Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]

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