu. Mulheres de Eduardo Galeano. Levei-o comigo.
Dei uma volta pela casa. A olhar o vazio. Sentir a dor do vazio.
A sala. O quarto. A casa-de-banho sem papel higiénico. A dispensa vazia. A cozinha. Na cozinha tinham ficado a torradeira e a chaleira. Até uma cafeteira antiga, estava em cima do fogão. Mas não havia café. Nem manteiga. Nada. Nada para comer. Levou tudo.
Pousei o livro na bancada.
Abri o frigorífico. Quase vazio. Uma garrafa de vinho branco alentejano. Vidigueira. Mas já encetado. Foi por isso que ficou. Aberto não tinha valor.
Agarrei na garrafa. Abri a porta do móvel mas não havia nenhum copo. Tirei a rolha com os dentes, cuspi-a para o chão e bebi um gole pelo gargalo. Estava bom.
Pensei em ir para a sala. Mas lembrei-me que não havia sofá. Nem televisão. Tinha o computador porque o tinha levado comigo. Mas não me apetecia ligá-lo.
Fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro. Bebi mais um gole de vinho branco da Vidigueira.
Peguei no livro de Eduardo Galeano e li:
“Sukaina casou-se cinco vezes, e nos cinco contratos de matrimónio negou-se a aceitar a obediência do marido.”
Fechei o livro e desatei a rir. A rir feito tonto. Um riso que não conseguia parar. Um riso que me vez chorar, chorar de tanto rir, e foi então que disse, alto, a reverberar na casa quase vazia, repleta de livros, Estamos bem fodidos!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/19]

Mas Qual País?

Vinha no carro. A TSF na rádio. Era um Bloco Central especial com os dois Pedros do costume e o super-Paulo da Caixa, que já o fora dos impostos e da saúde. Na conversa fiquei-me por um aforismo de Luís Montenegro repetido por um dos Pedros: O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Pois não. A vida das pessoas não estava melhor. Mas o país estava? Qual país? Este dos dois milhões de pobres? Dos salários mínimos de quinhentos e oitenta euros? Das pensões de sobrevivência que não chegam a duzentos euros? Dos velhos com terrenos sem futuro perdidos num interior que ninguém quer e que tem de os limpar em tempo recorde? Das pessoas expulsas dos centros das cidades pela ganância? Da pequena e grande corrupção? Dos processos que prescrevem ou desaparecem?
Senti-me deprimido.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Cheguei a casa. Acendi um cigarro e sentei-me no sofá, liguei a televisão e recostei-me. Estava cansado.
CMTV.
Manuel Pinho a lidar os deputados. Os Hells Angels. Os hooligans da Juve Leo e o assalto à Academia de Alcochete. A prescrição dos processos sobre as contas dos partidos da democracia. O desaparecimento de uma parte do processo contra Ricardo Salgado.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Levantei-me do sofá. O cigarro esquecido na mão.
Um jovem esfaqueado e morto à entrada de casa. Bruno de Carvalho a queixar-se à polícia por bullying do Sporting e a pedir audiência à Procuradoria-Geral da República. O botox da Ana Malhoa. Escolas com salários em atraso e falta de alimentos nas cantinas. Agentes da GNR castigados por passarem poucas multas. Os Maias. CR7. Jesus. O Benfica. Ufa!
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O cigarro consumido caiu ao chão.
Fui ao quarto. Agarrei no revólver. Saí à rua.
Estava no lusco-fusco. Fim-de-dia. Muita gente na rua. A passear. A caminho de casa.
Comecei a disparar. Comecei a disparar a torto e a direito. Acertei. Acertei. Errei. Acertei.Errei.Errei.AcerteiAcerteiAcerteiErreiAcertei…
Os corpos iam tombando à minha passagem.
Eu estava a ajudar o país.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Matei os velhos para poupar nas pensões. Matei as crianças para poupar os serviços de urgência das Maternidades. Matei as outras pessoas todas para poupar o Serviço Nacional de Saúde. Matei brancos e pretos e mulatos e alguns chineses, e homens e mulheres, e alguns gays e trans e travestis para não me acusarem de racista ou sexista.
Matei polícias e médicos para poupar o Orçamento de Estado. Matei professores para evitar mais greves.
Ia limpando tudo à minha passagem.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Até que fui barrado.
A minha mãe viu-me a passar e a disparar e, quando passei ao pé dela, e eu não a vi, levantou a bengala e deu-me com ela na cabeça. Com força. Com fúria. Com muitas lágrimas nos olhos. Com muitos gritos de dor.
Eu cai no chão. E disse Obrigado, mãe!
E tudo ficou negro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/18]