O Tipo a Quem Eu Salvei a Vida

E ele disse-me Salvaste-me a vida! Obrigado!. E quando eu o olhei nos olhos a agradecerem-me, arrependi-me logo ali naquele momento, de a ter salvo.
Nesse dia ele ainda agradeceu mais algumas vezes. Parecia sincero. Parecia.
Ao longo dos anos voltou a repetir várias vezes Não me esqueço que me salvaste a vida! Sempre a parecer sincero. A parecer. A não esquecer.
Até que foi preciso que ele se lembrasse que eu lhe tinha salvo a vida e, nesse dia, nesse preciso momento, esqueceu-se.
O esquecimento faz parte da alma humana. Esquecemos-nos para poder continuar a viver. Eu já esqueci várias vezes. Precisei de esquecer para seguir em frente. E segui. Esqueci e segui.
E foi isso que eu fui. Um esquecimento. Eu fui um esquecimento para que a vida dele não voltasse atrás. Eu fui um esquecimento para que pudesse seguir em frente. Eu fui um esquecimento necessário para que a vida que eu salvei pudesse continuar a ter significado. Valor. Sentir-se viva.
Quando ele se esqueceu que eu lhe salvei a vida, foi também o momento em que ele decidiu acabar com a minha.
O seu esquecimento foi a minha morte.
Vou fumar um cigarro. Ou vários. E beber um copo de vinho tinto. Ou vários. Alentejano. Gosto de vinho tinto alentejano. Pode ser que me esqueça.
O vinho é vida. Não é?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/30]

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