A Tristeza Não Dura

Estava quase a chegar à praia. Estava quase a colocar o pé na areia. Quando vi a primeira onda, rasa, pequenina mas forte, a galgar os pequenos muros de areia feitos com os pés e começar a arrastar telemóveis, chinelos, sacos, cestos, mochilas, a enrolar toalhas e pára-ventos, e os chapéus-de-sol como borbulhas espetadas ao longo do avanço da pequena onda que tudo levava à frente menos os chapéus-de-sol, espetados na areia. As pessoas apanhadas de surpresa.
Estava quase a colocar o pé na areia mas não o fiz. Estava já toda a gente a recuperar o espírito, a perceber o perigo e a começar a correr à toa atrás de um chinelo que fugia e de um telemóvel que não parava quando veio a segunda onda, mais forte que a primeira, e arrancou os chapéus-de-sol espetados na areia e deitou crianças e jovens ao chão e começou a levar um pouco de pânico ás pessoas ali na praia.
Desisti de colocar o pé na areia e comecei a subir a escadaria de volta quando vi a terceira onda, ainda mais forte, a levantar as pessoas do chão, a bater com força e a levar tudo de arrasto. Nada lhe fazia frente.
As pessoas começaram realmente a assustar-se.
A meio das escadas ainda vi pessoas a tentar fugir. Pessoas a ultrapassar outras pessoas, pessoas a pisar pessoas, homens a largarem mulheres e crianças e a fugirem à quarta onda, grande, grande que arrastava os corpos mais pequenos das crianças para o mar.
Continuei a subir as escadas e virei-me ainda a tempo de ver a quinta onda, enorme, a limpar toda a praia. Já não havia telemóveis, nem chinelos, nem sacos, nem cestos, nem mochilas, nem toalhas nem pára-ventos, nem sequer os chapéus-de-sol. Ainda havia alguns corpos a tentar chegar às escadas, mas com dificuldade. E o que mais se via eram corpos a boiar no mar, a afastarem-se para longe. Para o horizonte.
Antes de chegar ao alto do penhasco, ainda vi a sexta onda. Mas já não vi mais nada. Já não havia nada para ver. Já não havia praia. Só água. Só mar. Só corpos no mar. A boiar.
Virei costas e já não vi a sétima onda.
Mas quando cheguei ao alto do penhasco, à estrada onde tinha o carro, agoniado, angustiado, assustado, a querer gritar mas sem forças para o fazer, vi a festa. A festa de gente que se abraçava, agitava bandeiras de Portugal e levantava os chapéus-de-sol e as toalhas, e as raparigas corriam com os seios soltos, livres, e havia abraços e beijos, alegria e muitos sorrisos. A Selecção Portuguesa de Futebol Sub-19 tinha acabado de se sagrar campeã da Europa frente à Itália, na Finlândia.
Não há tristeza que sempre dure.
Tirei a minha toalha e fui festejar. Tinha tempo para chorar os mortos. A bem da verdade nem os conhecia.

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